O OUTRO LADO Para quem ainda se lembra, o lado B dos velhos discos de vinil abrigava as canções especiais, menos conhecidas, mais alternativas, mais ao gosto do artista. O lado A, as gravadoras reservavam às candidatas a hits – as comercializáveis, ao jeito da maioria – e nem sempre, quase nunca, as preferidas do cantor ou compositor. Assim, o lado A punha o pão na mesa. O B alimentava a alma. Como na vida. Cultivar um “lado B”, dizem os especialistas, é vital para uma existência em plena harmonia. “Cuidar do corpo e do espírito faz bem para a saúde. Se a atividade física tornou-se uma forte aliada do equilíbrio biológico, a atividade alternativa, de diletantismo, é um remédio imbatível para outros dois grandes problemas dos tempos modernos, que são o estresse e a depressão”, entende o psiquiatra Ataíde Carlos do Nascimento, que costuma “receitar” a seus pacientes um tempo para se dedicar a algo de que realmente gostem. Parecido com o que faz o cantor e compositor Paulinho da Viola, que, entre shows, CDs e encontros musicais com parceiros, é exímio marceneiro e fabrica vários móveis de casa. Já o paulista Ataíde, que atua há 10 anos em Joinville, dá o exemplo: estuda violoncelo na Casa da Cultura. Seus colegas são bem mais jovens. “Mas essa relação também é absolutamente enriquecedora”, sorri. O médico socorre-se de uma frase do jornalista e escritor Arthur da Távola, “música é vida interior”, para refletir sobre a importância de se vivenciar também o nosso mundo mais interno, escondido, camuflado. Um reencontro com o que temos de melhor em nós, que é nossa sensibilidade, percepções de mundo, crenças, ideais e sonhos – coisas que, com freqüência, passam despercebidas em meio à batalha diária pela sobrevivência.
E é isso, manter a cabeça nas nuvens, sem abrir mão de seguir sonhando, com os pés no chão, que muita gente toma por ideal de vida. “Eu não saberia viver sem a música”, confessa o prototipista e estudante de Engenharia Samuel Del Moro, que, nas horas em que não está dando expediente na fábrica onde trabalha, dedica-se com afinco e prazer à sua paixão: tocar flauta transversa, sax e harmônica. Como interagem esses dois universos tão distintos? “Naturalmente”, responde o sorridente Samuca, centrado em crescer profissionalmente e também contaminado pelo vírus da música, que, acredita, nasceu com ele. “Em algum ponto de minha vida, esses dois mundos talvez se encontrem”, filosofa. Ou não, mas o importante é que ele exerce cada uma das atividades com dedicação e talento. “Tentar ser sempre o meu melhor faz parte de mim.” “A música é um sábado de sol”, compara o engenheiro Fábio Rivero, companheiro de Samuel na Banda “Fuzô da Gorda e Os Ossanes”, formada em 2003 e que, no final de 2007, decidiu “dar um tempo”, para se reestruturar em 2008. Tanto Fábio quanto Samuel trazem da família o amor e a vocação artística. O engenheiro, gaúcho de Uruguaiana, e Samuca, catarinense de Meleiro, participam de grandes encontros musicais sempre que visitam a família. “Quando toco, parece que entro em transe”, diz Samuel. “Em mim, o músico nasceu antes do engenheiro”, acrescenta Fábio. A banda, que já tem um bom repertório de composições próprias, planeja gravar um CD de inéditas. Do rock ao soul, de TNT e Rolling Stones a Tim Maia e Lenine, a Fuzô da Gorda reúne pessoas que têm na música, essencialmente, um referencial de prazer.
RACIONALISMO E CRIATIVIDADE Trajetória diferente percorreu o tecnólogo de materiais Cláudio Borges de Oliveira que, a despeito de sua formação, lida essencialmente com Engenharia, o dia todo. As noites, porém, são dedicadas à banda que integra e que tem repertório exclusivamente religioso. Católico, Cláudio buscou na música um jeito todo próprio de comungar com Deus. No reduto familiar direto, não encontra explicação para a vocação. Mas, desde os 16 anos, dedica-se ao violão e à guitarra. Aos 19, montou o primeiro grupo, a tradicional “banda de garagem” que logo começou a se apresentar em vários eventos, tendo aberto shows de grupos profissionais, como a Núcleo Sul. A convicção religiosa, porém, o levou à música gospel – de onde não pretende sair mais. Casado e pai de um casal de filhos (18 e 14 anos), Cláudio compõe seu repertório, além de executar as peças tradicionais do movimento católico jovem. “Cheguei a pensar em fazer faculdade de música, mas, como comecei a trabalhar cedo, tive que abdicar de meu sonho”, conta ele. O elo entre a música e a atividade na empresa – essencialmente racionalismo, lógica mesmo –, ele encontra na criatividade. “Ao contrário do que as pessoas pensam, música tem muito de racional, de cartesiano, até. É essa lógica que nos faz caminhar sempre na direção da criatividade, da inovação, das novas idéias”, garante. “É mesmo assim”, concorda o psiquiatra Ataíde, que vê na atividade artística um inevitável elo com a divindade que nos habita. “Uma forma de alimentar o espírito, que precisa de cuidados tanto quanto o corpo”, explica. O psiquiatra-músico é também atleta que treina religiosamente ao lado da mulher para correr, em 2008, a Maratona de Paris. Ataíde explica que estabelecer um objetivo, ainda que distante, ajuda a pessoa a se manter mobilizada e disciplinada em suas atividades extra-profissão. Tudo por uma vida mais saudável e plena. “Talvez seja por isso, para ter uma vida melhor, que eu busquei o teatro”, conta o analista de sistemas Adriano Medeiros, estudante de Comércio Exterior. Além do emprego formal – “que realiza e completa” –, ele hoje se dedica à contação de histórias. E acha que deveria ter começado mais cedo. Aos 35 anos, se confessa questionador de sua existência. “É engraçado como a gente, ao chegar à idade madura, percebe que usou o tempo todo para correr atrás da sobrevivência e deixou passar batidas coisas fundamentais”, reflete, ao explicar que ver sua filha fazendo teatro, ano e meio atrás, é que o alertou para a necessidade premente de mudança. Deu-se conta de que também queria o palco. “É claro que não pretendo ser ator profissional, mas essa experiência é fundamental para mim, porque está me mostrando que posso ser de outra maneira.” Interessado em contos indígenas, Adriano se dedica a conhecer melhor as diferentes etnias e comunidades indígenas que integram o DNA do brasileiro. “No teatro, a gente aprende a se olhar mais profundamente no espelho.” A VIDA É RADICAL “Um salto equivale a um mês sem estresse, literalmente nas nuvens”, atesta o professor de Literatura Nielson Modro, para quem o vinil precisaria ter mais que apenas dois lados. Ele já fez de tudo. Ou quase. Além de saltar de pára-quedas, sua atividade “alternativa” atual, praticou ciclismo, rafting, surfe, montanhismo, balonismo, escalada... Isso, só no departamento de esportes radicais. Porque o também estudante de Direito é uma infinidade de “lados B”, seja no que respeita à literatura, à música ou ao cinema. Propôs e ministra uma cadeira eletiva no curso de Letras, Cinema e Literatura, coordena o projeto de Extensão Cineducação – que incentiva e orienta professores a usar o cinema como ferramenta pedagógica...
Foi, também, Nielson Modro um dos colunistas pioneiros do caderno de cultura de A Notícia, o Anexo, onde escrevia sobre música – “rock, é claro!”. Tantas empreitadas não o subtraem do convívio com a mulher Graziela, a médica mineira que o acompanha em suas novas aventuras e viagens para destinos os mais diferenciados. De preferência, lugares de exuberante natureza. “O que faço é apenas tentar fugir do convencional – em tudo. Isso me oferece uma maneira divertida de trabalhar.” E de viver. Nas cadeiras práticas e teóricas do curso de Gastronomia da Univille, o técnico em Enfermagem Ismael José Lino também vive diferente. Vive sonhando. Quer, algum dia, fazer curso na França. Mas onde o profissional da saúde e o chef se cruzam? “Acho que é no ato de ‘cuidar das pessoas’”, responde Ismael, enquanto busca, em suas raízes, a origem da vocação para a boa cozinha. A mãe, mineira, cozinheira de mão-cheia, ensinou os primeiros segredos. O pai, baiano, temperou com alegria, e alguma pimenta, sua infância. É HORA DE VIRAR O DISCO? O futuro chef não descuida de sua rotina profissional no hospital. Funcionário da UTI, gosta do que faz e se sente realizado ao ajudar alguém a recuperar a vida e a saúde. Acha que é o mesmo amor o ingrediente que coloca na elaboração de suas receitas preferidas e o que dedica a alguém que precisa de seus cuidados e atenção. “Foi minha primeira escolha profissional, o que sempre me realizou”, garante. Mas Ismael não esconde que a culinária sofisticada pode ser seu próximo passo – “daqui a algum tempo, quando a vida me apontar esse novo caminho, quando eu já o tiver preparado”, entende. E, então, pode ser que ele decida mesmo virar o disco...
Este parece não ser o caso da bancária Denise Warnecke. Paulista de Osvaldo Cruz, ela escreve poesias desde criança. Porque também sempre leu muito. A família toda era voltada às letras, mas Denise não se esquece da tia paterna que, nos encontros familiares de final de ano, sempre declamava poesias – e desafiava os sobrinhos, então pequenos, a criar quadrinhas e poemas. Aos 11 anos, chegou a organizar um concurso entre a criançada. “Não ganhei, mas saí dele definitivamente apaixonada por poesia”, conta ela, que, em 2004, obteve o segundo lugar no Prêmio Joinville de Expressão Literária com o poema “Rastafari”, que escreveu sobre uma moça que viu na rua, em São Paulo. “Tudo é motivo de inspiração”, explica a poeta, que é psicóloga de formação e manteve um longo hiato em sua produção literária, enquanto os filhos cresciam. Mas, anos atrás, o professor de Literatura de uma das filhas conheceu seus escritos e a incentivou a continuar e a se inscrever em prêmios literários. Intensificou-se a literatura na vida da bancária, que agora sonha com o primeiro livro. Enquanto isso, participa do grupo de poetas Zaragata e de um grupo literário formado por funcionários do Banco do Brasil. Sempre que pode, freqüenta debates, encontros, concursos e já deu até palestra em escolas sobre produção literária. “Numa dessas ocasiões, um menino disse que não pensou que um poeta pudesse ser como eu, uma pessoa comum. Respondi que ninguém precisa se mostrar diferente para fazer a diferença.”
Como fizeram Denise, Modro, Fábio, Samuel, Adriano, Cláudio, Ismael e Ataíde, descobrir o “outro lado do vinil” é absolutamente saudável. “É um tempo que dedicamos a nosso crescimento interno”, reforça o psiquiatra Ataíde. Nem todo mundo é artista ou escritor, nem todos gostam de artes plásticas, nem todos cultivam diferentes vocações – mas todos temos uma riqueza interior a ser trabalhada e compartilhada. “Pode ser uma atividade voluntária, solidária, o importante é descobrir novas razões e estímulos que engrandeçam e deixem a vida mais colorida”, diz Ataíde. Ouvir e estimular o outro lado, de vez em quando, é combustível para viver melhor, porque a vida assume outras nuances, o estar vivo é recheado de novos significados. E você, já descobriu o seu lado B? NAVEGUE
AQUI Marca de eletrodomésticos Brastemp aproveitou o gancho do “lado B” em uma campanha publicitária. Clique aqui e entre no hot site da campanha, que incentiva as pessoas a enviar relatos ou imagens sobre o que fazem quando viram o disco. Visite o site do cantor, compositor e marceneiro Paulinho da Viola. Instrumentistas Andréa Dias e Tomás Improta lançaram CD “O melhor do lado B”, reunindo pérolas da música popular brasileira pouco conhecidas do público. Leia texto sobre o disco. O
jornalista Sérgio Augusto escreveu o livro “Lado B”,
uma coletânea de crônicas e ensaios. Leia
resenha do livro.
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