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Doutor executivo Salve o planeta Institucional

A UTOPIA
DO POSSÍVEL


Garantir a sustentabilidade deve ser bandeira para
todas as pessoas, não apenas empresas e governo

Pouco tempo atrás, afirmar que você pode salvar a Terra soava como papo de ecologista. Hoje, sabe-se que a pregação é verdadeira – guardadas as óbvias proporções e, lógico, sem tirar a responsabilidade de governos, empresas, ONGs, entre outras instâncias que também têm faturas a quitar em torno de um conceito relativamente novo: a sustentabilidade. A convicção de que a sustentabilidade começa e termina no cidadão comum (é, você!) vem sendo avalizada por teóricos de várias correntes, todos asseverando o papel central do cidadão nesse processo. “Mais pessoas e organizações passam a entender que o futuro do planeta encontra-se, literalmente, em nossas mãos”, respira aliviado o professor Júlio Bin, superintendente da área de Produtos para Sustentabilidade do Banco Real ABN AMRO e fundador da Gecko Consultoria.

Há dois anos, Bin freqüentava o clube dos apocalípticos e, ele admite, pronunciava um discurso “alienígena” quando tratava do assunto. Desde então, viu o movimento pela sustentabilidade ganhar músculos, a partir da percepção generalizada de que, do jeito que está, o mundo não pode ficar. Disseminou-se, enquanto isso, uma noção mais larga do conceito, que transcende a preservação ambiental e abraça dois aspectos igualmente vitais: crescimento econômico e desenvolvimento social. A complexa harmonia dos três fatores seria a solução para evitar que se concretizem prognósticos sombrios como o esgotamento dos recursos naturais e o acirramento da miséria – que, por tabela, tornariam insustentável a existência.

O empresário Ingo Doubrawa, da Docol: "Sustentabilidade
está embasada no uso racional da água"

Compreender o vínculo entre as singelas atitudes cotidianas de cada um e as perspectivas, boas ou ruins, que se desenharem para o planeta, é a síntese da transformação social identificada pelo professor Bin como embrião de uma nova matriz de sustentabilidade. “Nós, profissionais, donas-de-casa, estudantes, cidadãos comuns, devemos agir neste momento para que nossos filhos e netos possam ter as mesmas condições e qualidade de vida nas próximas gerações”, defende. Resultados palpáveis vão demorar. “Uma grande mudança de hábito ainda será necessária para que o caminho da sustentabilidade não tenha mais volta”, reforça o consultor. “Mas não podemos desistir. Até porque a frustração gera a inércia – e, assim, acabamos por deixar que outros privilegiados ou influentes façam alguma coisa.”

Teoria X prática

Problema é que, na teoria, as pessoas adquirem a consciência, só que ela custa a virar prática. Pesquisa do Ibope reuniu exemplos desse distanciamento. Para 92% dos entrevistados, separar o lixo destinado à reciclagem é obrigação social – porém, apenas 30% fazem isso em casa. Metade da população afirma, sem pensar duas vezes, que abandonaria sua marca preferida se o fabricante cometesse atos socialmente incorretos, e 68% classifica a pirataria como crime. Paradoxalmente, não passa de 21% a parcela que jamais comprou artigos do gênero. O lado bom do levantamento foi indicar que o debate em torno da sustentabilidade se espalha de maneira consistente: 79% dos executivos e 55% dos cidadãos já ouviram falar no assunto.

Se você é um deles, saiba que ética, cidadania, respeito humano, educação, saúde, segurança, distribuição econômica justa e uso racional do meio ambiente cabem na acepção contemporânea da sustentabilidade. Discutido com maior rigor desde o fim dos anos 80, o perigo da devastação, causada pela exploração predatória e pelo desperdício absurdo dos recursos naturais, reduziu esse conceito ao ângulo ambiental, que é, sim, parte essencial de um planeta saudável, mas demanda preocupações adicionais. “Sustentabilidade é pensar no futuro”, resume a consultora Marilise Einsfeldt, da Lauster Responsabilidade Social Corporativa. Tem a ver com o desenvolvimento de tecnologias limpas pela indústria, com a concepção de prédios que empreguem melhor a luz natural, com o correto destino aos resíduos dos processos fabris e, também, com um punhado de coisas que estão ao alcance de todos, no dia-a-dia.

A consultora Marilise defende: “Tudo o
que você fizer agora, fará por você mesmo”

Para quem topa encarar o desafio, Marilise enfileira sugestões:

• Reúna a família e bata um papinho sobre o seu consumo, como fazem as compras, com que critério escolhem os gêneros que adquirem (comida, combustível, roupas, diversão, livros...).

• Informe-se e oriente seus filhos, empregada, jardineiro sobre o descarte de lixo. Onde colocar, como separar, se as cascas podem servir de adubo no quintal ou se dá para jogar fora, o que reaproveitar etc. Separe papéis, revistas, jornais, garrafas pet, recipientes de vidro e outros materiais recicláveis.

• Aproveitando a assembléia familiar, conversem sobre o uso de água e energia elétrica. Confiram o consumo médio, verifiquem se a conta pode diminuir e, quem sabe, escolham o que fazer com o dinheiro que sobrar. O “lucro” pode servir para diversão, como uma noitada de pizza coletiva.

• Tomem decisões em conjunto sobre o futuro. Exemplo: se a família pretende construir uma casa, estudem como ela pode ser sustentável. Soluções para otimizar o uso da luz do sol, da água da chuva... Se os jovens estão economizando para bancar seus estudos, conversem sobre as novas profissões e a necessidade de tecnologias sintonizadas com a vida moderna.

• Como regra, procure estar atento ao que acontece à sua volta. Ações danosas ao meio ambiente devem ser denunciadas. Bons exemplos de utilização de alimentos e reciclagem de lixo podem ser copiados e divulgados.

“Lembre-se de que somos parte de uma comunidade: a forma como agirmos se refletirá em nós mesmos”, aconselha a consultora. “E tenha em mente que isso é para seu bem. Não se trata de pensar na sustentabilidade de uma grande empresa, de um Estado ou de um país distante. Trata-se de entender que o que eu fizer agora, farei por mim mesmo, por minha empresa, minha família, minha cidade.” Com a mesma visão holística, o educador ambiental Guilherme Bajesteiro, do Instituto Harmonia da Terra, defende o que chama de “sustentabilidade multidimensional”, integrando o equilíbrio ecológico, a igualdade social, o respeito e a valorização das diferenças, a democracia participativa, a economia solidária, a ética planetária.

Para ele, este ainda não é um tema central na sociedade – “a discussão se limita às esferas ambientais e acadêmicas” –, mas conquista espaço conforme se acirra a crise socioambiental. No campo da prática individual, o educador reparte as medidas viáveis em duas vertentes. A primeira: repense seu consumo, percebendo o que realmente precisa para viver. “Pergunte-se como diminuir seu impacto pessoal”, recomenda Bajesteiro. Algumas respostas são simples: substituir as sacolas plásticas por sacolas de pano ou caixas de papelão, consumir menos carne, locomover-se de bicicleta e a pé, manter uma horta, não utilizar madeira vinda da Amazônia que não seja certificada, privilegiar produtos locais e de cooperativas etc. etc.

Em seguida, repense seu envolvimento, consciente de que, sem dúvida, o problema é seu. Que tal participar efetivamente da política local, envolver-se com as questões que afligem a comunidade, prestar serviços voluntários? Ou plantar árvores, cultivar pensamentos generosos, incorporar valores como cooperação, solidariedade, simplicidade, e por aí vai? Em Santa Catarina, empresas e ONGs realizam projetos bacanas que propagam esse novo viés da sustentabilidade. O Instituto Harmonia da Terra, sediado em Paulo Lopes, trabalha na formação de professores, com a produção e distribuição de materiais pedagógicos. “Buscamos sensibilizá-los para que o discurso esteja mais próximo da prática”, afirma o dirigente.

“CONSCIÊNCIA NÃO SE
ALCANÇA POR DECRETO”

Diretora da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, a engenheira florestal Maria de Lourdes Nunes (foto abaixo) dedica-se ao fortalecimento do setor conservacionista, à sensibilização e à mobilização da sociedade brasileira sobre a importância de preservar o patrimônio natural. Nesta entrevista à Revista Döhler, ela adverte que não se adquire “por decreto” a consciência necessária para a sustentabilidade – esse é, necessariamente, um processo de longo prazo.


Qual a sua visão sobre sustentabilidade?


A sustentabilidade se relaciona com a perenidade de uma instituição ou ação em todos os seus aspectos. A organização que almeja a sustentabilidade deve transitar entre os focos econômico, ambiental e social, com a mesma energia e cuidado. Um desafio é o modelo econômico atual, que não incorpora facilmente a sustentabilidade. É necessário rever conceitos, formas de atuação e resultados. O lucro não deve mais ser “a qualquer preço”, porque já se percebeu que é um valor muito alto para a sociedade e para o meio ambiente.

Esse debate já alcançou as diferentes camadas da sociedade?

Não só não alcançou como ainda não se converteu em movimento ou discussão mais aprofundada. Por enquanto, a sustentabilidade é discutida superficialmente, num estágio inicial que mais serviu para “renovar” os termos “responsabilidade social” ou “desenvolvimento sustentável”. Muitos dos desafios e utopias dos dois movimentos permanecem na discussão e prática da sustentabilidade.

Qual a sustentabilidade de que precisamos?

Em primeiro lugar, a sustentabilidade comprometida com a ética.

Esta discussão não está muito restrita ao aspecto ambiental?

É um risco termos projetos e ações pontuais que não causarão as mudanças necessárias no cenário de degradação. O mesmo desafio que vivemos com a responsabilidade social que, muitas vezes, foi entendida pelas empresas como um chamado à realização ou ao apoio a ações sociais externas, e não como uma nova abordagem para os negócios no dia-a-dia. Podemos falar de sustentabilidade de ações, empresas e até do planeta. Como não é viável conseguir essa consciência por decreto, o mercado e a sociedade devem usar seu poder para avaliar e rejeitar ações e discursos vazios e incentivar e exigir iniciativas concretas, que tragam as mudanças e os benefícios necessários ao planeta.

Educação é a chave

Nascida em Joinville, outra iniciativa focada na educação foi batizada de Água Nossa. Idealizado pela indústria Docol, com parceria da Tigre, o programa da ONG Água e Cidade capacita professores e educa crianças de 5ª série para o uso e a preservação dos recursos hídricos. Em dez anos, quase 500 escolas de municípios do Espírito Santo, Pernambuco, Paraná e São Paulo, além de uma cidade da Costa Rica, realizaram cursos de 20 horas que motivam os participantes a atuar como multiplicadores junto à comunidade. Outra fase do trabalho, iniciada em março de 2007 com o lançamento do portal www.aguanaescola.org.br, beneficiou 37 mil estudantes de nove estados, que receberam jogos com seis revistas didáticas apresentando orientações gerais em linguagem simples e de fácil assimilação.

Turma de alunos recebe cartilhas educativas: programa
"Água e Cidade" já beneficiou 37 mil jovens

“A água é um dos insumos mais importantes para a sobrevivência da humanidade. E a sustentabilidade está embasada no seu uso racional, a fim de que as gerações futuras possam desfrutar desse insumo”, sublinha Ingo Doubrawa, diretor-presidente da Docol. O empresário aposta na educação como ferramenta para difundir a cultura da sustentabilidade. Ele defende que o tema seja inserido na grade curricular das escolas, como matéria obrigatória, até o ensino médio. “Ao ensinarmos, desde cedo, que as crianças fazem parte da preservação da Natureza, elas poderão reproduzir esse conceito na família e na vizinhança”, argumenta Doubrawa.

Há anos na área ambiental da indústria, o engenheiro mecânico Paulo Vodianitskaia preocupa-se com a “cacofonia global” a que assiste nas conferências internacionais sobre sustentabilidade, o que dificultaria a tradução desse princípio em medidas práticas. “Estamos caminhando para a boca de um funil: há cada vez mais gente e cada vez menos recursos naturais disponíveis. Precisaremos de criatividade para abrir o funil”, reforça o especialista, alertando que o processo pode ser doloroso, com uma “mudança radical” nos padrões de consumo e até no perfil das cidades – que se tornarão “mais dependentes do seu entorno do que de frutas vindas de avião da Nova Zelândia”, por exemplo. Ele enxerga um movimento dedicado ao “contágio positivo” de hábitos sustentáveis, capitaneado por organizações como os institutos Ethos e Akatu. “Mas a velocidade do contágio é baixa. A dúvida é: dará tempo para evitar o pior?” Antes de perder o sono com a indagação do engenheiro, o negócio é trabalhar pesado para que a resposta seja positiva.

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