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Dez lições para  continuar competitivo A gente põe na mesa Seu melhor médico é você Questão social na prática

CATEGORIA CONTOS E CRÔNICAS

% 1º lugar %


Simbolia

Joel Forteski

Assim: corte estranho no sono – introdução da vigília, não convidada, toda bruma. A sede, o desejo sem base certa, a deliberação: atirou de lado, num ímpeto, cobertor e apatia, com passos firmes viu-se logo em frente à casa – pés nus em grama úmida – examinando na quinta hora o céu matutino com sua promessa de calor vigoroso para mais adiante. Respirou ares de saúde e ventura de momento. Breve, toalha ao ombro, pegou caminho. Atravessou rua pavimentada de silêncio, um terreno sem nada, outra rua ainda, sem nome nem curvas; penetrou num arremedo de floresta com impulso e vivacidade crescentes – ia em busca do Rio, das Águas. Pássaros com sua sonoridade quase mitológica em galhos diversos cuidavam de seus finos rituais de canto, em louvor à origem do dia. Ele, quase sátiro, em fuga desarvorada da urbanidade, leve de júbilo; agora em corrida, veloz na ânsia pelo Rio. Doído tropeço não o irritou – prosseguiu mesmo bendizendo o descansado tronco (pois que agora servia a natureza na horizontal); depois: corpo sem vida em decomposição, animal menor, quadrúpede anônimo – tampouco lhe nublou o êxtase – um salto, riso meio louco nos lábios, velocidade boa, bem descalço ganhava distâncias mais. Em fim, vindo de trás de elevação rochosa eriçada de vegetação mestiça, os sons doces e desabridos das Águas o atingiram; parou, alma em universo, por ali até foi se deitando, em rude chão, e ficou a ouvir, a ouvir, a ouvir... Linfas em festa eterna e sua música, ele deitado em adoração selvagem, esmigalhando dentro de si toda tentativa de pensamento linear – e havia em seu redor, ao redor de seu corpo seminu (olhos fechados na floresta escura, prenhe do dia), havia, sim, deuses que bailavam nas folhas de todas as alturas, deuses que cantavam canções remotas no seu ouvido colado à terra, deuses que em forma de formigas beijavam-lhe os pés; e das Águas, das Águas sempre, era que procedia o apelo mais belo: todas as potâmides do Tempo estavam naquele Rio, era também o que lhe segredava o Vento.

Não mais suportando, em salto alado as pedras sobrepujou, atirando-se soberbo no espelho turvo das Águas, atingindo logo profundezas mornas, queridas de bom aconchego; fundo mergulho, olhos abertos à penumbra molhada, toda carícia e mistério – ao seu corpo, o elemento líquido abria espaço qual mãe num leito ao filhinho que desajeitado dorme. Nadava enérgico, com gosto, trincando de felicidade instintiva; subiu à superfície para remergulhar, em menor profundidade, entretanto – peixe sem norte raspando-lhe rápido o flanco – topou com parede, terra terrosa, agarrou-se um instante em grandes raízes sem data; pôs-se a boiar, nos olhos a quase-luz do dia... Soubera sempre que o preâmbulo moreno da manhã era cheio de momentos de pureza, repleto das luxúrias mais densas, que, no mais, nenhuma outra idade do dia seria tão grata e fértil aos seres receptivos à vitalidade-mor (assim: corte estranho no sono dos homens pensantes, então); donde um plano para as horas primordiais-matutinas: mergulho em rio de águas lúbricas – mas plano-jamais-planejado, que surgisse súbito na pré-alvorada, ainda nos quase-sonhos, em leito macio – tudo transcorreria sem sombras, até o instante da volta, pérfida volta às horas altas do cotidiano torpe. Mas nada de adiantado pensamento: ainda estava lá, a boiar muito ledo nas águas maternais, a espreitar temeroso a nascente claridade do amanhecer. Pudesse, aniquilaria com Cronos, que sugava bem forte a sua ventura-relâmpago de homem sem eternidade. E que chegava acompanhando a claridade crescente da sexta hora? Labirintos da memória, sobejos do pensamento já mil vezes reciclado: seus estudos sobre Chopin e Ravel, os seios corados de Uly, seus trinta e três calendários para breve, um verso de Quintana dançando no âmago do cérebro, recordações complexas de teatros, artistas, mobilidades modernas em projetos e sentimentos.

As águas, todavia, como amantes desprezadas tornavam-se cada vez mais frias; percebia ele que a traição sem volta já começara, que o rio não era mais seu irmão, nem a água sua mãe, sequer os pássaros seus deuses benfazejos: necessário deixá-los, depressa, antes de antes. Mas quê! Teimosia de criatura humana tinha nele bom correligionário; hesitava sempre – fraqueza civilizada – em concluir algo como concluem os gênios; em largar a deusa da ventura quando ela ainda não se fartou de nós, de modo a deixá-la com vontade viva, que serve de elo entre ela e o homem do qual ainda poderá orgulhar-se em datas futuras. Havia que permanecia, permanecia, letárgico.

Cada momento a mais nas águas, um insulto que ele atirava, mudo-agressivo, à belíssima poesia que possuíra há instantes, e que agora conspurcava por mera indolência, obtusidade, inércia de anfíbio. O rio, de fastio repleto, executou atitude: foi repelindo vagarosamente aquele corpo de homem, levando-o até umas rochas de hostilidade, tudo ponta, gume, fio de faca; ele, lá, nada percebendo. Uma das pedras – punhal natural na mão líquida do rio – marcou o compositor no braço esquerdo, sangue de gente tingindo um quase-nada a água agora indiferente – um aviso apenas – despertou em fim, ele-humano, como que chocado de sua própria futilidade; saiu para as margens, sentou-se um caco de tempo, lavou maquinalmente o ferimento e – olhos molhados – agradeceu ao ente Rio e à sua natureza mesma (de boa poesia dos lados todos) o fato de ainda compreender a imortal linguagem com que a Terra fala aos homens. Em pé, Humano em si, contemplou carinhosamente a sábia senectude do Rio – lucidez da correnteza, argutas rochas, generosidade das margens – margens: ao longo destas as árvores, quais filhas magnânimas a velarem pela paternidade fluvial. Com sorriso a refletir sadio respeito, nos olhos o brilho da antiga alvinitência fauno-floral de Dionísio, proferiu em língua arcaica um aprazível adeus à matéria-mais-que-matéria ao seu redor, pondo-se depois a percorrer a trilha que o levaria de volta às agruras dos homens pensantes. Então.




% 2º lugar %


A Mulher Vaidosa

Thiago Hilger

A mulher vaidosa comprou cremes novos para o rosto. Utilizou-se de um e dormiu. Quando acordou, no outro dia, olhou-se no espelho e viu-se verde.

Hipótese 1: A mulher se esconde.
Não saiu de casa. E assim foi durante um mês. Ao término desse período, a mulher vaidosa comprou cremes novos. Utilizou-se de um e no outro dia acordou azul. E não saiu de casa por mais um mês.
E, sucessivamente, a cada mês, a mulher acordava de cores diferentes: amarelo, vermelho, roxo, laranja, bordô, pardo, rosa... mas nuca saía de casa.
Aos poucos, colorida, a mulher vaidosa foi colocando o rosto para fora da janela, só um pouquinho, para espiar. Depois, começou a aparecer de corpo inteiro. Mas eram raras aparições na porta de casa. Depois começou a dar passeios curtos. E os passeios foram aumentando. E a mulher colorida e vaidosa conseguiu um emprego. No primeiro mês, todos a olhavam encolhidos, de olhares tortos. Aos poucos os olhares desentortaram e ela era apenas uma mulher colorida; E desse mesmo jeito, colorida, viveu tranqüilamente sua vida.

Hipótese 2: A mulher se mostra.
Achou tudo aquilo o máximo. Saiu pela rua desfilando seu verde. No outro dia comprou outros cremes coloridos, utilizou e novamente colorida ficou. E assim foi por uma semana. A mulher resolveu aparecer então em todos os lugares possíveis. Viajou azul, almoçou marrom em restaurantes finos do centro da cidade, apareceu amarela na televisão, fez propaganda dps cremes com o rosto de todas as cores possíveis. Os cremes viraram moda. Todas as mulheres vaidosas andavam coloridas por aí. E a mulher colorida deixou de ser, tornando-se uma mulher comum.

Hipótese 3: A mulher se mata.
Não pensou duas vezes: correu para a cozinha, pegou uma faca e cometeu suicídio. Apareceu no jornal, mas não esteve lá para ver. Não valeu a pena.

Hipótese 4: A mulher se lava.
Passou o dedo indicador no rosto e descobriu que o verde saía fácil. Lavou bem o rosto e o verde saiu todo. Continuou sua rotina normal, não deixando de ser uma mulher comum., porém vaidosa.


% 3º lugar %


Palavras

Michele Cristine Pahl

Gosto de palavras bonitas. “Devaneio” é uma. Devaneio é pensar por pensar. É se afogar em pensamentos. Pensar tanto que se esquece que se está vivo. Esta definição é minha, não de dicionário. No dicionário diz-se que devaneio é sonho. Ainda prefiro a minha definição.
Gosto de “catedral”, é uma palavra orte. É como se você desse uma pancada na mesa a cada sílaba. É uma palavra que faz tremer. O som da palavra ‘marulhar” é encantador. A última sílaba é quase um sussurro, marulharrrrrr... Palavras terminadas em “erre” parecem não ter fim. Parecem ser infinitas: verrrrrrr, terrrrrrr, saberrrrrrr, viverrrrrrr, enlouquecerrrrrrr...
Gosto da palavra “sonho”. É dita de uma vez só, como se os fonemas estivessem misturados, como se as letras estivessem embaralhadas, uma grudada a outra, e os fonemas fossem um só.
Gosto também da palavra “chocolate”. E não por causa da lembrança gustativa e olfativa que me traz, mas porque é uma palavra gostosa. Você brinca ao dizê-la. A primeira sílaba é doce, a segunda é dura, quase uma ordem, a terceira é um passeio da língua na boca e a última é definitiva, um carimbo no papel, o machado na madeira.
Não me agradam palavras sem graça, que seriam cinza se tivessem cor: “mesmo”, “assim”, “coisa”, “qualquer”... Gosto de “amanhã”, a língua parece fazer pirraça ao pronunciá-la, parece palavra que bebê diz quando está aprendendo a falar. O som do “ma”, meio “mã”, confunde-se com “nhá”, os lábios mal se mexem e a palavra surge enrolada.
Gosto de palavras compridas, “ensandecido”, “assustador”, “acovardado”, “dominação”, mas não gosto de palavras compridas cheias de “is”. Não sei explicar, mas o “i” me irrita. A palavra “irrita” também me irrita. Nem soa a palavra, soa a pigarro.
No entanto, a palavra não pode ser muito longa, como “ininterruptamente”, dessas que de tão longas fazem você quase perder o fôlego ao pronunciá-la. Palavra muito comprida não é bonita, como também não são as mais curtas, com somente uma sílaba, “ré”, “faz”, “lá”, “bem”, pequenas, instantâneas, sem encantos. A palavra “encanto” é encantadora, expressa o que é, adorável. “Adorável” também bonita. Parece que toda palavra que significa algo bom me agrada.
Gosto de “nuvem”. O “nu” se joga em um precipício, parece ir às profundezas do mundo, enquanto o “vem” parece trazer a palavra de volta, como se uma catapulta o jogasse aos ares.
Este vai e vem dos fonemas é o que mais me interessa, este próximo/distante que eles nos fazem sentir. O “u” tem o formato de um buraco e o som que ele dá parece ser de algo que se lança para baixo, até onde os ouvidos podem ouvir, em um precipício sonoro. O “i” tem um som interminável, não é como o “a”, o “e” e o “o”, que são incisivos. O “u” e o “i” nos levam para longe, e são as outras vogais que nos levam para longe.
“Caneta” é uma palavra faceira, assim como “pipoca”. Tão faceiras que quase se tornam gracejos e não substantivos. Para mim elas são assim, brinquedos. Transformar palavras em brinquedos. Brincar com palavras. Foi o que eu fiz. Ver nelas uma diversão. É o que eu fiz ao escrever. É o que você faz ao ler.


& Menção Honrosa &


Sobre o Olhar de Sebastião

Domiciano Lopes de Souza

Havia um certo medo, uma crendice, uma idolatria sobre o olhar de Sebastião.
Homem simples quase não tinha nada além do seu olhar;
Desde menino fixava os olhos nos mamilos de sua mãe sugava-os com veemência e, às vezes, queria até engoli-los com seus olhos.
Aos 15 anos aprendeu a olhar a Lua os astros e os enigmas que as mulheres carregavam escondido entre suas roupas, coisas que seus olhos convidativos, passaram a enxergar mais tarde.
Eram olhos azuis bem torneados, com uma sobrancelha ruiva bem delineada, e que poucos tinham coragem de olhar bem de perto nos olhos de Sebastião.
E foi crescendo sempre com o olhar voltado para seu povo e lugar, vivendo nesse lugar encontrou-se com o olhar de Janice, morena de olhar mais brando e feminino e que passou a ser a menina dos olhos de Sebastião.
A paixão o fez cego pela primeira vez, não via mais a Lua nem os astros e nem os outros, esqueceu-se que seus olhos viam também não só o seu lugar, mais onde estavam os pobres e miseráveis e toda cegueira que estava acostumado a ver.
Mas como tirar o olhar de Janice que em cataratas caiam sobre seus olhos, Sebastião já com pouca visão só via Janice e ela como enxergava pouco passou a ser a visão do Marido, que era tão temido pelo seu jeito oculto de olhar as mulheres do povoado.
Ver e olhar pode até passar despercebido pois Sebastião não tomou conta de Janice que olhava para todos os lados, para um e para outro.
Sebastião também olhava só que as cataratas lhe tiravam a visão.
Janice agora era o olhar de Sebastião que tantos temiam, Janice tremeu com o olhar de Sebastião, e Sebastião vive trêmulo com o olhar de Janice.


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