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A ÉTICA MORREU.
VIVA A ÉTICA!


Safra de escândalos na política e em grandes corporações repugna o cidadão comum. Esse é o lado bom da coisa

Foi um escândalo atrás do outro. Vai-se poupar o leitor de enumerar caso a caso, que o noticiário habitual já se fartou disso, mas vale frisar que 2005 deve entrar para a história da República como o ano em que mais se falou de corrupção, malversação de recursos públicos, negociatas e favorecimentos de toda ordem. Desde que o dito “mensalão” veio à tona, em maio, os brasileiros assistiram, queixos caídos, a um mar de lama se alastrando por setores do governo, do Congresso, prefeituras de cidades imponentes, partidos, empresas e até singelos confrontos de futebol. Nomes de reputação ilibada foram apanhados com as mãos sujas – metidos em crimes como formação de quadrilha, tráfico de influência, sonegação, lavagem de dinheiro e prevaricação. Há denúncias, inclusive, de assassinatos que teriam servido para manter intactos esquemas milionários de desvio de verbas em direção aos próprios bolsos.

CPIs movimentaram o país: desânimo do eleitor é natural


À mesa de bar, o cidadão manifesta sua revolta. Arrepende-se do voto que deu. Quer ver gente punida. Acompanha as CPIs ansioso para que, desta vez, não terminem em pizza. A percepção generalizada de que as pessoas comuns andam inconformadas com esse cenário nada edificante é a melhor coisa produzida pela crise. Sinal de que o senso ético verde-amarelo está mais apurado. “Se sentimos desânimo é porque percebemos tais condutas como equivocadas, o que implica num padrão ético de comportamento”, interpreta Cláudio Reis, doutor em Filosofia Política e professor da Universidade de Brasília (UnB). Consultor legislativo do Senado, Reis detecta uma tendência de se olhar para os políticos e homens de negócio como modelos. “Quando aqueles que deveriam nos dar o exemplo começam a agir mal, nos sentimos perdidos. Isso confirma nossa vitalidade moral: caso não ligássemos para o que vem deles, aí sim a crise seria grave.”

“Ligamos para o que vem deles” porque a sociedade brasileira amadureceu bastante desde a redemocratização, na metade dos anos 80. Antes, ainda, pode-se dizer que a disseminação da ética resulta de um processo global, reação aos desequilíbrios sócio-ambientais e ao crescimento absurdo da violência, entre outros fatores. Na esfera política, a palavra aparece de modo explícito, pela primeira vez, com a mobilização que conduz ao impeachment do presidente Fernando Collor, na qual se defende que não pode haver política sem ética. Em 1993, o conceito é resgatado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, na célebre campanha contra a fome que sensibilizou a população. Betinho classificava a fome de “crime ético” e chamava de “perverso” o país que não propicia trabalho, renda e emprego a todos seus habitantes. “Acabar com a fome é um imperativo ético”, decretava o sociólogo.

A fome continua aí, mas ao longo da última década – que Betinho, morto há oito anos, não viu – a noção de ética ganhou formas concretas no campo social. Inventário desses avanços foi apresentado no ciclo “Conversas com Betinho”, que o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) promoveu de agosto a novembro. Ética na política e na iniciativa privada, fome, Aids, meio ambiente e reforma agrária, temas que nortearam a vida pública do sociólogo, estiveram em pauta no seminário, homenagem do Ibase a um de seus fundadores. Ciro Torres, que coordena a área de Responsabilidade Social e Ética nas Organizações da entidade, teme que os acontecimentos recentes envolvendo governo, partidos e empresas joguem valores e instituições democráticas em descrédito. “O perigo é colocar tudo no mesmo saco, concluir que todo político é ladrão, que a política não presta etc. Isso pode ser usado ideologicamente”, alerta, convicto de que “a ausência da política traz a guerra, a barbárie”.

REEERGUER A BANDEIRA
Em entrevista à Revista Döhler, o coordenador do Ibase adverte que o debate atual se concentra em identificar os corruptos, esquecendo os corruptores. “As denúncias escancaram a falta de ética na política, mas fica a pergunta: e quem corrompe, não interessa?”, questiona Torres, para em seguida detonar a “relação promíscua entre determinadas empresas e o Estado”, que chegaria a influenciar em decisões estratégicas de interesse público e em mudanças oportunistas da legislação. A saída? Segundo ele, é “levantar, com mais força, a bandeira da ética nas empresas”, de maneira a estender as práticas de gestão responsável observadas hoje em determinadas organizações. “Vivemos um período de transição, esse novo olhar ainda é minoria”, analisa, ao sugerir que se criem mecanismos mais transparentes para evitar deslizes nas conexões do setor privado com o governo. “Processos à luz do dia reduzem a possibilidade de corrupção.”

As (boas) empresas também parecem indignadas. Tanto com a safra recente de escândalos em Brasília quanto com o turbilhão que, de três anos para cá, arrasou corporações norte-americanas e européias tidas como inabaláveis, por conta de fraudes contábeis. A Associação Empresarial de Joinville (Acij) publicou nos jornais um pesado artigo em que denuncia a corrupção como “suprema perversidade” da vida econômica e política. “Ela destrói as instituições criadas para realizar direitos. Pode, em situações extremas, tornar-se a moral estabelecida, a ponto de gerar nos cidadãos o conformismo com o mal social”, receia a Acij. O advogado João Martinelli, que dirige um escritório de advocacia empresarial, menciona pesquisa feita nos Estados Unidos indicando que o desempenho das 500 maiores companhias do país está vinculado à ética nos negócios. “Claro que isso produz reflexos”, observa.

Por aqui, diz Martinelli, o movimento se fortaleceu nos últimos cinco anos, com a formalização de padrões avançados de conduta nas organizações, os quais normatizam o relacionamento com seus diversos interlocutores – governo, funcionários, acionistas, fornecedores, clientes. “Contudo, há muito por fazer”, reitera o advogado, frisando que “as empresas não são ilhas” – impossível que, em certa medida, não fossem afetadas pelos problemas éticos que inquietam o país, “no campo político, na sonegação fiscal, na baixa qualidade de alguns produtos, na propaganda enganosa etc.” O que Martinelli chama de “predisposição ética” do setor privado, que precisaria se tornar “consciência” efetiva, encontra respaldo em números emblemáticos divulgados no Congresso Sul-Brasileiro de Responsabilidade Social, em Joinville.

Univille mantém "Escola de Governo": público discute ética

A pesquisa realizada pela Editora Expressão, de Florianópolis, em parceria com a consultoria Civitas e a agência Lauster do Brasil, radiografou 99 companhias da Região Sul a partir de 404 indicadores propostos pelo Ethos, a respeitada ONG que orienta empresas interessadas em agir socialmente correto. O objetivo é qualificar o estágio dessa turma nas práticas da responsabilidade social. Alguns dados chamam atenção:

? 90% adotam mecanismos para coibir e julgar casos de abuso de poder, suborno e corrupção.
? 82% expõem publicamente seus compromissos éticos e 56% veiculam os princípios em relação à concorrência.
? 84% submetem informações econômico-financeiras à auditoria de terceiros e 52% fazem o mesmo com informações sócio-ambientais.
? 87% levam em conta a garantia de origem dos produtos que compram, para evitar piratas, falsificações e artigos roubados.
? 56% mantêm políticas formais contra o trabalho infantil e 47% contra o trabalho forçado ou escravo.
? 78% contribuem com recursos humanos ou financeiros na elaboração de propostas de interesse público.

Como nem tudo são flores, a pesquisa aponta um calcanhar-de-aquiles justo no tema “governo e sociedade”. Menos de metade dos entrevistados (48%) revelou “proibir expressamente” a participação em editais de concorrência manipulados, sintoma de que o caminho rumo à ética é mesmo longo. E apenas 38% inserem, entre os procedimentos anticorrupção, a obrigatoriedade de denunciar ofertas recebidas – mau hábito recorrente. Quadro semelhante havia sido apresentado em sondagem da Transparência Brasil, ONG dedicada a ações e estudos contra a corrupção. Em 2003, a entidade ouviu de 74% das 78 organizações paulistas abrangidas pelo trabalho que a corrupção é um obstáculo “muito importante” ao desenvolvimento empresarial do Brasil, mais grave até do que a carga tributária. A maioria tem código de ética e protege de represálias o funcionário que fizer denúncias. Ótimo. Porém, e aí vai o lado ruim, 70% admitem pagar propinas e duas em cada dez revelam que a corrupção é “aceita tacitamente” pelas políticas gerenciais.

Diretor-executivo da Transparência Brasil, mestre em Filosofia da Ciência, o jornalista Cláudio Weber Abramo tem opinião dura sobre a raiz do problema. Para ele, não é a ausência de valores, e sim a mera “oportunidade”, que explica fraudes, negociatas e artifícios do gênero. “Não estou muito interessado em ética, mas em procedimentos, leis e regulamentos que alterem o sistema de funcionamento do Estado, extremamente vulnerável”, bombardeia, citando como exemplo a nomeação desmedida de agentes políticos para cargos de confiança no Executivo, entra governo, sai governo. “Isso gera corrupção, sem dúvida. É preciso proibir nomeações nesse volume, o que ninguém se dispõe a fazer.” Outro remédio: aumentar a transparência da administração pública, por intermédio de uma legislação que garanta o acesso amplo à informação de posse do Estado, sem restrições ou prazos. “É algo que a gente advoga sistematicamente”, diz Abramo.

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