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A ECONOMIA DAS
MÃOS DADAS


Alternativa para trabalhadores excluídos, empreendimentos solidários ganham corpo em Joinville, que articula fórum e organiza incubadora

Joinville ingressou na rede da economia solidária. Foi a última entre as grandes cidades catarinenses a prestar atenção nesse movimento, que se estrutura no Brasil desde o final da década de 80 e tem por base a constituição de empreendimentos autogestionáveis como remédio contra a exclusão social e a crise dos empregos formais. Descontadas experiências isoladas, a legitimação da economia solidária por aqui principiou há coisa de três anos. Em 2004, ganhou impulso e visibilidade graças a uma iniciativa do governo Lula, que desembocou num fórum regional composto por órgãos públicos, entidades e representantes de projetos espalhados pelo Norte do Estado. E em 2006 dá um passo decisivo com a inauguração da primeira incubadora local destinada a transmitir orientações e suporte técnico aos empreendedores, novatos ou veteranos.

Nos últimos meses, 75 grupos comunitários, cooperativas e associações atuantes nos principais municípios da região – como Jaraguá, São Francisco do Sul, Mafra e Canoinhas – foram visitadas por pesquisadores ligados a um mapeamento realizado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes). Criada em 2003, subordinada ao Ministério do Trabalho, a Senaes firma parcerias com a sociedade civil para implementar ações que contemplem outras formas de caracterização do trabalho, que não a de empregado-patrão. O pontapé inicial do programa, batizado de “Economia Solidária em Desenvolvimento”, é essa radiografia em todo o país, que vai dar base a um sistema de informações sobre empreendimentos e organismos de fomento.

João Guilherme, da associação de agricultores: "sem apoio"

“O programa está sendo construído de baixo para cima, a partir da articulação com as realidades locais”, observa o documento de apresentação da Senaes. A idéia, diz a secretaria, é dialogar com os fóruns regionais que se multiplicam pelos 27 Estados, incrementando as atividades de economia solidária. Com isso, espera-se subsidiar a formulação de políticas públicas adequadas e fortalecer o desenvolvimento de cadeias de produção, venda e consumo integradas pelos empreendedores populares. A Senaes estima um universo de 20 mil negócios erguidos nesses moldes em todo o Brasil. Algo em torno de 2 milhões de pessoas, que encontram na mútua cooperação a saída para a pobreza e o desemprego.

Dados preliminares do levantamento, encerrado em novembro, detectaram um total de 12.309 empreendimentos. Embora parciais, os resultados divulgados permitem conclusões significativas. A primeira se refere à notável expansão do número de cooperativas, associações e empresas autogestionárias do ano 2000 para cá – quatro em cada dez nasceram nesse período, enquanto menos de 1% são quarentonas ou cinqüentonas. Outra novidade: ao contrário do que se imaginava, a maioria (46%) dos grupos se situa no Nordeste. O Sul, apesar da larga tradição cooperativista, responde por 23%. Agricultura, produção, serviços, comercialização ou troca, extrativismo, crédito e consumo são, pela ordem, os segmentos mais numerosos.

MOMENTO DE AFIRMAÇÃO
Em Santa Catarina, “o fenômeno da economia solidária é relevante, distribuído regionalmente e por várias atividades econômicas”, constata o sociólogo joinvilense Valmor Schiochet, diretor de estudos e divulgação da Senaes. Boa amostra foi vista em Itajaí, no final do ano, durante a terceira edição de uma feira promovida pelo Fórum Catarinense de Economia Solidária. O evento reuniu 160 projetos de toda a Região Sul, nas áreas de artesanato, alimentação, confecções, agricultura orgânica familiar, têxtil, serviços, metal-mecânica e cultura. Ali, divulgou-se o número total de empreendimentos em operação no Estado: são 377, com 47 mil sócios. As regiões mais avançadas são o Vale do Itajaí, a partir de Blumenau, os arredores de Criciúma, no Sul, e o Oeste, com destaque em Chapecó.

Feira de economia solidária, em Itajaí: espaço de integração

Um embrião desse processo está na universidade. Em Blumenau, a Furb funciona como incubadora de cooperativas populares desde 1997. Abriga 20 delas – e, vinculada à Unitrabalho, uma organização nacional, levou adiante a semente ao desencadear a Rede de Empreendimentos Solidários do Vale do Itajaí. A quem deseja atuar de modo cooperado, a incubadora mostra os caminhos. É uma espécie de consultoria: ajuda os grupos interessados a escolher um ramo de negócio, baseado nas experiências profissionais de cada integrante, oferece capacitação, dá respaldo burocrático (registro, estatuto etc.) e apoio técnico-logístico, tanto na produção quanto na gestão e comercialização – um dos calos mais freqüentes.

Doutor em Antropologia Social pela UFSC, Alejandro Labale coordena a incubadora da Furb e é um entusiasta da economia solidária. O professor lembra que as modalidades alternativas de organização não são novas – elas teriam acompanhado o próprio surgimento da chamada economia hegemônica, nos séculos 17 e 18. Em países de amargos contrastes e gigantesco desequilíbrio social, como o Brasil, o conceito conquistou sofisticação acadêmica, mas o desafio, diz Alejandro, é converter conhecimento teórico em políticas públicas adequadas. De qualquer maneira, para se avaliar seu estágio atual, convém ir além dos resultados pontuais. “Afinal, a economia solidária é avessa ao individualismo, só se efetiva em redes”, raciocina o especialista. “Nesse sentido, está em plena consolidação.”

VEM AÍ A INCUBADORA
Contratada pelo Ministério do Trabalho para cuidar do mapeamento estatístico da Senaes no Estado, a rede da Furb alcança Joinville em duas iniciativas, além da visita dos pesquisadores a cooperativas e associações. Uma é a parceria com o Instituto Consulado da Mulher, braço social da Multibrás Eletrodomésticos que incuba três projetos e assiste pessoas dispostas a virar empreendedoras populares. A outra vem sendo cultivada a muitas mãos. Furb, faculdades de Turismo e Nutrição do Ielusc, Fórum de Economia Solidária e comunidades da zona rural preparam a primeira incubadora universitária da região, que deve abrir as portas em 2006. Com verba inicial de R$ 300 mil, do governo federal, o novo organismo vai dar ênfase à agricultura familiar, ao artesanato e à culinária, concentrando-se na identidade local.

“Há carência de instituições que assumam a tarefa da incubagem”, percebe Elisabeth Tamanini, diretora do curso de Turismo do Ielusc, voltado ao meio ambiente. “Sentimos falta de uma incubadora na região que tenha profissionais comprometidos e articule opções para os empreendedores, muitas vezes entregues à própria sorte, esperando pela sensibilidade do poder público ou da academia”, detalha Viviane Bail, do Comitê Fome Zero, ONG inscrita no fórum regional. Típica ação de extensão universitária, a incubadora deve “municiar os empreendimentos populares de tecnologias e processos de gestão”, recomenda o experimentado Alejandro Labale, da Furb. (Sem isso, eles têm que andar sozinhos: “Nunca recebemos muito apoio. Só contamos com a cara e a coragem”, diz João Guilherme Zeferino, da Associação de Produtores Orgânicos.)

Elisabeth, do Ielusc, promove o "orgulho do seu lugar"

O projeto abraçado pelo Ielusc brotou do amadurecimento de intensas discussões acadêmicas sobre sustentabilidade social, economia solidária e turismo inclusivo, iniciadas em 2000. A faculdade procura despertar no aluno a preocupação com o impacto de sua atividade profissional e, ao mesmo tempo, preservar os valores locais como patrimônio. É onde entra, por exemplo, a agricultura familiar. “A economia solidária resgata o sujeito no espaço em que ele vive”, reforça a professora Elisabeth. “Queremos que as pessoas se orgulhem em falar do seu lugar. E buscamos interagir com organismos que estejam empenhados em trabalhar essa realidade.”

É a missão do fórum que, desde o final de 2004, aproxima entidades e empreendedores do Norte catarinense. Tudo começou com a implantação da Senaes, que convocou as delegacias do trabalho para se integrar aos fóruns regionais e alimentar o debate nacional sobre o tema. Ocorre que em Joinville a articulação ainda não existia. O novo fórum veio congregar experiências variadas no campo da ação social. Estão representados ali: Ielusc, Consulado da Mulher, Centro de Direitos Humanos, Comitê Fome Zero, Mitra Diocesana, Secretaria de Bem-Estar Social, Fundação 25 de Julho e Associação dos Municípios do Nordeste de Santa Catarina (Amunesc).

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