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Professora Cleusa, coordenadora do Mãe D´Água, orienta aula de natação para crianças com Síndrome de Down

Para chegar ao pódio
Se, no Mãe D´Água e no Proesa, o esporte funciona como uma porta que evita o isolamento dos deficientes, em entidades como Cepe, Ajidevi e Adej predomina o lado competitivo, no fim das contas chegando ao mesmo objetivo. Fundado em 2002, pelas professoras Sônia Ribeiro e Ana Teixeira, o Cepe já alçou sua equipe de basquete, a Raposas do Sul, à primeira divisão do campeonato brasileiro. Todos os jogadores são deficientes físicos – a maioria, paraplégicos, que evoluem pela quadra a bordo de cadeiras de rodas adaptadas. O time cruzou, invicto, as três etapas regionais que o conduziram ao torneio nacional, em dezembro. “Sem patrocínio, sem nada, estamos na 12a posição do ranking, entre 75 equipes em atividade”, festeja o presidente Odilon Bastos, que “se vira como pode” para custear despesas de transporte, uniformes e equipamentos, amealhando doações.

A falta de recursos provoca transtornos óbvios. Tempo atrás, a turma viajou 25 horas de ônibus ao Uruguai, desembarcou pela manhã e jogou à noite, com o desempenho afetado pela maratona. Habitualmente, a menos de um mês de compromissos fora de Joinville, os atletas e as coordenadoras ainda estão passando o chapéu em busca de ajuda financeira, sem ter certeza de fechar a verba necessária. “No início, contei até com ‘pai-trocínio’ nessas ocasiões”, revela a técnica Ana Teixeira, agradecida. Enquanto isso, o campeonato paulista de basquete para deficientes já supera o torneio convencional em patrocinadores. Odilon Bastos espera que o êxito da equipe atraia empresas interessadas num apoio consistente, “não para ‘ajudar os coitadinhos’ ou por imposição legal, mas percebendo que essa é uma categoria de esportes com ótimo rendimento e pode assegurar boa projeção para a marca”.

A maior parte dos cestinhas do Cepe joga junta há vários anos – até 2002, o time funcionava na Associação dos Deficientes Físicos de Joinville (Adej), que desativou o basquete e se concentrou em natação e tênis de mesa. Com 60 filiados, o centro também trabalha a reabilitação e o lazer, mas 90% da procura se deve ao esporte competitivo. “Somos pioneiros em Santa Catarina como entidade com foco exclusivo no esporte”, sublinha Ana Teixeira, ex-atleta que acompanha a equipe há uma década. Em paralelo aos treinamentos, o Cepe organiza intercâmbios com instituições de outros Estados e – profissão de fé na inclusão social – faz palestras e exposições em escolas públicas e eventos a fim de desestigmatizar a figura do deficiente físico, partindo do princípio de que “preconceito é sempre produto da falta de informação”. Perto de 18 mil pessoas já assistiram a essas apresentações.

“Não existem limites”
Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Comde), Sérgio Luiz da Silva, ex-campeão brasileiro de natação, afirma que o esporte é “um dos maiores meios de integração do deficiente físico à sociedade” e a prova de que “não existem limites – o limite, quem faz, somos nós”. Outra entidade que aposta nesse preceito para formar “cidadãos independentes” é a Ajidevi, Associação Joinvilense de Deficientes Visuais. Os três corredores que representaram a Ajidevi na 12a Paraolimpíada, em Atenas, mereceram seis das 33 medalhas conquistadas pelo Brasil. Não é de hoje que a entidade marca presença lá fora. Já em 1988, o atual diretor de esportes, Carlos Roberto Sestrem, ganhava um bronze na maratona, durante os Jogos de Seul.

A Ajidevi mantém 60 atletas aptos a participar de torneios em âmbito nacional, 12 no primeiro time – “só disputam o ouro e têm grande futuro”, classifica Sestrem. Entre os destaques, Maria José Ferreira Alves e Gilson dos Anjos, que subiram ao pódio na Grécia. O dirigente planeja batalhar por patrocínios em 2005. “As empresas e os órgãos públicos são parceiros muito importantes. O amplo apoio ao esporte é um cartão postal de Joinville”, reconhece. Há poucos meses, Sestrem assumiu a presidência da recém-criada Federação Catarinense de Deficientes Visuais (Fecadesc), que articula 12 associações, com 200 atletas em 10 modalidades. “É essa união que vai permitir o fortalecimento do esporte a partir da base”, referenda.

A partir da base, surgem os campeões. Brasileira mais premiada em Paraolimpíadas – foram 12 medalhas, quatro de ouro, em Seul, Barcelona, Atlanta, Sidney e Atenas –, a velocista Ádria Santos, 30 anos, cega de nascença, tinha 14 quando foi convocada para a primeira das cinco edições. Reverenciada pelo talento nas pistas, em 2003 ela trocou o Rio de Janeiro por Joinville. Queria um lugar tranqüilo para criar a filha Bárbara. Na cidade, recebe auxílio mensal da Fundação Municipal de Esportes, consulta-se com uma fisioterapeuta e treina na Univille, ao lado do guia Chocolate, apelido carinhoso de Jorge Luiz da Silva.

Ádria, com o namorado Rafael: "Adoro ouvir os pássaros cantando de manhãzinha. Onde teria isso no Rio?"

Os dois meses seguintes à Paraolimpíada da Grécia – onde Ádria venceu a prova dos 100 metros e terminou em segundo lugar nos 200 e nos 400 – foram repletos de homenagens, da Câmara de Vereadores ao Palácio do Planalto, condecorada pelo presidente Lula. A solenidade mais marcante ocorreu no interior de Minas Gerais: a Universidade de Araxá batizou de “Ádria Santos” a nova pista de atletismo da instituição. “Fiquei emocionada. É o retorno pelo esforço destes anos todos”, interpreta a atleta, que vive sossegada no bairro Vila Nova, adora ouvir os pássaros cantando de manhãzinha (“onde eu teria isso no Rio de Janeiro?”) e, ultimamente, vem aprendendo a andar de bicicleta com o namorado Rafael. “Ela já pedala 100 metros sem cair”, segreda o companheiro.

O retrospecto verde-amarelo em Atenas – um saldo de 11 medalhas a mais que na competição anterior – tende a reforçar a visibilidade do esporte para deficientes. Até porque a boa performance vem se repetindo. Compare: nas últimas seis paraolimpíadas, o país empilhou 131 medalhas, ao passo que na olimpíada convencional levou 54. Segundo o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), esta já é uma “potência paraolímpica mundial”. Realizados desde 1988 na mesma cidade que sedia as Olimpíadas, os jogos para pessoas especiais tiveram na Grécia, pela primeira vez, um comitê único, encarregado de organizar as duas competições. “Um grande sonho está dando os primeiros passos: os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos são um evento único e compartilhado”, anota o CPB. A professora Ana Teixeira torce que essa experiência se multiplique, de maneira a encurtar a distância entre as duas categorias desportivas. “No Rio de Janeiro, por exemplo, atletas sem limitações físicas já podem participar do esporte para deficientes. É o princípio da inclusão”, diz a professora.

O nadador Vanderlei Quintino acredita nisso piamente. Com currículo de 60 travessias em mar aberto, sete campeonatos brasileiros e um open internacional, ele encostou no seu auge técnico há cerca de dois anos, quando vinculou-se à Federação Catarinense de Esportes Aquáticos, para competir ao lado de atletas sem deficiência. “Quero aumentar meu ritmo e ir à Paraolimpíada”, projeta o atleta, que está entre os dois melhores tempos do ranking nacional e é dono da primeira colocação no nado borboleta, com 1´18´´70´´. Coordenador da natação no Cepe, Vanderlei treina de quatro a seis horas por dia na piscina do Colégio Elias Moreira, orientado pelo técnico Cláudio Cambusano. Também ajuda Cláudio a motivar outros garotos a ir em frente. Desconcerta a turma com o seguinte raciocínio: “Se eu consegui, tendo uma perna só, por que você não vai conseguir?”

Vanderlei conseguiu porque a família não fraquejou nem teve piedade dele. E por causa da natação. “O esporte facilitou minha adaptação a essa nova vida, me deu garra para superar as limitações. Talvez por instinto, o atleta deficiente tem mais ambição de vencer. Eu, desde que comecei a nadar, só venho progredindo”, emociona-se este fã de Gustavo Borges que, agora, deseja cursar faculdade de Educação Física e, acima de tudo, continuar repartindo sua experiência com outras pessoas. De dentro da quadra de basquete, o ex-cobrador de ônibus Odilon Bastos também atribui ao esporte sua recuperação “muscular e psicológica”, depois do tiro que o deixou paraplégico. “Tive que reaprender a adquirir movimento. É como uma pessoa que aprende a ler. Sem o basquete, estaria por aí, cabisbaixo, amarelo, sedentário, rodando a cadeira. Seria um analfabeto.”

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