VAI
SER PRECISO Tratar a educação como o bem público que é. Talvez resida aí o cerne da questão do ensino superior em Joinville, que não foge à regra do país: menos de 8% dos jovens brasileiros entre 20 e 24 anos estão matriculados em universidades – e, entre esses privilegiados, 71% estudam em escolas particulares. Debatendo-se em diversas teorias e tendências para democratizar a universidade, os setores envolvidos na discussão só têm em comum a certeza de que a maior cidade catarinense merece, quer e, sobretudo, precisa de uma instituição superior pública, capaz de oferecer formação de qualidade a todos. Esse é, sem dúvida, o ideal. No plano da razão, o ensino superior público brasileiro tem muito que evoluir até se consagrar como um foro de conhecimento disponível a todos os brasileiros e brasileiras que concluem o ensino médio em escolas administradas pelo governo. “A situação que vivenciamos hoje é exatamente inversa. Os alunos do Colégio Bom Jesus, oriundos de famílias de posses, normalmente vão prestar vestibular fora, em instituições federais consagradas. Ao Ielusc, acorrem os jovens de classe média, que trabalham para pagar seus estudos”, atesta o pastor Tito Lívio Lermen, diretor da tradicional escola joinvilense e do Instituto Educacional Luterano.
A situação é basicamente a mesma na Univille e nas outras 14 instituições de ensino superior da cidade. “Temos um número consistente de bolsistas e, neste ano, inauguramos uma linha de crédito própria para ajudar nossos alunos, no valor de R$ 1 milhão”, conta Paulo Ivo Koehntopp, reitor da Universidade da Região de Joinville, maior instituição da cidade, que abriga cerca de 11 mil acadêmicos, incluídos os estudantes do campus de São Bento do Sul e distribuídos em quase 40 cursos de graduação. No centro de um debate sobre a possibilidade de ser federalizada, a Univille prefere chamar a comunidade a encontrar outras respostas para a questão do ensino superior público. Reunido para discutir o assunto, o Conselho Universitário posicionou-se pela busca de soluções mais viáveis para o problema. “Não há caminho legal que nos faça ir dormir na condição de funcionários privados e acordar públicos”, gosta de dizer o reitor Paulo Ivo, referendando a posição do Conselho Universitário, antes de sublinhar que a Univille precisaria ser praticamente desconstruída, para só então virar federal. Ainda assim, Paulo Ivo defende a oferta local de ensino federal público como alternativa para facilitar o acesso da maioria dos estudantes e ampliar o pólo cultural que a Univille centraliza. “O que nos difere de uma instituição federal é que aqui a produção do conhecimento, materializada por nossos projetos de pesquisa e extensão, é direcionada, está voltada à comunidade, pesquisando e propondo soluções para os problemas sócio-ambientais que enfrentamos. É nossa contrapartida, a forma de contribuir para a melhoria da qualidade de vida e para o desenvolvimento da região.”
FALTOU
MOBILIZAÇÃO POLÍTICA Nunca é tarde. A última notícia sobre o tema vem de Brasília. Em julho deste ano, uma comitiva joinvilense manteve um encontro com Nelson Maculan, secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, garantindo que o assunto teria continuidade. A idéia mais bem recebida pelo secretário foi a da implantação de um campus da UFSC, do lado de cá de Balneário Camboriú. Acertou-se, então, que uma comissão municipal seria formada para discutir o assunto com técnicos do MEC. Não há informações de que o assunto tenha avançado nessa esfera, na segunda metade do ano. Ex-reitor da UFSC, onde esteve por três mandatos, o professor Rodolfo Pinto da Luz, cidadão francisquense que teve toda sua formação escolar em Joinville e hoje é secretário municipal da Educação em Florianópolis, é um defensor entusiasmado da interiorização do ensino superior. Em 2004, quando concluía seu último período à frente da universidade federal, o ex-reitor publicou artigo no jornal A Notícia, abrindo números importantes para análise e reflexão sobre universidade pública em Santa Catarina. O Estado, apesar de apresentar um dos melhores índices de acesso ao ensino superior do país – atrás apenas do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal –, é um dos cinco piores quando a análise recai sobre a oferta de vagas no ensino público: são 249 catarinenses por matrícula, índice que fica acima da média nacional, de 208 habitantes por vaga. A solução, segundo ele, passa necessariamente pela mobilização em busca de recursos que permitam expandir as atuais instituições públicas, aproveitando a infra-estrutura das escolas técnicas federais, transformando-as em Cefets – Centros Federais de Educação Tecnológica. Rodolfo Pinto da Luz registra, ainda, o recebimento de inúmeras demandas de cidades catarinenses solicitando a implantação de campi da UFSC, “do Sul à região de Camboriú, no litoral, de Curitibanos, no Meio-Oeste, a Dionísio Cerqueira e Itapiranga, no Extremo-Oeste”, detalha o ex-reitor. Ele argumenta que a universidade não dispõe de orçamento para isso e defende ações em parceria com as prefeituras, Estado e governo federal para iniciar pela criação de campi avançados associados às escolas federais ou mesmo a fundações públicas, que seriam embriões de novas universidades. Iniciativa nesse sentido foi proposta pela Escola Técnica Federal de Rio do Sul, por exemplo. Um passo promissor foi dado, há pouco, em Joinville, com a doação, pela prefeitura, de terreno para a construção da sede do Cefet, que já funciona na cidade. Partidário da idéia de utilizar os caminhos já abertos rumo à conquista de ensino superior público, o deputado federal Carlito Merss aponta, além do Cefet, também a Udesc como outra importante parceira nessa empreitada. Por iniciativa do deputado estadual Wilson Vieira, o “Dentinho”, uma audiência pública da Assembléia Legislativa na Câmara de Vereadores de Joinville, em novembro, criou uma comissão para estudar a possibilidade de aumentar a oferta de cursos e vagas no campus local. “Nossa expectativa é de que essa comissão consiga encaminhar a discussão de alguns pontos importantes para a universidade, como suplementação orçamentária, aumento de percentual de repasse do bolo da receita estadual à instituição e o conseqüente aumento dos cursos de graduação na região”, espera o diretor-geral da Udesc-Joinville, Gerson Volney Lagemann. POLÊMICA
ANTIGA Aliás,
no âmbito do Legislativo Municipal, o tema tem sido preocupação
de vários vereadores. Adilson Mariano, que também batalha
desde os tempos de faculdade pelo "ensino público e gratuito",
alerta para o que chama de “esgotamento de recursos” dos estudantes
de faculdades particulares. O ex-reitor da UFSC, Rodolfo Pinto da Luz,
já chamava a atenção para isso em 2004: “A
expansão das vagas na educação superior brasileira
não pode ocorrer somente por conta do ensino superior privado,
uma vez que o crescimento deste é limitado pela capacidade de pagamento
da população. Já é alta a ociosidade de vagas
no ensino superior privado e crescente a inadimplência dos alunos
matriculados”, escreveu o professor, alertando que, segundo o Banco
Mundial, o país tem 65% de seus estudantes universitários
em escolas particulares – contra 30% no Chile e Estados Unidos e
18% na Argentina. |
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