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Doutor executivo Salve o planeta Institucional

MUITO ALÉM
DA AVENTURA


Escoteiros apostam no movimento como eficiente
alternativa para formação de caráter da garotada

Basta surgir notícia de crime ou história sexualmente apimentada envolvendo adolescentes para os ânimos exaltados soltarem uma das indagações existenciais mais corriqueiras que a modernidade ensejou: “Aonde esses jovens vão parar?”. O mundo moderno proporciona à garotada experiências impensáveis em outras épocas. A situação que deixa a maioria dos adultos de cabelo em pé é um dos frutos amargos da sociedade pós-industrial. Com a crescente demanda de trabalho dos pais, instâncias como a mídia e a escola tomam a dianteira na formação da criança. Esta é a era da educação pelos especialistas, não mais pela família. Daí, o panorama que se desenha é de um sujeito imberbe que desconhece o significado das palavras limite e disciplina e, ao mesmo tempo, goza de liberdade sem o contraponto da responsabilidade. O resultado desse arranjo põe em cheque a estrutura de uma sociedade baseada em valores que não acompanham a “evolução” dos tempos. Mas onde está a raiz do problema? No contexto social ou no anacronismo dos valores?

No bojo dessa discussão se encontra o movimento escoteiro, organização que completou 100 anos em 2007 e que é vista por muitos (ao menos pelos cerca de 28 milhões de participantes espalhados pelo mundo) como eficiente alternativa educacional e de formação para os jovens. O objetivo é claro: formar cidadãos melhores, que exerçam liderança e façam a diferença no contexto em que estão inseridos. Para isso, a organização conta com invejável estrutura administrativa, composta por associação mundial sediada na Suíça e afiliações em 216 países – abrangência que a torna a maior ONG de educação não-formal do planeta. Em resposta ao ensino fragmentado e especializado oferecido por outras instituições, o escotismo procura desenvolver potencialidades em cinco dimensões: física, intelectual, social, afetiva, espiritual e de caráter. Dessa forma, o ser humano na integralidade nunca é perdido de vista.

Movimento é a maior ONG de educação não-formal do planeta

A tarefa parece audaciosa. Mas, se depender da crença e do esforço de pessoas como a joinvilense Maria Terezinha Konesky Weiss, o escotismo continuará ganhando força e angariando adeptos. Terezinha tem 53 anos e atua há 37 no movimento. Formada em pedagogia, é chefe de lobinhos do Grupo Escoteiro Príncipe de Joinville. Além disso, exerce o cargo de presidente da Comissão Nacional do Programa de Jovens – que conta com 22 integrantes de todo o país e é responsável pela discussão e aplicação de estratégias educacionais. Para ela, o escotismo, através do “método preventivo e corretivo”, pode contribuir efetivamente na construção de uma sociedade melhor.

Em 2006, Terezinha levou às mãos do secretário de Educação de Santa Catarina um projeto apontando os benefícios do movimento para os jovens. A expectativa era apenas obter incentivo formal do governo para criar grupos nas escolas. Terezinha voltou de Florianópolis decepcionada. A secretaria recusou a proposta e classificou o escotismo como movimento behaviorista. Ou seja, que se baseia nos preceitos da psicologia comportamental caracterizada pela noção de que a conduta de cada indivíduo pode ser observada, mensurada e controlada. Essa visão negativa, para Terezinha, é equivocada. “Nosso projeto dialoga com o que há de mais avançado em pedagogia. Mais pessoas deveriam acreditar no escotismo como forma de melhorar a sociedade”, assevera.

ANGÚSTIAS DO NOSSO TEMPO

A avaliação da Secretaria de Educação pode ter sido rigorosa demais, porém, assinala uma característica evidente do movimento: a idealização de um corpo dócil e obediente. Assim pensa a psicóloga Márcia Amaral. Para ela, a exaltação de valores como disciplina e ordem sugere o embasamento do escotismo na tradição ideológica de uma sociedade em constante mutação. “As diretrizes do movimento devem ser repensadas, já que se trata de uma prática com história, presa à demanda de determinada sociedade e sua ideologia”, pondera. Mas, reconhecendo o potencial de contribuição que o movimento carrega, a psicóloga acrescenta: “Nossas experiências apontam acertos e também desvios a superar. Os princípios norteadores de instituições como o escotismo devem ser clareza e boa vontade para dar conta das angústias provocadas pelo nosso tempo”.

A ex-bandeirante Rosa, com a filha Bruna: "maravilhoso"

Boa vontade é que o não falta aos escoteiros. Chefes e coordenadores de grupo, além de não receberem remuneração pelo tempo destinado às atividades (cinco a dez horas por semana), dão conta de todas as despesas de viagens e cursos. No Brasil, apenas 15 pessoas “vivem” de escotismo. Ou seja, dedicam tempo integral ao movimento e são remunerados por isso. Eles ocupam algum cargo na União dos Escoteiros do Brasil (UEB), com sede em Curitiba, e trabalham na articulação de programas e atividades em âmbito nacional e internacional.

Um deles é o joinvilense Luiz Cesar de Simas Horn, que é executivo de Métodos Educativos. Formado em psicologia, Luiz é um entusiasta das práticas e valores que o movimento propaga. Para ele, o escoteiro novato acaba se identificando e absorvendo os valores do grupo, o que chama de formação através do contágio: “Se eu freqüento um ambiente de pessoas com determinado comportamento, acabo me adequando para me sentir integrado. É nisso que apostamos: que os bons hábitos se espalhem e sejam levados para a vida pessoal de cada escoteiro”, explica.

FORMAÇÃO PARA A VIDA

“Você não pratica escotismo, você é escoteiro.” Esse pensamento sintetiza a proposta da instituição e é compartilhado por boa parte dos integrantes. Para as crianças, as duas horas de atividades nas tardes de sábado não passam de entretenimento ao lado dos amigos. No entanto, quem cresce dentro do escotismo garante que o vínculo muda de figura: de simples hobby, vira filosofia de vida. Talvez por isso o movimento seja tão bem-visto por pessoas que participam há anos ou fizeram parte dele na infância. O empresário Miguel Abuhab, 63 anos, é um desses que lembram com saudade e orgulho do tempo em que vestiam a camisa azul-clara e bermuda até os joelhos. Abuhab conheceu o escotismo em São Paulo, aos 7 anos, por intermédio dos irmãos mais velhos. Assíduo e dedicado às atividades, chegou a ser chefe de lobinhos, mas teve que deixar o grupo aos 18, quando ingressou na faculdade.

A dirigente Terezinha: "Forma de melhorar a sociedade"

Quatro décadas depois, acredita que o programa do escotismo se tornou ainda mais relevante. “É muito importante que o jovem de hoje se ocupe com coisas úteis que contribuam no desenvolvimento do caráter”, afirma. E acrescenta, lamentando o desinteresse de outras entidades: “Empresas e políticos deveriam colaborar mais com os grupos escoteiros. O envolvimento com a comunidade deveria ser maior”.

Seja pelos valores que cultiva ou pela diversão e amizades que proporciona, o escotismo acaba se tornando parte essencial da vida dos participantes, independente da idade. Alguns, como Franco Moraes, 16 anos, colocam as reuniões dos sábados à frente de qualquer compromisso – e não se arrependem. Ele participa há dois anos do Grupo Príncipe de Joinville. “Já faltei a comunhão, aniversário e casamento para marcar presença nos encontros. Para mim, só a família vem antes dos encontros”, assegura. Companheiro de Franco, Felipe Becker vive situação parecida. Aos 20 anos (11 como escoteiro), Felipe fica meio perdido quando não pode comparecer às atividades. “Em todos esses anos, tive que faltar poucas vezes e ficava em casa me perguntando ‘o que vou fazer agora?’”, conta. Para ele, o lazer e a companhia dos amigos são os principais atrativos do movimento.

Márcio Randig, 27 anos, é enfático ao caracterizar sua relação com o escotismo: “Não imagino minha vida fora dele”. Com 15 anos de estrada no movimento, dedica boa parte do tempo à programação de atividades e encontros regionais. A paixão já lhe rendeu a oportunidade de conhecer vários lugares. Como diretor regional do Programa de Santa Catarina (órgão máximo do Estado), Márcio ajudou a representar o país em eventos na Bélgica, Inglaterra, Suíça e França. “Nessas viagens, pude entender o que é ter 28 milhões de irmãos e irmãs espalhadas pelo mundo”, afirma.

Márcio, escoteiro há 15 anos: "Tenho 28 milhões de irmãos"

Tem gente que começa logo cedo a carregar a bandeira do escotismo, como no caso de Bruna Pascoal, de apenas 12 anos. Rosa, a mãe, que foi bandeirante (nome dado às garotas que entram no movimento), quis proporcionar a Bruna a “fase maravilhosa” que viveu na juventude. A filha adorou a idéia e hoje é uma das bandeirantes mais dedicadas do grupo. Bruna tem como meta conquistar a “Flor de Liz” – condecoração que exige esforço e habilidade em mais de doze áreas, desde culinária a primeiros-socorros. “Ela está se esforçando muito. Essa condecoração é realmente importante para Bruna”, constata a mãe, sempre alerta.

JOINVILLE TEM POUCOS ADEPTOS

Existem sete grupos de escoteiros devidamente cadastrados à UEB em Joinville. O maior deles, o Príncipe de Joinville, conta com 140 integrantes e completou 40 anos em 2007. Na maior cidade do Estado também fica a sede da Direção Regional da União Nacional dos Escoteiros. Mas isso não garante número elevado de adeptos. Somando todos os grupos, o contingente mal chega a 500 pessoas – menos de 10% do total de Santa Catarina, que é de aproximadamente 5 mil. Florianópolis, com 100 mil habitantes a menos, conta com cerca de 700 escoteiros.

Felipe é assíduo nas reuniões: "Se não venho, fico perdido"

O grupo mais antigo de Joinville, com 51 anos de história, não faz parte da UEB. No início de 2007, o Grupo Ronaldo Dutra participou da fundação da Associação Escoteira Baden Powell (AEBP), que tem como objetivo resgatar “as raízes do movimento”. “Queremos incentivar o escotismo tradicional, com mais aventuras, desafios e companheirismo, que foi se perdendo com o tempo”, argumenta Rafael Silveira, um dos chefes. Para ele, essa pode ser uma forma de aumentar a procura pelo movimento na região: “Nosso processo de resgate entrou no caminho certo. Em julho de 2005, estávamos com apenas quatro integrantes juvenis e quase fechamos as portas. Agora, temos 70 e o objetivo é terminar 2008 com 90 membros”.

Daqui para frente, a idéia é divulgar o escotismo e incentivar mais afiliações. “Em 2007, fundamos o Rota do Sol e estão previstos outros dois para o ano que vem”, afirma Márcio Randig, diretor regional do programa para Santa Catarina. Já o Grupo Ronaldo Dutra pretende continuar atraindo jovens a partir da divulgação nas escolas e em outdoors. Além disso, aposta na participação efetiva em eventos comunitários, como o Dia Mundial do meio Ambiente e a campanha do agasalho: “Contribuir com essas atividades socialmente corretas fortalece a divulgação do nosso grupo”, afirma Rafael Silveira.

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