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DE SANGUE OU DE “Ainda não inventaram laqueadura para o coração”, costuma responder Abigail Isaura do Rosário, a “Mãe Abigail”, como é conhecida em Joinville, sempre que lhe perguntam quando vai parar de adotar. Mãe de 48 crianças e adolescentes “do coração”, além de três biológicos, ela presta atenção à “voz divina” quando aparece uma nova criança – quase sempre problemática, rejeitada por outras famílias, entre as últimas na fila da adoção. Mãe Abigail é um caso à parte em matéria de adoção. “É um projeto de vida dela, uma missão, mesmo”, reconhece Nádia Regina Paes Machado, assistente social do Juizado da Infância e Adolescência de Joinville, responsável pelo encaminhamento e acompanhamento dos processos de adoção. (Leia mais) Em plena campanha pelo que chama de “Adoção Tardia”, na busca de famílias para crianças acima de 4 anos, que são a maioria das disponíveis para adoção imediata, Nádia explica que, quanto maior a criança, menores chances tem de ser acolhida. Fazem eco as voluntárias do Grupo de Estudo e Apoio à Adoção de Joinville (GEAAJ), presidido pela professora Rosana Ramsdorf, ela mesma mãe de um “filho do coração”. “Lutamos, acima de tudo, para diminuir o preconceito com a criança maior, ajudando, permutando experiências e tentando dar apoio às famílias”, esclarece Rosana.
A idéia é promover reflexões sobre o assunto, sobretudo considerando o grande “medo do diferente” que aflige as famílias na hora de decidir pela adoção tardia. “Muitos pais se preocupam em conhecer a origem, o temperamento, a forma de ser da criança”, comenta a psicóloga Alexandra de Oliveira, que dá expediente no Juizado e também acompanha os processos. A maioria dos candidatos à adoção já tem toda uma história de vida – que, normalmente, está longe de ser conto de fadas. “Há problemas de crianças submetidas à violência física, à violência sexual, ao total abandono dos pais. Impossível que isso não deixe marcas. Mas o amor da família pode realizar milagres. E é o que estamos buscando”, reforça a psicóloga. “Foi por uma preocupação com o preconceito que eu sempre tive receio em tocar no assunto com minhas filhas”, confessa Dulcinéia Celina Neves, mãe de Eliane, 31 anos, e Eloise Cristina, 16, ambas adotadas. Professora de Português, recém-casada e muito bem resolvida com a própria situação familiar, foi Eliane quem, aos 18 anos, decidiu procurar por uma irmã no Lar Abdon Batista, instituição joinvilense que abriga menores carentes. Primeiro, ela se tornou madrinha de Eloise, que à época tinha menos de 2 anos. Depois, configurada a perda do pátrio poder pela família biológica, a menina foi adotada. “Hoje, as duas são companheiras. Elas se amam e cuidam uma da outra”, orgulha-se dona Néia, que sempre teve total apoio, participação e companheirismo do marido Vital. Eliane faz planos de ser mãe – mas não descarta a adoção. Eloise, por enquanto, pensa em seguir carreira religiosa.
Aliás, as famílias religiosas são as mais freqüentes
na fila para adoção. E também são as que
alcançam maior índice de sucesso. “Têm mais
compromisso e as adoções funcionam melhor”, observa
a assistente social Nádia, ao explicar que são essas pessoas
que costumam optar por crianças maiores. Para ela, antes do amor,
do carinho, do afeto, vêm o dever, a responsabilidade pelo novo
ser humano que lhe está sendo confiado. “Essas famílias
apresentam aquilo que chamo de consciência social da adoção
– por isso dificilmente seus processos são mal-sucedidos.”
Aos 3 anos, o energético Gustavo não dá trégua
à irmã adolescente – “ele é um amor,
mas muito bagunceiro”, reclama Débora”. O menino
adora a mãe e é agarradíssimo ao pai. Primeiro
caso de adoção na família do contador Rogelio,
o pequeno foi recebido de braços abertos. “Todos o amam
demais. A começar por mim”, sorri o pai todo orgulhoso,
com o filho ao colo. Na casa de Sidnei e Márcia Mateus, não
é diferente. Pais de Mariana, 8 anos, há um ano eles acolheram
no coração a pequena Regina, de 6. “Eu tinha esse
sentimento desde adolescente. Minha mãe sempre dizia que era
lindo criar os filhos que Deus coloca no nosso caminho”, conta
o empresário Sidnei. A esposa Márcia, escriturária
e estudante de Letras, demorou um pouco para assimilar a idéia.
“Eu não tinha certeza se conseguiria amar outra criança
como amava Mariana. Tinha medo de diferenciá-las no meu coração.
Hoje, percebo que o amor é rigorosamente o mesmo.”
A adaptação de Regina à família também foi tranqüila. “Quem acha que criança mais velha traz problemas, engana-se. É claro que passamos por situações diferentes, mas acho que foi mais difícil para ela do que para nós”, pondera Sidnei, ao lembrar de sua própria aflição ao ver a menina chorar desesperadamente quando foi chamada à atenção pela primeira vez. “Ela teve uma história de vida triste, envolvendo violência física. Quem sabe isso tenha provocado bloqueios afetivos. O importante é que estamos lidando com ela naturalmente, para que possa entender que é amada e que amor também demanda limites, tão necessários à formação da criança.” |
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