EXECUTIVO PhD
Presença de mestres e doutores no meio corporativo é tendência promissora, apesar da oferta restrita de cursos
O mantra da inovação, apontado como o caminho da competitividade por dez entre dez gurus empresariais, está abrindo a porta da fábrica para duas categorias que, até pouco tempo atrás, quase não eram vistas fora da universidade. Mestres e doutores são muito bem-vindos ao staff de grandes corporações, particularmente àquelas de fundo tecnológico. Com elevadíssimo grau de qualificação em ramos de conhecimento bastante específicos, viria do incentivo a esses profissionais a resposta ao dilema sobre como inovar em dose suficiente para derrubar a concorrência e não acabar superado. O governo federal anunciou que, até 2011, quer mestres e doutores em 11% das empresas brasileiras. Vai até patrocinar fatia considerável do dinheiro necessário para isso: um fundo lançado em 2007 promete R$ 60 milhões para bancar parte dos vencimentos a profissionais envolvidos em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Em Joinville,
contar com esses cérebros na equipe é privilégio
de poucos. Nome de referência em fundição de peças
automotivas, a Tupy
emprega cinco doutores (dois deles, recém-titulados) e 13 mestres
(outros sete fazendo curso). A Embraco,
que produz compressores para geladeiras, mantém três doutores
(outros dois em formação) e 39 mestres, além de dez
mestrandos. Desenvolvedora de softwares para gestão empresarial,
a Datasul soma
12 mestres. E os exemplos não vão muito mais longe. “Ainda
se tem a visão de que doutor pertence só à academia.
Nem na academia há doutores suficientes”, avalia Sandro Murilo
Santos, diretor da Sociesc,
uma das três instituições locais que promovem cursos
de pós-graduação stricto senso, patamar em que se
enquadram mestrados (existem seis em Joinville) e doutorados (não
há nenhum).
O incentivo das empresas Com o propósito de “incentivar a inovação que cause impacto nos produtos, processos e modelo de gestão”, a Datasul fornece bolsas de estudo aos empregados em todos os níveis acadêmicos. Na Tupy, o funcionário que cursa mestrado ou doutorado pode usar horas de expediente para freqüentar aulas e cumprir atividades didáticas. Eventualmente, obtém subsídio de até 50% das mensalidades, caso a instituição for particular. A lógica é de que o auxílio desencadeia um círculo virtuoso: “Ao buscar a titulação, o profissional se compromete com o conhecimento sólido e especializado, formando uma massa crítica capaz de identificar oportunidades para avanços em pesquisas e gerar novos conhecimentos”, reflete o doutor Luís Carlos Guedes, vice-presidente da Tupy, responsável pelas áreas industriais e de engenharias. Mestres e
doutores da Embraco estão agrupados em funções técnicas
e administrativas, como especialistas, pesquisadores e lideranças.
Ajuda de custo e 20% do tempo livre são benefícios reservados
a quem deseja ir atrás desses diplomas. Para a indústria,
o resultado decorre da capacitação. “As competências
de que precisamos são bastante específicas, relacionadas
ao nosso negócio. É difícil encontrá-las no
mercado”, pondera Reinaldo Maykot, gestor de Recursos de Engenharia.
Como contrapartida ao estímulo recebido, os funcionários
se debruçam em temas alinhados às atividades da indústria
para as teses e dissertações que garantirão o sonhado
título.
A experiência
de Fabiano Moccelin dá razão à consultora. Engenheiro
no setor de Desenvolvimento de Produtos e Qualidade da Tupy, Fabiano é
o novo doutor da companhia: defendeu tese em outubro de 2007. Seu curso
foi direcionado a uma das operações mais complexas para
o bom desempenho dos blocos de motores, chamada brunimento de cilindros.
“Uma área de conhecimento fundamental para a Tupy”,
conceitua. O engenheiro não tem dúvidas de que a abertura
das empresas aos profissionais com esse nível de graduação
é um processo de ganha-ganha: “Motiva as pessoas, que melhoram
significativamente sua capacitação, e contribui no desenvolvimento
de tecnologia por meio da formação de mão-de-obra
qualificada”.
Se a demanda
cresce, a oferta também deve crescer. Hoje, 2.600 programas e cursos
de pós-graduação espalhados pelo país –
quantidade 55% superior à de cinco anos atrás – titulam
35 mil mestres e 10 mil doutores por ano. A maioria se sai bem na foto.
Quase 10% dos programas avaliados em 2007 pelo Ministério da Educação
mereceram, em uma escala de 1 a 7, notas 6 e 7 – status equivalente
ao de renomados centros internacionais de ensino e pesquisa. Duas universidades
gaúchas e uma catarinense cravaram conceito 7: UFRGS, UFSM e UFSC,
esta última pelo curso de Química. Há bons programas,
há gente interessada, mas a maioria das opções ainda
se concentra nas metrópoles, obrigando os interessados de outras
regiões a afivelar as malas e pegar a estrada para ir à
aula, o que provoca transtornos óbvios.
O campus
da Udesc abriga dois outros mestrados, em Física e Engenharia Elétrica,
e a Sociesc aposta em Engenharia Mecânica. A pró-reitora
de pesquisa e pós-graduação da Univille, Sandra Furlan,
calcula que 70% dos programas disponíveis em Santa Catarina estejam
situados na capital. Ela atribui as dificuldades de expansão a
dois fatores: as exigências rigorosas da Capes para validar projetos
e o investimento necessário para criar cursos autônomos –
que nem sempre se viabilizam. “Sem o subsídio da universidade,
as mensalidades custariam o dobro”, cogita a pró-reitora.
Com quadro consolidado de mestres (53% dos professores) e doutores (13%),
a Univille planeja continuar desenvolvendo programas próprios e
acredita que a futura extensão da UFSC funcionará como impulso
para o incremento da oferta local. |