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Baleias visitam o litoral catarinense para procriar

BOAS-VINDAS ÀS
BALEIAS!


Mamífero dócil ameaçado de extinção, a baleia franca é a razão de ser do instituto que leva o nome da espécie – focado na pesquisa, na educação ambiental e no turismo ecológico

No passado, muito antes do desenvolvimento sustentável entrar na ordem do dia, elas eram caçadas indiscriminadamente, quase uma rotina – como se fossem intermináveis, como se o homem fosse seu legítimo proprietário. Entre os séculos 18 e 19, a captura ganhou impulso: descobriu-se que o óleo abundante delas extraído servia para iluminar fazendas e engenhos, garantindo que os escravos pudessem trabalhar à noite. Reconhecida na década de 1930 como espécie ameaçada, a baleia franca continuou no alvo dos arpões, e sempre por interesses econômicos, até 1973, quando o último exemplar foi abatido na estação baleeira de Imbituba, Sul de Santa Catarina. Emblemático que esteja em Imbituba, na encantadora Praia do Rosa, a sede do Instituto Baleia Franca (IBF), uma ONG nascida há três anos com o propósito de fortalecer as políticas públicas voltadas à preservação da baleia franca – e, em conseqüência, do ecossistema local.

Com a integridade assegurada por um pacote de leis, entre as quais se destaca o decreto que cria a Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, em 2000, esse mamífero de 70 toneladas freqüenta as águas quentes do litoral catarinense, de junho a novembro, para procriar e amamentar seus filhotes. Hoje, é hóspede bem-vindo. Mas custou a esguichar por aqui novamente, depois de tanto tempo em perigo. O primeiro registro de que a baleia estava de volta foi em 1980, avistada por um grupo de pescadores. Dali em diante, voluntários hasteiam a bandeira da preservação, pesquisadores se engajam na causa, o governo federal proíbe a caça às baleias na costa brasileira (1986), o governo de Santa Catarina declara a baleia franca “monumento natural” do Estado (1995), e – boa surpresa – em 2003 já se contam 120 delas nadando nos 130 quilômetros que compõem a APA.

Espécie interage bem com o homem: retorno bem-vindo

Tal cenário instiga ambientalistas a constituir entidades que, além de defender os visitantes marinhos em seu berçário natural, aproveitam a deixa para promover o desenvolvimento sustentável das comunidades abrangidas. Uma das mais ativas é o IBF. Fundada em outubro de 2001, a organização concentra o foco em três eixos: pesquisa, educação ambiental e turismo ecológico. Vem computando resultados expressivos, que já atraíram parceiros de peso como a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e a indústria têxtil Döhler, apoiadora oficial do instituto desde julho de 2004. “Esse esforço conjunto procura complementar o papel do Estado ao atender às demandas da sociedade e colaborar com o desenvolvimento harmônico do país, buscando estratégias de conservação da natureza e alternativas para melhorar a qualidade de vida da população”, interpreta Eduardo Peixoto, presidente do instituto.

Conhecer para preservar
Nas três vertentes em que opera o IBF, um princípio comum: para preservar, é preciso conhecer. Por isso, o campo da pesquisa merece atenção especial. Comandado pela bióloga Mônica Danielski, o Programa de Monitoramento da Baleia (ou Promoba) acompanha a presença, a distribuição e o comportamento dos animais em pelo menos cinco praias da APA: Rosa, Ouvidor, Vermelha, Luz, Ibiraquera e Ribanceira. O trabalho, claro, é realizado apenas naquele período do ano em que as mamães estão nas redondezas. Cinco pesquisadores – ou melhor, pesquisadoras, já que a equipe só tem mulheres – espalham-se por postos fixos, duas vezes ao dia, e registram cada movimento das baleias, observadas com auxílio de binóculos. Primeiro, anotam se elas estavam sozinhas, em pares ou em grupos. Também assinalam quando emitem sons, batem a cauda, expõem a cabeça ou se encontram em repouso, entre outras situações.

Uma vez por semana, a área monitorada abarca as praias vizinhas, percorridas de carro. E tem sempre alguém da equipe nos passeios de observação de baleias organizados pela agência Vida, Sol e Mar, tanto para orientar os participantes quanto para coletar informações detalhadas sobre como elas agem diante da presença do homem. Ainda são feitos vôos de estudo para fotografar a cabeça dos animais, de maneira a avaliar a distribuição das calosidades, o que possibilita identificação individual e estimativas populacionais. Mônica Danielski explica que esse leque de atividades contribui decisivamente para a preservação da espécie (chamada Eubalaena australis), ao gerar dados precisos sobre suas características e atitudes, migração, longevidade (estima-se em 80 anos) e população (calculada em 7.500 exemplares). “A pesquisa científica é uma ferramenta para alcançar desenvolvimento e progresso, um agente de transformação fundamental para mudar a nossa relação com o meio ambiente”, ressalta a coordenadora.

Na pesquisa – da mesma forma que nos demais segmentos –, o IBF abre vagas para estágios, fisgando um bom número de candidatos em faculdades de biologia e entre recém-formados. A paulista Patrícia Rivera, que atuou na última temporada, viu o estágio como uma boa oportunidade de trabalhar com mamíferos marinhos, desejo acalentado desde o segundo ano de curso: “É o que eu sempre quis, uma realização”. Animou-se com o fato de que esse é um projeto em fase de consolidação – portanto, há muito por fazer. “Aí, posso ser protagonista, não apenas mais uma a colocar a mão.” Protagonistas igualmente entusiasmadas cuidam das ações e estratégias no eixo da educação ambiental, pilotado pela oceanóloga Giseli Aguiar de Oliveira. Em síntese, o objetivo é formar “agentes da natureza”, multiplicadores dos valores ambientais, nas comunidades da região freqüentada pela baleia franca.

A primeira experiência toma corpo no Centro Educacional de Ibiraquera, uma escola de ensino fundamental próxima à sede do IBF. Há poucos meses, professores e alunos participam de dinâmicas acerca dos ecossistemas costeiros e do uso consciente dos recursos naturais, estimulando a incorporação de novas atitudes em sua relação com a Terra. Oficinas ecopedagógicas, brincadeiras e teatro de fantoches são algumas das ferramentas para sensibilizar a criançada. “As técnicas aguçam o interesse infantil pelo mundo natural, envolvendo o estudante de forma mágica nas causas ambientais”, ressalta Giseli. No programa de capacitação, professores aprendem os novos conceitos da educação ambiental – “algo que não pode ser apenas ensinado, mas deve ser vivenciado” – e ficam sabendo o quanto a informação qualificada é importante “para que as pessoas atuem na solução e prevenção de problemas ecológicos”.

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