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PLATÉIA
SELETA
Público
que freqüenta salas comerciais em Joinville
diminui, mas crescem espaços alternativos e
surgem iniciativas de apoio à arte
“Já
precisei suspender sessões por falta de público”,
confessa a voz tranqüila de Raquel Regina Bento, gerente do Cine
Cidade, do grupo Arco-Íris, em Joinville. Sem citar números,
Raquel reconhece que sua platéia fica a cada dia menor. “Fazemos
promoções, sessões especiais para escolas, nos
aproximamos da comunidade, mas acho que é uma questão
de perfil da cidade, que não consome cultura”, lamenta
a gerente. Raquel está
há mais de oito anos no Arco-Íris e diz que nunca vivenciou
uma fase de público tão acanhado quanto a atual. “Nada
obedece à lógica. Se há cada vez mais e melhores
filmes, o público deveria crescer, aprendendo a apreciar cinema",
acredita. Ela não entende a razão por trás das
platéias
minguadas, embora aponte os filmes em DVD, sobretudo a pirataria, como “inimigos”.
“É incrível: há poucos anos, via as salas
lotadas nas estréias e sempre bem freqüentadas, mesmo durante
a semana. Hoje, a situação mudou radicalmente.”
O ingresso é salgado? “Não acho caro, comparado a
outros centros. E aqui em Joinville temos preços menores.”
Então, os filmes não agradam... “Não diria
isso. Temos procurado acompanhar os lançamentos nacionais.”
Mas, afinal, por que o público diminui? Uma pergunta que aflige
não apenas os exibidores de Joinville, com suas cinco salas para
500 mil habitantes. No país, segundo a Agência Nacional de
Cinema (Ancine),
o público encurtou de 91,2 milhões em 2006 para 88,5 milhões
em 2007 – quase 3 milhões de pessoas desapareceram das 2.200
salas brasileiras. Mesmo assim, a Ancine aposta que a elevação
dos investimentos no cinema nacional ainda vai se refletir no número
de poltronas ocupadas nas sessões. Tomara.
ESPAÇO JÁ FOI MAIOR
Joinville teve um prestigiado cinema de rua. O Palácio, inaugurado
em 1918 e que em meados dos anos 90 virou igreja, foi concebido e erguido
em estilo neoclássico, e por anos a fio reuniu jovens e adultos
em alegres tardes de domingo. Chamava-se primeiramente Palácio
Theatro, depois Teatro Nicodemus, e adiante foi batizado apenas de
Palácio.
A cidade acolheu também os cines Colon e Chaplin – este último,
um cineclube especializado no cult movie, idealizado por um grupo de
cinéfilos,
entre eles o jornalista Luís Meneghim e o escritor Germano Jacobs,
já falecido. Gradualmente, as nobres construções
foram cedendo lugar às salas instaladas em shopping-centers –
mas, há poucos anos, duas delas, da rede Arco-Iris, instaladas
no Shopping Americanas, cerraram as portas por falta de público.
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Exibição
do “Salve o Cinema”, programa mantido
pela Univille: acesso a filmes de fora do circuitão |
O mais novo cineasta joinvilense, Rodrigo Brum, publicitário que
ganhou merecida notoriedade pela qualidade do curta que realizou, "Sob
o Céu de Joinville", reclama da escassez de salas e da programação
rarefeita. (clique aqui para ler a entrevista,
na íntegra). "A infra-estrutura de algumas é excelente,
mas elas pecam exibindo poucos filmes por longos períodos. Às
vezes, um mesmo filme entra simultaneamente em três das cinco salas
existentes, por quase um mês. Tudo bem que a exibição
é um negócio e precisa ser rentável, mas acredito
que exista uma demanda por uma programação diferenciada
que não é atendida." Rodrigo diz que parece comodismo
dos exibidores e lastima que a excelente safra de filmes nacionais não
tem chegado por aqui.
Ele aponta a alternativa dos cineclubes para quem quer filmes diferenciados.
O problema, aí, é o contrário, a falta de infra-estrutura
para as pessoas desfrutarem de bons trabalhos como mereceriam. "Já
vi bons filmes comprometidos por uma exibição ruim",
lamenta Rodrigo. O professor Silnei Soares, que coordena o Clube de Cinema
do Bom Jesus/Ielusc, sabe do que o cineasta está falando. Tanto
que aguarda com ansiedade a anunciada reforma no anfiteatro da escola,
para oferecer aos freqüentadores mais qualidade de exibição.
Nascido por iniciativa dos alunos de Comunicação, o Clube
estreou na metade do ano passado e tem reunido de 30 a 40 jovens espectadores,
todo santo sábado. "A idéia não é exibir
os filmes consagrados pela indústria. Queremos coisas diferentes,
optamos por selecionar uma programação temática e
utilizar o cinema para discutir a estética e a comunicabilidade
da linguagem visual, suas relações com outras artes e ciências
e suas percepções", explica.
Na grade do Clube, aberto à comunidade, filmes renomados e aplaudidos
pela crítica especializada, mas nem sempre pela indústria,
exibidos em ciclos temáticos, como o de filmes em preto-e-branco
ou nos quais a exuberância da cor é a referência. Eles
também assistem às produções
acadêmicas. Alunos de Jornalismo e Publicidade que começam
a produzir cinema – curtas e documentários – fazem
ali sua pré-estréia. O próprio Rodrigo, que se formou
na instituição, mostrou "Sob o Céu de Joinville"
no Clube do Ielusc antes da exibição oficial, no Juarez
Machado.
FALTA INCENTIVO
O grupo de cinéfilos se propõe, também, a elaborar,
por conta própria, as resenhas dos filmes. Reunidos em um blog
exclusivo, disponibilizam ali a programação e todo o material
possível sobre o que será exibido. Vai pelo mesmo caminho
outro grupo de amantes do cinema, criado na Univille e vinculado ao Proler
– Programa de Incentivo à Leitura, da Biblioteca Nacional.
O pernambucano Fábio Henrique Nunes idealizou e coordena o "Salve
o Cinema" desde os tempos em que estudava Letras. Hoje, professor,
permanece à frente do projeto que teve um livro editado, reunindo
resenhas e comentários dos ciclos inaugurados em 2004. Exibidos
à noite, na última quarta-feira do mês, os filmes
reúnem um grupo fiel, que discute os aspectos estéticos
e de linguagem, o conteúdo e a forma da obra. A idéia é
proporcionar um espaço para debater o cinema de arte e propiciar
o encontro entre os cinéfilos, além de possibilitar o acesso
aos filmes que estão fora do eixo comercial, quase sempre por ser
obras de temática polêmica. "Muitas vezes, são
filmes que remetem à podridão social, tocando nas feridas
da sociedade", explica Fábio.
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Silnei
coordena o Clube de Cinema do Ielusc:
para discutir a estética da linguagem visual |
Proposta
semelhante é a da Fundação Cultural de Joinville
(FCJ) com seus ciclos de cinema, todas as sextas e sábados, na
Cidadela Cultural Antarctica, com entrada franca. O projeto existe desde
2001 e foi iniciativa do crítico, advogado, jornalista e escritor
Germano Jacobs. Em outra frente, a cidade ganhou uma entidade para congregar
os cineastas: a Acinej, Associação de Cinema de Joinville
e Região. Mas, enquanto alguns fomentam a discussão sobre
o que é, afinal, o cinema – arte ou indústria? –,
o professor de Literatura Nielson Modro aposta que não é
apenas uma coisa ou outra. É também educação.
Uma ferramenta didático-pedagógica que pode se relacionar
com outras disciplinas, produzindo informações e possibilidades
de estudo das mais variadas áreas do conhecimento. A idéia
surgiu em 2003, durante as aulas da disciplina de Literatura e Cinema,
que Modro lecionava. "Queríamos oferecer alternativas de utilização
da linguagem cinematográfica em sala de aula", conta o professor,
que teve a ajuda de alunos para materializar a idéia. Nasceu, então,
o Cineducação, portal que, só em 2006, somou mais
de 7 mil acessos.
A iniciativa rendeu a publicação de três livros com
dicas e resenhas de filmes para projeção em sala de aula.
"Os filmes permitem dezenas de possibilidades: interpretação
de suas imagens, a própria fotografia, os diálogos, a reconstrução
de períodos históricos, a ficcionalização,
as relações sociais etc. Saber ‘ler’ e utilizar
essa linguagem ampla é ter em mãos uma ferramenta poderosíssima",
pontua Modro. Com espectadores escassos nas salas de exibição,
o cinema vai à escola. Bom recomeço.
SÓ
NO SITE
"FALTA OUSADIA
DOS EXIBIDORES"
Publicitário
e cineasta Rodrigo Falk Brum, diretor
de "Sob o Céu de
Joinville", lamenta que a programação das salas locais é
pouco variada
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Costumas ir ao cinema? Que tipo de filmes
freqüenta?
Vou sempre que possível. Dou preferência aos filmes
para os quais julgo indispensável a "telona", para
aproveitá-los por inteiro. São aqueles em que a fotografia
demonstra ter sido meticulosamente pensada para a sala escura. Mas
também não deixo de ver alguns "blockbusters"
como entretenimento de fim-de-semana.
Joinville oferece um bom espaço para o cinema –
espaço físico, com boas salas e programação
atraente, e espaço cultural, com programações
específicas, incentivo às produções
locais, debates e cineclubes?
Temos poucas salas de cinema e uma programação
pouco variada. A infra-estrutura de algumas salas é excelente,
mas pecam exibindo poucos filmes por longos períodos. Às
vezes, um mesmo filme chega a ser exibido simultaneamente em três
das cinco salas existentes, por quase um mês. Tudo bem que
a exibição é um negócio e precisa ser
rentável, mas acredito que exista uma demanda por uma programação
diferenciada que não é atendida. Ninguém pode
afirmar que o que está aí é que as pessoas
querem ver, já que não se faz pesquisa de mercado
sobre programação. Não aqui, não que
eu saiba. Parece falta de ousadia e comodismo dos exibidores. Por
exemplo, nos últimos anos têm se produzido centenas
de bons filmes brasileiros, com produção impecável.
Mas a grande maioria destes tem pouco, ou nenhum, espaço
na programação daqui. Vamos aos clubes de cinema e
afins. Acho nobre a iniciativa de seus realizadores, mas em geral
os clubes têm sérios problemas de infra-estrutura:
projeção improvisada e o som, nem se fala. Isso desestimula
o comparecimento do público e prejudica, e muito, os filmes
exibidos. Já vi bons filmes comprometidos por uma exibição
ruim. É uma pena, pois afasta o público e causa impressões
erradas sobre essas obras. Sobre o incentivo à produção
local, estamos apenas começando, mas no caminho certo. O
Edital de Apoio às Artes e o Mecenato Municipal de Incentivo
à Cultura são iniciativas louváveis do poder
público municipal. Até onde sei poucas cidades no
Brasil contam com esse tipo de incentivo. Todavia, se quisermos
crescer no mercado cinematográfico, precisamos de leis dedicadas
ao cinema, em função de seus altos custos de produção,
e também o apoio da iniciativa privada, através de
patrocínio direito, a exemplo do que é feito no esporte.
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O que tua experiência tão bacana
com "Sob o Céu de Joinville" te trouxe de melhor?
E de pior?
De pior, não trouxe nada. A primeira coisa boa foi descobrir
que o público joinvilense se interessa, sim, pelas produções
locais e por formas diferentes de se produzir cultura e fazer cinema.
Por se tratar de um filme sem diálogos, no início
tive certo receio quanto à aceitação do público.
Mas a resposta tem sido surpreendentemente positiva! Estamos felizes
com isso! Outra coisa legal é ver como o filme tem servido
de referência para debates e a influência positiva que
exerce na auto-estima dos cidadãos. Vê-lo fazer parte
da seleção oficial de alguns festivais de cinema pelo
Brasil também nos enche de orgulho. Mostra que é possível
produzir uma obra regional de qualidade e aceitação
nacional. Também é muito bacana ver o amor e o empenho
que todos os envolvidos empregaram na produção. Todos
abraçaram a idéia e deram o melhor de si. Sou imensamente
grato à parceria dessas pessoas e o sucesso do filme (na
foto acima, a sessão de estréia) é resultado
desse esforço coletivo. Por fim, é gratificante ouvir
de algumas crianças, após a exibição
do filme, que quando crescerem gostariam de fazer cinema. Dá
a sensação de dever cumprido, de ter plantado uma
semente. Isso faz valer a pena!
O que estás fazendo atualmente em
cinema?
Recentemente inscrevi dois projetos no Mecenato Municipal, para
a produção de dois curtas de ficção
com histórias que se passam em Joinville. Se aprovados, a
idéia é montar uma grande equipe mista, composta por
vários profissionais daqui e alguns de São Paulo,
transformando o set numa grande "escola". Isso para que
os joinvilenses alcancem aprimoramento técnico na troca de
conhecimento com essas pessoas, que têm experiência
em produções nacionais e internacionais. Também
estou trabalhando no roteiro para uma continuação
de "Sob o Céu de Joinville" e terminando minha
especialização em cinema. Pra fechar, estou assistindo
a muitos filmes.
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RANKING
DAS SALAS
Número de salas de exibição que as duas empresas
que operam em Joinville têm na Região Sul,
considerando cidades próximas
ou
comparáveis
a Joinville |
GNC |
ARCO-ÍRIS |
Joinville
– 3 salas
Balneário Camboriú – 5 salas
Blumenau – 6 salas
Caxias do Sul – 6 salas
Novo Hamburgo – 5 salas |
Joinville
– 2 salas
Florianópolis – 3 salas
Balneário Camboriú – 2 salas
Chapecó – 2 salas
Criciúma – 2 salas
Itajaí – 2 salas |
Nem
adianta se empolgar muito com o noticiário de que a oferta
local vá crescer em breve. Lúcia
Cuervo, diretora de marketing da GNC Cinemas, em Porto Alegre,
afirma
que ainda não há nada definido sobre a instalação
de mais 10 salas da empresa em Joinville, por conta de um novo
shopping,
que seria inaugurado no ano que vem. Ela admite que o público
encolheu, mas entende que o problema não se restringe ao
país. “É um fenômeno mundial, acusado,
inclusive pela indústria cinematográfica”,
pondera.
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NAVEGUE
AQUI
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Conheça
o site do filme “Sob o Céu de Joinville” e assista
ao curta-metragem de Rodrigo Brum.
Visite
o site da Ancine.
Saiba mais
sobre o projeto Cineducação.
Visite
o blog do Clube de Cinema do Ielusc.
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