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MENINO CARANGUEJO
GANHA O MUNDO


Dedicado ativista da animação, José
Francisco Xavier, ou melhor,
Chicolam, comanda um ambicioso
projeto de desenho ambiental

A admiração pelos seres vivos das mais variadas espécies e a paixão pelo desenho cunharam Chicolam, nascido José Francisco Peligrino Xavier, paulistano do Tremembé. O primeiro prêmio por suas artes, aos 7 anos, motivou os pais a apoiar o talento daquele menino que rabiscava de tudo – e em tudo o que via, das capas de cadernos às carteiras escolares. Chicolam seguiu seu destino, formando-se na faculdade de Belas Artes, em São Paulo. Nesse tempo, 1997, atuando em uma empresa de multimídia, começou a trabalhar imagens por meio de sistemas interativos, como a internet.

Hoje, professor do curso de Design da Univille, é um dedicado ativista da animação. Coordenou, em Joinville, o evento mundial comemorativo ao Dia da Animação, em outubro, participa de mostras e seminários pelo país todo, não falta aos festivais como os de Gramado (RS) e Teresópolis (RJ) e tem, como maior projeto, o desenho animado ambiental. Seu principal personagem, o Menino Caranguejo, chega à segunda revista em quadrinhos, o projeto de extensão batizado de Desenho Animado Ambiental virou DVD, lançado em 2006, e, recentemente, outra de suas idéias, a criação de uma produtora de entretenimento educativo, cultural e de material didático, tornou-se projeto finalista do Prêmio Santander de Empreendedorismo. Uma caminhada intensa e sólida, para caranguejo nenhum botar defeito. Com vocês, o inquieto Chicolam.

Quando e como a animação apareceu na sua vida?

Foi no período da universidade. A Zero A Multimídia, empresa em que eu trabalhava, em São Paulo, estava investindo em novas tecnologias de animação – fazíamos animações de pequeno porte, como vinhetas para sistemas multimídia e para feiras e eventos. O final do século foi um prato cheio para experimentações com recursos menos conhecidos. Por isso, cursos específicos eram raros e com pouca influência nas práticas universitárias. Para sobreviver, foi necessário ter empenho e dedicação. O mundo mudou bastante nesse período, dando espaço para novas tecnologias e agregando produções independentes. Embalado nessa correnteza, comecei a desenvolver o projeto “Caranguejo.com”, com dois objetivos. Um, ser um site de referência sobre meio ambiente, tema que recebia poucos olhares e interesses no período de 1997 e 1998. O segundo objetivo eram as produções de animações como estratégia de comunicação com o internauta sobre a questão ambiental.

Criador e criatura: personagem ensina respeito ao ambiente

Como surgiu o “Menino Caranguejo”?

Queria criar um personagem como símbolo para representar o meio ambiente, com características e experiências culturais brasileiras. A idéia de estampar um personagem típico do litoral brasileiro serviu como inspiração para meu projeto de conclusão do curso de Design – aliando minha paixão pelo desenho e o respeito com o habitat em que vivemos. O Menino Caranguejo é um garotinho que deixou de ser catador e ganhou responsabilidades que vão muito além da própria sobrevivência: a defesa de seu habitat. O personagem serviu de apoio para as animações do projeto Desenho Animado Ambiental (DAA), já que tínhamos um prazo curto para o desenvolvimento dos desenhos. Suas características, pés descalços e hábitos de um típico menino regional, fortaleceram a forma de representação de atitudes culturais e valores sociais, essenciais para uma educação ambiental. Fizemos uma animação-teste em 2004, que acabou em segundo lugar no festival Anima MundiWeb de 2004, na categoria júri popular. O Desenho Animado Ambiental é um projeto que colocou em prática a forma de fazer animação para internet e para a TV, dentro do campus universitário e principalmente dentro do curso de Design.

Qual foi a proposta com o lançamento do DVD sobre o personagem?

No começo, nossa preocupação era somente realizar animações ambientais. Com o tempo, descobrimos que não tínhamos apenas animações em nossas mãos, e sim um material rico, que não deveria ficar restrito aos alunos. Ao contrário, poderia ser dirigido aos professores. Depois do lançamento, em 2006, nos concentramos em produzir um DVD para apoio pedagógico a todos os professores que trabalham com Educação Ambiental. Além dos desenhos animados, fizemos a inserção de slides ilustrados com cenas dos desenhos, para motivar uma reflexão aberta entre alunos e professores. Neste DVD, que será distribuído às escolas públicas, também se encontra a seção Bastidores, com informações sobre o projeto DAA, visita ao manguezal, depoimentos dos alunos e nossa participação na comunidade – com quem interagimos fortemente. Nossas atividades vão desde o graffiti até debates envolvendo a arte, design e meio ambiente.

Capa do DVD que integra o projeto: material rico

Vencida esta etapa, que outros planos você tem pela frente?

Estou envolvido em três projetos. O primeiro é uma animação que está sendo desenvolvida com alunos do curso de Design: “Escolha viver sem drogas”. É um trabalho afiliado ao projeto do Desenho Animado Ambiental, que tem o compromisso de utilizar novas técnicas de animação para abordagens sócio-ambientais como tema de reflexão – e não de persuasão – em uma educação ambiental emancipadora. O segundo projeto é minha dissertação de mestrado, que estuda a viabilização do DAA como estratégia de ensino para a Educação Ambiental. E o terceiro é o Menino Caranguejo em quadrinhos. Logo, deve sair a revista número 2 e temos produção prevista até a 6. A realização desses projetos conta com a parceria de uma equipe formada por dois ex-alunos do curso de Design, Paulo Kielwagen e Cristiane Drews, fundamentais na rea-lização dos desenhos animados ambientais – além de minha esposa Viviane Cris e de Eugênio Siqueira. O desafio maior é buscar a melhor forma de produção dos projetos, nos desenhos animados e nas atividades comunitárias.

Você acompanha a animação nacional? Como estamos, em comparação com outros centros?

Hoje, o maior acesso às informações facilita a dinâmica e troca de experiências, globalmente. O Brasil está mostrando sua cara na animação graças aos festivais como o Anima Mundi, o Granimado, em Gramado (RS), e o AnimaSerra, no Rio. Muitas animações são independentes, o que não compromete a qualidade. Santa Catarina tem profissionais bons e vejo produções com ótima qualidade saindo do eixo Rio-SP. Neste ano, Joinville esteve no circuito do Dia Internacional da Animação, um grande evento reunindo diversas cidades do mundo. Mas não me atrevo a nos comparar com outros centros em termos de qualidade. Existe mercado para cada tipo de trabalho. Não importa a região: com uma ótima idéia e muito trabalho é possível, consolidar seu próprio espaço cultural.

Quais as suas referências em quadrinhos e animação?

Nossa, adorei essa pergunta. Acredito que nosso trabalho é sempre fruto de algum outro já semeado. Adoro o Will Eisner, que sempre foi uma grande referência para mim. Foi o primeiro grande artista em quadrinhos que pude conhecer pessoalmente. Estava numa feira de comics, em SP, percebi o tumulto em sua chegada e comprei uma revista do Spirit na mesma hora. Ele veio ao meu encontro autografar: “Hey boy, what’s your name?” Nesse dia, falei para mim mesmo que ia ser um desenhista em quadrinhos. Embora sempre tenha sido fã dos desenhos, não lia muito. As histórias quase não me agradavam. Comprava as revistas pelos quadrinhos. Queria estudar os estilos, ver como cada artista explorava certos movimentos. Assim, me tornei fã de Im Lee, Greg Capullo, Jon Madureira. Personagens que me motivaram vão desde as HQ com as aventuras do Tio Patinhas até o universo de Sandman, de Neil Gaiman, os desenhos animados da Corrida Maluca, He-Man, até os de hoje, como Samurai Jack, Dexter, Mansão Foster e Simpsons. Sou nerd de carterinha, difícil não gostar de desenho animado e de algum filme de ficção.

E quanto aos autores nacionais?

O que me deixa triste nessa história é não poder falar de personagens nacionais, de histórias e seriados nacionais com esse tipo de preocupação de emoção, ficção e fantasia – mas gosto muito dos trabalhos do Mauricio de Sousa e da Turma do Sítio do Pica Pau Amarelo. Minha maior crítica é à falta de valorização da cultura. A sociedade precisa prestigiar e aceitar novas idéias, mesmo quebrando alguns paradigmas. Por isso, acredito no mercado independente e na sua valorização, no espaço da internet e nos canais comunitários: é o nosso espaço de comunicação e interação para reflexões e disseminação de idéias, conceitos e atitudes.

NAVEGUE AQUI
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Visite o Menino Caranguejo na internet.

Conheça o site do Festival Anima Mundi.

Saiba mais sobre Will Eisner no site oficial do artista.

Veja os principais cartunistas e desenhistas de HQ.


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