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Foto: Wander Roberto/CPB/Divulgação
A campeã Ádria, em Atenas: brasileira mais premiada nas paraolimpíadas veio morar em SC em busca de sossego

ESPORTE DA EFICIÊNCIA

Na pista, na quadra ou na piscina, jovens portadores de necessidades especiais
encontram o caminho da inclusão

A mineira Ádria Santos descobriu a velocidade quando, pré-adolescente, estudava em uma escola para deficientes visuais, no Rio de Janeiro. O catarinense Vanderlei Quintino deparou com a natação há nove anos, depois do acidente de moto em que perdeu a perna esquerda. Em 1998, seu conterrâneo Odilon Bastos, ex-cobrador de ônibus, levou tiro num assalto, ficou paraplégico – e resolveu jogar basquete. Ádria, Vanderlei e Odilon são campeões cheios de medalhas nas modalidades que escolheram. Mais que acumular títulos, porém, o esporte trouxe para eles a oportunidade de inclusão vedada a muitos portadores de necessidades especiais, apesar dos sensíveis avanços já registrados no país.

Em Joinville, onde os três atletas moram, há um bom número de iniciativas que abrem caminho para resgatar a eficiência dessas pessoas por meio da prática desportiva, saltando obstáculos inerentes à sua condição física – e vencendo na vida, não só nas competições. Pelo menos três associações locais trabalham nisso, com ótimos resultados. Novo impulso veio da Univille, que lançou o Programa Movimentação, composto por três afinados projetos de extensão universitária para “pessoas especiais”, dois deles dirigidos a quem tem limitação física ou sensorial e um terceiro só para a terceira idade.

Implantado em março de 2004, o Projeto de Desenvolvimento do Esporte Adaptado (Proesa) reúne nove participantes, de 4 a 25 anos, para duas horas semanais de atividades, na piscina ou na pista de atletismo, comandadas pela professora Sônia Ribeiro e por dois estagiários de Educação Física. Natural de Maringá, Sônia tem 12 anos de experiência na área e é uma das fundadoras do Cepe, o Centro Esportivo para Pessoas Especiais (que você vai conhecer nesta reportagem). Relata, entusiasmada, os benefícios extraídos do esporte por seus pupilos: “Eles passam a estabelecer outra relação com a sociedade e vivenciam novas sensações, sentindo-se capazes de superar desafios, com autonomia e capacidade produtiva”.

Vanderlei está no seu auge técnico: "O esporte facilitou minha adaptação a essa nova vida, me deu garra"

A longo prazo, o Proesa pode até revelar atletas de ponta, uma Ádria aqui, um Vanderlei ali. Mas o objetivo central é mesmo proporcionar uma melhor qualidade de vida pela via da atividade física. Bancado pela Univille, o projeto também serve para ampliar os conhecimentos técnicos e pedagógicos dos acadêmicos envolvidos. Em 2005, a professora Sônia quer inaugurar mais duas modalidades: bocha para vítimas de paralisia cerebral e goalball, um tipo de futsal para cegos. Já não é um esforço isolado: “Fazemos parte de um movimento. Aos poucos, o deficiente será visto de forma menos segregacionista”, almeja Sônia.

Com o nome sugestivo de Mãe D´água, o outro projeto de extensão universitária voltado a pessoas especiais ganhou o aval da Univille há dois anos, mas nasceu há cinco, idealizado pela professora Cleusa Schneider e apoiado pela academia The Best. Desde lá, o projeto usa a natação para integrar crianças e adolescentes. Hoje, são 55 portadores de síndrome de down e 10 cegos. Bem mais que os seis inscritos no primeiro grupo formado por Cleusa em 1995, para ensinar dança e capoeira. “O sucesso comprova a importância do esporte como instrumento de inclusão. As pessoas estão refazendo seus conceitos sobre o deficiente e dando crédito às suas eficiências”, avalia a professora.

A inclusão começa na hora da aula: todo mundo, ali, freqüenta a mesma piscina, sem restrição, e nenhum aluno “normal” olha enviesado para aqueles coleguinhas diferentes – bom sinal de que as novas gerações não herdaram a carga de preconceito dos adultos. “Essa convivência em ambientes comuns favorece a auto-estima e a sociabilização”, observa a professora, que, na Univille, leciona a disciplina de atividade motora adaptada. No final do ano, Cleusa deu conta de estender o projeto aos portadores de limitações ainda não contempladas – logo, apareceram 16 interessados. “É um sonho!”, vibra a coordenadora, enquanto aplaude o garoto cego que atravessa a piscina sem perder o rumo. Thiago Cunha, 12 anos, emagreceu oito quilos, fez bons amigos e diminuiu a ansiedade, tudo depois que foi para a piscina. “E ele aprendeu a nadar aqui”, orgulha-se a mãe Anelise.

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