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A GENTE PÕE NA MESA

Restaurantes e empresas joinvilenses
apostam na mescla de gastronomia e
cultura, com novos sabores

O ato de comer está muito além da simples satisfação de uma necessidade biológica. Muito além de um ato familiar ou social. O ritual da alimentação envolve uma série de valores e conceitos, é estudado pela sociologia, antropologia, os nutricionistas não se cansam de analisá-lo sob vários aspectos. Em Joinville, a culinária está inevitavelmente associada às raízes suíças e alemãs do povo, misturadas às tradições portuguesas, que também aportaram por aqui. Mas a mudança no perfil da cidade, que cresceu e se desenvolveu rapidamente nas últimas décadas, refletiu-se na mesa das pessoas. Enquanto o setor de serviços conquistava espaço num ambiente antes ocupado pela indústria, atraindo profissionais de outros Estados pela abertura de novos nichos no mercado de trabalho, diferentes receitas, ingredientes, temperos e sabores iam se integrando aos marrecos recheados e às salsichas bockwurst.

Hoje, a cidade tem associações de várias outras etnias - como a italiana, que em 2001, materializou na Piazza Itália um pólo de cultura e gastronomia que atrai freqüentadores de todas as cores, credos e raças. Imponente construção em estilo renascentista, com uma pracinha, "Fontana" e a estátua da heroína Anita Garibaldi, a greco-romana Piazza é um complexo que disponibiliza também salões de eventos, palco para shows e até uma capela, além dos dois restaurantes típicos e uma pizzaria. "A cidade começa a se profissionalizar na gastronomia, mas ainda temos muito que aprender", reflete a coordenadora de eventos da Piazza, Ligia Maria Betti, ao explicar que reside no atendimento o diferencial de sucesso em lugares assim.

Dona Lídia, doceira de mão-cheia: tradição familiar

É isso que diz também a única pesquisa do setor, realizada em 2002 a pedido da Ajorpeme, a associação das micro e pequenas empresas. Atendimento e higiene são os itens que mais pesam na escolha de um restaurante pelos joinvilenses. O preço só aparece em quarto lugar. "É essa a tendência, o consumidor está cada vez melhor informado, exigente, sabendo exatamente o que quer, e precisamos estar prontos para o desafio cotidiano de nos antecipar a ele", defende a profissional da Piazza, que assumiu o posto em meados de outubro e está seriamente empenhada em proporcionar vários eventos culturais à comunidade, em parceria com a Univille. "Queremos cultivar e mostrar um pouco mais da cultura italiana - não apenas a gastronomia, mas as artes, a arquitetura, a história desse povo cujos descendentes representam 25% da população catarinense."

Coma devagar
Não por acaso, foi na Itália que surgiu, no final da década de 80, o movimento slow food, em defesa do resgate do prazer de se alimentar bem, sem pressa, preparar o alimento da forma correta, com produtos de qualidade e procurando resguardar a relação direta que existe entre comida e cultura. É um movimento que ganha força no apoio à cultura dos alimentos e das bebidas tradicionais, incentivando o convívio entre as pessoas, valorizando rituais e técnicas de produção. Em São Paulo, já existem alguns restaurantes que se alinharam à idéia. Mas, ainda que não exista um "apoio formal" ao slow food, o próprio perfil do joinvilense caminha nessa direção. Afinal, ainda segundo a pesquisa de 2002, o cidadão local gosta de se alimentar em casa, cardápio bem tradicional, reunindo a família, sempre que possível. - embora boa parte não dispense um bom restaurante nos finais de semana. O joinvilense valoriza o prazer de comer.

Ao dar uma volta pela cidade é possível perceber que Joinville já oferece opções de culinária dos mais diferentes e distantes povos. Há a sofisticada cozinha francesa - considerada a "mãe" da gastronomia mundial, presente em vários restaurantes e com a especial marca do chef Rica Cubas e do empresário Zeca Caputo, sócios na Rede Bragança Gastronomia, que tem empreendimentos como o Queen´s, no Parthenon Prinz Hotel, além de vários outros, de diversos estilos, em Joinville e Florianópolis. Há cozinha oriental - chinesa e japonesa -, há comida árabe, há restaurantes especializados em frutos do mar que servem alguns pratos típicos do norte e nordeste brasileiro, como moquecas e bobós, há comida mineira e gaúcha. E há os excelentes restaurantes de hotéis, que oferecem cardápios os mais variados e com diferentes sotaques. Há os pratos exclusivos da cidade, como o Chapeado, que virou marca registrada da Churrascaria Senador - carne servida na chapa com legumes cozidos, batata frita e acompanhamentos.

Ronaldo Jerke: receita da empada guardada a sete chaves

Se o assunto, no entanto, é marca joinvilense, nada como as octagenárias Empadas Jerke. Com a receita original guardada a sete chaves, Ronaldo Eduardo Jerke, filho do fundador Carlos Guilherme, orgulha-se do trabalho realizado em família que hoje chega à terceira geração. "Nossas empadas são tão requisitadas que enviamos para várias cidades, principalmente para Brasília e até para o exterior", conta, ao lado da esposa Néia, acrescentando que a receita da massa folhada é original da Alemanha. Os visitantes ilustres também são incontáveis, do ator Lima Duarte ao ex-piloto Emerson Fittipaldi. E os freqüentadores tradicionais, integrantes de confrarias, então, não faltam um único dia. "Houve até uma vez em que um cliente nosso, que estava internado no Hospital Dona Helena, foi trazido de ambulância aqui perto para fazer uns exames. Como teve de esperar alguns minutos, decidiu andar até a empadaria - veio de pijama, comeu duas empadinhas, tomou um chopinho e voltou ao hospital", diverte-se Ronaldo.

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