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Valdete (dir.), na reunião de produtores e consumidores

Esse pessoal mandou chamar o sociólogo Valmor Schiochet para um seminário no qual os participantes trocaram experiências e reclamaram do governo uma política tributária diferenciada. O palestrante comemorou os avanços recentes da economia solidária – “já não somos apenas um exemplo, somos realidade” – e apontou nas cooperativas e afins “uma perspectiva das mais importantes” para iniciação do jovem no mercado de trabalho, ante o esgotamento dos caminhos tradicionais. Durante o seminário, dois empreendimentos contaram suas histórias: a Padaria Alternativa Vitória, de Laguna, e a Associação dos Produtores Ecológicos (Afruta), de Porto União. A mais antiga é a Afruta. Fundada em 1998, produz cera, geléias e doces reaproveitando frutas. Os filiados (25 famílias) se uniram para fortalecer a venda de seus produtos em feiras e supermercados. Com marca própria e tudo.

Casos de sucesso (ainda) são excepcionais no Norte do Estado. Viviane Beil, do Comitê Fome Zero, trabalhou no mapeamento da Senaes e resume o panorama do setor: “Uns poucos vão bem, dependendo do produto e do mercado em que atuam. Outros estão engatinhando, de maneira precária, e outros se encontram em situação intermediária”. Mas há exemplos positivos. Jaraguá do Sul e Mafra atenderam a uma insistente reivindicação dos empreendedores: espaços públicos para comercialização. Em Joinville, uma associação chamada Avena, que cria aves sem confinamento ou aditivos químicos na alimentação, construiu os aviários em mutirão e vende lotes trimestrais de 600 frangos via Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento. A preço justo, nada de atravessador.

A Fundação Municipal 25 de Julho, quase uma incubadora, anuncia para breve a abertura de uma cooperativa agroecológica que vai produzir 100 itens, beneficiando 60 famílias. Em Garuva, a Associação dos Agricultores Três Palmeiras planta hortaliças, aipim, milho e banana em área própria de cinco hectares. A associação acaba de comemorar uma década – e a turma está rindo sozinha. Em dois anos, a produção cresceu 50%, quase tudo entregue nos supermercados da região. Há farta assistência técnica dos órgãos públicos, os trabalhadores tiram 20 dias de férias por ano e cada uma das 13 famílias embolsa em torno de R$ 1.200 ao mês. Até as refeições são coletivas, quatro ao dia, incluindo as famílias. “Tudo é dividido”, garante o presidente Airi Mossi, seguro de que a associação “melhorou muito, nem se compara” as condições de vida de seus filiados. “Aqui, a economia solidária funciona bem, com certeza.”

AGRICULTURA ECOLÓGICA
Toda terça-feira, por volta de 80 pessoas saem da sede da Cipla – fábrica de plásticos administrada por trabalhadores, em Joinville – com sacolas carregadas de hortaliças, legumes e frutas, pães e biscoitos, aves e laticínios. Foi o espaço que a Associação de Produtores Orgânicos de Joinville e Região arrumou para promover sua feira semanal. O lugar é esquisito, mas os responsáveis não se incomodam. “Atendemos a um público cativo: pessoas conscientes sobre a importância da alimentação sem agrotóxicos”, constata João Guilherme Zeferino, coordenador da associação fundada há três anos, hoje com 14 filiados.

A associação abastece a cozinha da Cipla (500 quilos por semana), começa a fornecer merenda para uma escola do bairro Vila Nova e exercita o princípio da economia solidária trocando mantimentos com outros grupos, como uma cooperativa que faz vassouras à base de retalhos de garrafas pet. De dois em dois meses, seus integrantes organizam encontros com agricultores e consumidores para conversar sobre os méritos da produção orgânica, assessorados pela socióloga Valdirene Daufemback, militantes da causa. Quando algum companheiro mais cético pergunta se dá certo esse negócio de agroecologia, João Guilherme leva a resposta na ponta da língua: “A melhor garantia é o nosso exemplo. É a única lógica que temos”.

Acácio cria aves com "valores naturais": é preciso dar a mão

Há duas décadas trabalhando assim ao pé da Estrada dos Morros, próximo à Cascata do Piraí, Acácio Schroeder também se esforça em propagar as virtudes da opção preferencial pelos orgânicos. A Associação dos Criadores de Aves com Valores Naturais (Avena), que ele preside, tem 12 criadores que não usam um pingo de aditivo químico, hormônio ou anabolizante para fazer o franguinho crescer. Até o vermífugo é natural – alho, talo de banana, semente de abóbora. “Rapaz, fiquei abismado ao ver como isso funciona!”, exclama Schroeder, que aposta na expansão da agroecologia em Joinville e não se cansa de pregar a solidariedade entre os parceiros: “Somos todos agricultores. Por que não iríamos dar a mão um para o outro?”


ELES FAZEM DIFERENÇA
Dois empreendimentos solidários
que venceram o desafio e se
projetaram no mercado

# Associação dos Fruticultores de Monte Castelo. Reúne 45 produtores de maçã e 30 de caqui – todos familiares –, que mandam 1.200 toneladas/ano aos mercados de Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Em 1998, o engenheiro agrônomo Jânio Seccon, hoje presidente da entidade, foi o primeiro a acreditar que dava para plantar maçã na região, apesar do clima mais quente que em Fraiburgo, o centro estadual da fruta. Bastava trabalhar com variedades que exigissem menos frio. Hoje, Monte Castelo colhe suas maçãs (como a da foto acima) em janeiro, 25 dias antes de Fraiburgo, o que lhe garante um diferencial de preço. A associação organiza compras coletivas de insumos, promove reuniões técnicas e conseguiu da prefeitura equipamentos como trator e roçadeira, em troca da manutenção. Agora, conclui providências para transformar a organização em cooperativa, que vai zelar também pela classificação, embalagem e venda das frutas, terceirizada. Para tanto, precisa investir nada menos que R$ 2,5 milhões. Dentro de dois anos, planeja Seccon, a cooperativa deve chegar a 100 agricultores, em todo o Planalto Norte, e a produção será diversificada (kiwi, ameixa, uva, nectarina, pêssego, pêra).

# MS Fios e Fitas/Fionobre. Empresa de autogestão com sede em Itajaí, produz fios para artesanato, vendidos em aviamentos da Região Sul, e fitas para reforço de calçados, que abastecem indústrias de São João Batista. Com bom espaço no mercado, suas três sócias sonham em criar uma cooperativa, “o que nos permitiria crescer para gerar mais renda”, explica Idalina Boni, militante da economia solidária desde 1986, quando ninguém falava nisso. “Nós sempre fomos alinhados a esse conceito”, diz ela, antes de aconselhar os novos empreendedores a construir gradativamente sua percepção de coletividade, com base na transparência e na participação de todos. “O foco da economia solidária é o ser humano”, sustenta. “E as pessoas não são máquinas, não basta apertar parafusos.”


“Organização transformadora”

Diretor de Estudos e Divulgação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, o sociólogo Valmor Schiochet deu entrevista exclusiva à Revista Döhler. Veja o que ele disse sobre:

Tendência mundial
“A economia solidária é um fenômeno, tanto nos países desenvolvidos quanto nas nações em desenvolvimento e pobres. Na América Latina, a experiência é riquíssima, já que esse conceito expressa uma forma de organização transformadora em sociedades contraditórias e desiguais para superar sua situação de exclusão e precariedade. As perspectivas de emancipação são maiores quando a competição é substituída pela solidariedade; a concorrência, pela ajuda mútua.”

Obstáculos aos empreendedores
“Aquilo que é comum na inclusão dos pobres na sociedade e na economia. O processo de exclusão é tamanho que a superação é muito difícil. Na economia solidária, esse processo parte do pressuposto de que ‘a união faz a força’ e a ajuda mútua é uma capacidade nova para as pessoas enfrentarem as dificuldades. No entanto, sem atuação do poder público e apoio da sociedade, a ajuda mútua é insuficiente. O principal problema é que a sociedade não reconhece o trabalho associado como uma nova forma para além do trabalho autônomo e do trabalho subordinado. Os empreendimentos coletivos e autogestionários não são reconhecidos em suas peculiaridades organizativas. Assim, não recebem tratamento específico.”

O papel das ONGs
“A construção de um novo sujeito social e político a partir da realidade do trabalho associado e cooperado é um desafio. Muitas organizações se engajam nessa tarefa. É importante a colaboração mútua para que possamos fortalecer esse sujeito que aposta na cooperação efetiva para superar a exclusão social. A organização dos processos econômicos em outras bases que não o egoísmo individual e a competição é uma oportunidade efetiva para pensarmos um novo modelo de desenvolvimento.”

O papel da universidade
“As universidades têm, como outras entidades, atuado na promoção da economia solidária. De um lado, várias universidades no país desenvolveram uma metodologia de incubagem de empreendimentos econômicos solidários, e isso também ocorre em Santa Catarina. São pioneiras no Estado as universidades de Blumenau e Chapecó. De outro lado, as instituições começam a se envolver mais no desafio fundamental de pensar, a partir de estudos e pesquisas, uma estratégia de organização social, política e econômica mais adequada aos anseios das maiorias em nossa sociedade. Esse papel crítico e estratégico é fundamental para as universidades brasileiras.”

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