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CONTOS E CRÔNICAS
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1º lugar % |
Assim: corte estranho no sono – introdução
da vigília, não convidada, toda bruma. A sede,
o desejo sem base certa, a deliberação: atirou
de lado, num ímpeto, cobertor e apatia, com passos
firmes viu-se logo em frente à casa – pés
nus em grama úmida – examinando na quinta hora
o céu matutino com sua promessa de calor vigoroso para
mais adiante. Respirou ares de saúde e ventura de momento.
Breve, toalha ao ombro, pegou caminho. Atravessou rua pavimentada
de silêncio, um terreno sem nada, outra rua ainda, sem
nome nem curvas; penetrou num arremedo de floresta com impulso
e vivacidade crescentes – ia em busca do Rio, das Águas.
Pássaros com sua sonoridade quase mitológica
em galhos diversos cuidavam de seus finos rituais de canto,
em louvor à origem do dia. Ele, quase sátiro,
em fuga desarvorada da urbanidade, leve de júbilo;
agora em corrida, veloz na ânsia pelo Rio. Doído
tropeço não o irritou – prosseguiu mesmo
bendizendo o descansado tronco (pois que agora servia a natureza
na horizontal); depois: corpo sem vida em decomposição,
animal menor, quadrúpede anônimo – tampouco
lhe nublou o êxtase – um salto, riso meio louco
nos lábios, velocidade boa, bem descalço ganhava
distâncias mais. Em fim, vindo de trás de elevação
rochosa eriçada de vegetação mestiça,
os sons doces e desabridos das Águas o atingiram; parou,
alma em universo, por ali até foi se deitando, em rude
chão, e ficou a ouvir, a ouvir, a ouvir... Linfas em
festa eterna e sua música, ele deitado em adoração
selvagem, esmigalhando dentro de si toda tentativa de pensamento
linear – e havia em seu redor, ao redor de seu corpo
seminu (olhos fechados na floresta escura, prenhe do dia),
havia, sim, deuses que bailavam nas folhas de todas as alturas,
deuses que cantavam canções remotas no seu ouvido
colado à terra, deuses que em forma de formigas beijavam-lhe
os pés; e das Águas, das Águas sempre,
era que procedia o apelo mais belo: todas as potâmides
do Tempo estavam naquele Rio, era também o que lhe
segredava o Vento.
Não mais suportando, em salto alado as pedras sobrepujou,
atirando-se soberbo no espelho turvo das Águas, atingindo
logo profundezas mornas, queridas de bom aconchego; fundo
mergulho, olhos abertos à penumbra molhada, toda carícia
e mistério – ao seu corpo, o elemento líquido
abria espaço qual mãe num leito ao filhinho
que desajeitado dorme. Nadava enérgico, com gosto,
trincando de felicidade instintiva; subiu à superfície
para remergulhar, em menor profundidade, entretanto –
peixe sem norte raspando-lhe rápido o flanco –
topou com parede, terra terrosa, agarrou-se um instante em
grandes raízes sem data; pôs-se a boiar, nos
olhos a quase-luz do dia... Soubera sempre que o preâmbulo
moreno da manhã era cheio de momentos de pureza, repleto
das luxúrias mais densas, que, no mais, nenhuma outra
idade do dia seria tão grata e fértil aos seres
receptivos à vitalidade-mor (assim: corte estranho
no sono dos homens pensantes, então); donde um plano
para as horas primordiais-matutinas: mergulho em rio de águas
lúbricas – mas plano-jamais-planejado, que surgisse
súbito na pré-alvorada, ainda nos quase-sonhos,
em leito macio – tudo transcorreria sem sombras, até
o instante da volta, pérfida volta às horas
altas do cotidiano torpe. Mas nada de adiantado pensamento:
ainda estava lá, a boiar muito ledo nas águas
maternais, a espreitar temeroso a nascente claridade do amanhecer.
Pudesse, aniquilaria com Cronos, que sugava bem forte a sua
ventura-relâmpago de homem sem eternidade. E que chegava
acompanhando a claridade crescente da sexta hora? Labirintos
da memória, sobejos do pensamento já mil vezes
reciclado: seus estudos sobre Chopin e Ravel, os seios corados
de Uly, seus trinta e três calendários para breve,
um verso de Quintana dançando no âmago do cérebro,
recordações complexas de teatros, artistas,
mobilidades modernas em projetos e sentimentos.
As águas, todavia, como amantes desprezadas tornavam-se
cada vez mais frias; percebia ele que a traição
sem volta já começara, que o rio não
era mais seu irmão, nem a água sua mãe,
sequer os pássaros seus deuses benfazejos: necessário
deixá-los, depressa, antes de antes. Mas quê!
Teimosia de criatura humana tinha nele bom correligionário;
hesitava sempre – fraqueza civilizada – em concluir
algo como concluem os gênios; em largar a deusa da ventura
quando ela ainda não se fartou de nós, de modo
a deixá-la com vontade viva, que serve de elo entre
ela e o homem do qual ainda poderá orgulhar-se em datas
futuras. Havia que permanecia, permanecia, letárgico.
Cada
momento a mais nas águas, um insulto que ele atirava,
mudo-agressivo, à belíssima poesia que possuíra
há instantes, e que agora conspurcava por mera indolência,
obtusidade, inércia de anfíbio. O rio, de fastio
repleto, executou atitude: foi repelindo vagarosamente aquele
corpo de homem, levando-o até umas rochas de hostilidade,
tudo ponta, gume, fio de faca; ele, lá, nada percebendo.
Uma das pedras – punhal natural na mão líquida
do rio – marcou o compositor no braço esquerdo,
sangue de gente tingindo um quase-nada a água agora
indiferente – um aviso apenas – despertou em fim,
ele-humano, como que chocado de sua própria futilidade;
saiu para as margens, sentou-se um caco de tempo, lavou maquinalmente
o ferimento e – olhos molhados – agradeceu ao
ente Rio e à sua natureza mesma (de boa poesia dos
lados todos) o fato de ainda compreender a imortal linguagem
com que a Terra fala aos homens. Em pé, Humano em si,
contemplou carinhosamente a sábia senectude do Rio
– lucidez da correnteza, argutas rochas, generosidade
das margens – margens: ao longo destas as árvores,
quais filhas magnânimas a velarem pela paternidade fluvial.
Com sorriso a refletir sadio respeito, nos olhos o brilho
da antiga alvinitência fauno-floral de Dionísio,
proferiu em língua arcaica um aprazível adeus
à matéria-mais-que-matéria ao seu redor,
pondo-se depois a percorrer a trilha que o levaria de volta
às agruras dos homens pensantes. Então.
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2º lugar % |
A Mulher Vaidosa
Thiago Hilger
A mulher vaidosa comprou cremes novos para o rosto. Utilizou-se
de um e dormiu. Quando acordou, no outro dia, olhou-se no
espelho e viu-se verde.
Hipótese 1: A mulher se esconde.
Não saiu de casa. E assim foi durante um mês.
Ao término desse período, a mulher vaidosa comprou
cremes novos. Utilizou-se de um e no outro dia acordou azul.
E não saiu de casa por mais um mês.
E, sucessivamente, a cada mês, a mulher acordava de
cores diferentes: amarelo, vermelho, roxo, laranja, bordô,
pardo, rosa... mas nuca saía de casa.
Aos poucos, colorida, a mulher vaidosa foi colocando o rosto
para fora da janela, só um pouquinho, para espiar.
Depois, começou a aparecer de corpo inteiro. Mas eram
raras aparições na porta de casa. Depois começou
a dar passeios curtos. E os passeios foram aumentando. E a
mulher colorida e vaidosa conseguiu um emprego. No primeiro
mês, todos a olhavam encolhidos, de olhares tortos.
Aos poucos os olhares desentortaram e ela era apenas uma mulher
colorida; E desse mesmo jeito, colorida, viveu tranqüilamente
sua vida.
Hipótese 2: A mulher se mostra.
Achou tudo aquilo o máximo. Saiu pela rua desfilando
seu verde. No outro dia comprou outros cremes coloridos, utilizou
e novamente colorida ficou. E assim foi por uma semana. A
mulher resolveu aparecer então em todos os lugares
possíveis. Viajou azul, almoçou marrom em restaurantes
finos do centro da cidade, apareceu amarela na televisão,
fez propaganda dps cremes com o rosto de todas as cores possíveis.
Os cremes viraram moda. Todas as mulheres vaidosas andavam
coloridas por aí. E a mulher colorida deixou de ser,
tornando-se uma mulher comum.
Hipótese 3: A mulher se mata.
Não pensou duas vezes: correu para a cozinha, pegou
uma faca e cometeu suicídio. Apareceu no jornal, mas
não esteve lá para ver. Não valeu a pena.
Hipótese 4: A mulher se lava.
Passou o dedo indicador no rosto e descobriu que o verde saía
fácil. Lavou bem o rosto e o verde saiu todo. Continuou
sua rotina normal, não deixando de ser uma mulher comum.,
porém vaidosa.
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3º lugar % |
Palavras
Michele Cristine Pahl
Gosto de palavras bonitas. “Devaneio”
é uma. Devaneio é pensar por pensar. É
se afogar em pensamentos. Pensar tanto que se esquece que
se está vivo. Esta definição é
minha, não de dicionário. No dicionário
diz-se que devaneio é sonho. Ainda prefiro a minha
definição.
Gosto de “catedral”, é uma palavra orte.
É como se você desse uma pancada na mesa a cada
sílaba. É uma palavra que faz tremer. O som
da palavra ‘marulhar” é encantador. A última
sílaba é quase um sussurro, marulharrrrrr...
Palavras terminadas em “erre” parecem não
ter fim. Parecem ser infinitas: verrrrrrr, terrrrrrr, saberrrrrrr,
viverrrrrrr, enlouquecerrrrrrr...
Gosto da palavra “sonho”. É dita de uma
vez só, como se os fonemas estivessem misturados, como
se as letras estivessem embaralhadas, uma grudada a outra,
e os fonemas fossem um só.
Gosto também da palavra “chocolate”. E
não por causa da lembrança gustativa e olfativa
que me traz, mas porque é uma palavra gostosa. Você
brinca ao dizê-la. A primeira sílaba é
doce, a segunda é dura, quase uma ordem, a terceira
é um passeio da língua na boca e a última
é definitiva, um carimbo no papel, o machado na madeira.
Não me agradam palavras sem graça, que seriam
cinza se tivessem cor: “mesmo”, “assim”,
“coisa”, “qualquer”... Gosto de “amanhã”,
a língua parece fazer pirraça ao pronunciá-la,
parece palavra que bebê diz quando está aprendendo
a falar. O som do “ma”, meio “mã”,
confunde-se com “nhá”, os lábios
mal se mexem e a palavra surge enrolada.
Gosto de palavras compridas, “ensandecido”, “assustador”,
“acovardado”, “dominação”,
mas não gosto de palavras compridas cheias de “is”.
Não sei explicar, mas o “i” me irrita.
A palavra “irrita” também me irrita. Nem
soa a palavra, soa a pigarro.
No entanto, a palavra não pode ser muito longa, como
“ininterruptamente”, dessas que de tão
longas fazem você quase perder o fôlego ao pronunciá-la.
Palavra muito comprida não é bonita, como também
não são as mais curtas, com somente uma sílaba,
“ré”, “faz”, “lá”,
“bem”, pequenas, instantâneas, sem encantos.
A palavra “encanto” é encantadora, expressa
o que é, adorável. “Adorável”
também bonita. Parece que toda palavra que significa
algo bom me agrada.
Gosto de “nuvem”. O “nu” se joga em
um precipício, parece ir às profundezas do mundo,
enquanto o “vem” parece trazer a palavra de volta,
como se uma catapulta o jogasse aos ares.
Este vai e vem dos fonemas é o que mais me interessa,
este próximo/distante que eles nos fazem sentir. O
“u” tem o formato de um buraco e o som que ele
dá parece ser de algo que se lança para baixo,
até onde os ouvidos podem ouvir, em um precipício
sonoro. O “i” tem um som interminável,
não é como o “a”, o “e”
e o “o”, que são incisivos. O “u”
e o “i” nos levam para longe, e são as
outras vogais que nos levam para longe.
“Caneta” é uma palavra faceira, assim como
“pipoca”. Tão faceiras que quase se tornam
gracejos e não substantivos. Para mim elas são
assim, brinquedos. Transformar palavras em brinquedos. Brincar
com palavras. Foi o que eu fiz. Ver nelas uma diversão.
É o que eu fiz ao escrever. É o que você
faz ao ler.
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Menção Honrosa & |
Sobre o Olhar de Sebastião
Domiciano Lopes de Souza
Havia um certo medo, uma crendice, uma idolatria sobre o olhar
de Sebastião.
Homem simples quase não tinha nada além do seu
olhar;
Desde menino fixava os olhos nos mamilos de sua mãe
sugava-os com veemência e, às vezes, queria até
engoli-los com seus olhos.
Aos 15 anos aprendeu a olhar a Lua os astros e os enigmas
que as mulheres carregavam escondido entre suas roupas, coisas
que seus olhos convidativos, passaram a enxergar mais tarde.
Eram olhos azuis bem torneados, com uma sobrancelha ruiva
bem delineada, e que poucos tinham coragem de olhar bem de
perto nos olhos de Sebastião.
E foi crescendo sempre com o olhar voltado para seu povo e
lugar, vivendo nesse lugar encontrou-se com o olhar de Janice,
morena de olhar mais brando e feminino e que passou a ser
a menina dos olhos de Sebastião.
A paixão o fez cego pela primeira vez, não via
mais a Lua nem os astros e nem os outros, esqueceu-se que
seus olhos viam também não só o seu lugar,
mais onde estavam os pobres e miseráveis e toda cegueira
que estava acostumado a ver.
Mas como tirar o olhar de Janice que em cataratas caiam sobre
seus olhos, Sebastião já com pouca visão
só via Janice e ela como enxergava pouco passou a ser
a visão do Marido, que era tão temido pelo seu
jeito oculto de olhar as mulheres do povoado.
Ver e olhar pode até passar despercebido pois Sebastião
não tomou conta de Janice que olhava para todos os
lados, para um e para outro.
Sebastião também olhava só que as cataratas
lhe tiravam a visão.
Janice agora era o olhar de Sebastião que tantos temiam,
Janice tremeu com o olhar de Sebastião, e Sebastião
vive trêmulo com o olhar de Janice.
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