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PARTITURAS
EMPOEIRADAS
Sem um grande teatro, Joinville quer música
erudita de volta, mas tem poucas iniciativas
“Os
sessenta músicos da Orquestra Filarmônica Harmonia-Lyra,
de Joinville, viveram momentos de grande consagração
ao se apresentarem no Teatro Nacional de Brasília,
na quarta-feira passada. Atrás de cada um dos instrumentos,
no entanto, não
havia músicos profissionais, mas sim donas-de-casa, médicos,
dentistas e comerciantes.”
Revista IstoÉ Senhor, edição de 4 de dezembro
de 1985. |
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Tempos áureos
da antiga orquestra, em 1968, no palco da
Harmonia-Lyra: maioria
dos integrantes era de amadores |
Para
a Sala
Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília, era um espetáculo
normal. Para os músicos, a maioria amadores, era um sonho
realizado. Para o maestro húngaro Tibor Reisner, um desafio.
Para Joinville, o auge de um projeto que contava mais de 86 anos.
Um grupo musical composto
por cidadãos joinvilenses conquistava a capital federal. Passados
23 anos da consagração, a glória permaneceu no
passado. A orquestra desapareceu. Tibor Reisner também ficou
na memória:
morreu em 1999, vítima de tumor cerebral.
O que há, para os amantes da música clássica se apegarem,
são projetos que desejam ressuscitar a Joinville que vibrava culturalmente
até meados da década de 80. Para tanto, integrantes da
Fundação Cultural (FCJ), músicos, produtores
e “musicaholics” se mobilizam em torno de duas perspectivas
que, se viabilizadas, serviriam como sopro de vida na música erudita
joinvilense. A primeira seria a de recriar a Orquestra de Joinville, por
meio da Fundação Musical Harmonia-Lyra (Fundhaly). A segunda,
remontar a opereta “Yara”, escrita pelo maestro austríaco
Pepi Prantl e interpretada pela primeira vez em Joinville em 1936.
A única proposta concreta para trazer a orquestra novamente à
ativa foi formulada pelo músico Alex
Klein, oboísta e professor radicado nos Estados Unidos. Alex
queria montar aqui a melhor orquestra do Brasil. Na época, por
volta de 2005, o orçamento total girava em torno de R$ 12 milhões,
dinheiro que seria obtido com patrocínios de estatais (como
a Petrobras) e por meio de leis de incentivo à cultura. Boa
parte dos músicos
seria de fora de Joinville. E, como a cidade não conta com um
teatro de grandes proporções (o Juarez Machado é classificado
como sala de espetáculos, e não tem fosso para orquestra),
dificilmente a orquestra se apresentaria na sua terra natal.
“Não topei”, revela Ivo Birckholz, que era o diretor-presidente
da Fundhaly, instituição que receberia os recursos, “porque
esse projeto não contempla as necessidades de Joinville, embora
a cidade precise de uma orquestra”. Mesmo assim, a comissão
formada por Alex e representantes da FCJ e da Fundhaly formulou, em junho
de 2006, uma proposta para concorrer ao incentivo do Funcultural, do governo
do Estado, proposta que não chegou a ser enviada.
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Ivo
Birckholz critica projeto apresentado, mas entende
que Joinville precisa, sim, de uma orquestra |
ALTAS
CIFRAS
Só o primeiro pontapé da “Orquestra Filarmônica
Harmonia-Lyra de Joinville” precisava de cerca de R$ 200 mil. Com
a verba, seria possível contratar a equipe (dois maestros, um consultor,
um secretário e um contador, além de assessoria jurídica),
fazer a divulgação, comprar equipamentos e prospectar apresentações
regionais. Ivo assinou a proposta, a contragosto: “Quero uma orquestra
de profissionais, não só para clássicos, mas também
música brasileira e popular de qualidade, com um maestro que more
em Joinville e viva a cidade”. E completa: “O maestro tem
de ser um arranjador competente como era o Tibor. Aliás, nunca
houve em Joinville alguém tão bom quanto o Tibor”.
Alex Klein, oboísta da Orquestra de Chicago, mora por lá.
No fim das contas, tudo ficou na vontade.
O vácuo da música de orquestra em Joinville é percebido
por todas as pessoas que viveram áureos momentos dessa expressão
de cultura e arte nos salões da Sociedade Harmonia-Lyra, onde ocorria
boa parte das apresentações. “Trouxemos o maestro
Isaac Karabtchevsky em 1975, e a gravação que eu fiz daquele
concerto da Orquestra da Harmonia-Lyra fez parte da trilha sonora da novela
‘Bravo!’, da Rede Globo”, relembra Ivo. Hoje, alguns
dos instrumentos provenientes de uma doação da Fundação
Banco do Brasil (o presidente do banco na época era o joinvilense
Oswaldo Colin) estão numa sala que a Fundhaly tem no Centreventos.
A outra parte foi cedida para a Escola de Música Villa-Lobos. Para
voltar aos tempos áureos, só ouvindo as gravações
guardadas na sala de Ivo Birckholz, registros de que um dia Joinville
já teve uma grande orquestra.
SEM
PALCO, ÓPERA SERÁ REMONTADA
Uma índia criada por um casal alemão, chamada Yara, foge
de casa depois do suicídio do irmão de criação,
apaixonado por ela. Na fuga, enamora-se de Rolf, garimpeiro alemão
que também se encanta por ela. O homem matara o amante da noiva,
Maia, na Alemanha. Maia e seu pai encontram Yara e Rolf. Para vingar
a
filha, o pai de Maia dispara contra Rolf, mas acerta em Yara, que saltou
à frente do amado. É a trama de uma legítima opereta
joinvilense, chamada “Yara”, escrita pelo maestro Pepi Prantl
e apresentada pela primeira vez em 1936, na Sociedade Harmonia-Lyra.
Fora
outra apresentação no mesmo tablado, e duas em Curitiba,
“Yara” nunca mais subiu ao palco. A FCJ firmou parceria com
a produtora Pró-Música,
de Florianópolis, para remontar a opereta e fazê-la excursionar
por Santa Catarina. “Já enviamos o projeto com orçamento
para o Fundo Estadual de Fomento à Cultura [Funcultural],
e esperamos ter condições para apresentar em 2009”,
conjectura Germano Busch, coordenador de marketing e projetos da
FCJ.
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O
músico Ananias leciona violão e trabalha (de
graça)
pela formação de público, apresentando-se para crianças |
Em dezembro
de 1929, Pepi Prantl atuou pela primeira vez como regente da Orquestra
da Harmonia-Lyra. Foi em 17 de janeiro de 1936 que a obra estreou, sob
regência e coordenação do maestro, com músicos
da orquestra, reforçados por instrumentistas da Filarmônica
de Curitiba e da banda do 13º Batalhão de Caçadores.
Em seguida, Pepi retornou à Europa para negociar apresentações
de “Yara“ por lá, com os originais. Mas a Segunda Guerra
Mundial eclodiu e o maestro nunca mais voltou.
Daí em diante, ninguém no Brasil sabia onde estavam as partituras
originais. Coube à escritora Regina Colin embarcar para a Alemanha
em busca das relíquias. Regina incumbiu o maestro alemão
Thomas Hennig de procurar os textos. Na Páscoa de 2002, ele ligou
dizendo que havia encontrado os originais num arquivo na Áustria.
Thomas pediu autorização ao único filho de Pepi,
Wolframm Prantl, microfilmou as partituras manuscritas, levou os filmes
para Berlim e reescreveu a opereta.
“Perguntei a muitos maestros europeus se compensaria investir tempo
remontando ‘Yara’. Eles disseram que a peça tem muito
valor, é uma boa expressão do fim do Romantismo”,
comemora Regina. “O passo seguinte foi criar uma comissão
para a remontagem da peça”, explica a gerente de incentivo
e difusão cultural da FCJ, Margit Olsen. Segundo Neyde Coelho,
diretora-geral de produção das óperas da Pró-Música,
não há mais tempo para deixar “Yara” apresentável
em 2008. “Só conseguiremos aprontá-la para 2009”.
Para ela, vale a pena esperar: “É uma peça romântica
muito bonita”.
FCJ e Pró-Música querem que “Yara” excursione
por Florianópolis e Jaraguá do Sul, talvez Lages. Tudo depende
do valor a ser liberado pelo Funcultural e das condições
dos ambientes de apresentação. Quanto aos espaços,
por enquanto, a situação não é animadora.
“Em Joinville não podemos apresentar, porque não há
local apropriado”, lamenta Regina. “Em Florianópolis,
esperávamos apresentar no Teatro Pedro Ivo Campos, porém,
ele não está pronto”, diz Neyde.
HÁ
BOAS PERSPECTIVAS
Não adianta Joinville remontar sua ópera e criar uma orquestra
se não tiver chances para o músico da cidade se destacar
nesse contexto e público apto a apreciar essa carga de cultura.
Pela escassez de espetáculos, locais de apresentação
e orquestras, o espaço para o músico erudito e o público
do gênero ainda são pequenos. Mas há perspectivas
de melhora. O violonista erudito Ananias Almeida é prova disso.
Bancário aposentado, teve aulas de violão na Escola de Música
Villa-Lobos e, quando descobriu o erudito, apaixonou-se. “Muito
do que consegui depois foi por causa de contatos que fiz aqui”,
acredita. A abnegação lhe proporcionou a oportunidade de
tocar em praticamente todos os estados e já estar na produção
do seu terceiro CD, sempre morando em Joinville.
Para Ananias, sucesso é questão de boa-vontade: “O
músico erudito tem de querer muito se desenvolver, estudar, entregar-se
para a música, e mostrar o que sabe, mesmo de graça”.
E, de graça, Ananias trabalha também pela formação
de público. Ele encabeça um projeto que leva concertos de
violão erudito para escolas públicas e aguarda aporte financeiro
do Funcultural. Andou por 138 escolas por conta própria em 2006,
tocando para 600 crianças em Joinville e mais 16 cidades do Estado.
A produtora Albertina Tuma não costuma reclamar quando o assunto é público.
Seus últimos espetáculos, no Juarez Machado, contaram
com boa lotação. Ela descreve os espectadores: “São
médicos, empresários, personalidades do meio cultural,
além
de pessoas de classe média que gostam de boa música”.
Já Regina Colin, da comissão de remontagem da ópera
“Yara”, acha que não há como formar público
sem grandes atrações: “O Juarez Machado é uma
sala de espetáculos. A Harmonia-Lyra se transformou num salão
de festas. Os demais espaços não servem para atrações
culturais. Tudo que temos é para a massa”.
A partir da esfera pública, a idéia mais eficiente para
formação de público, por enquanto, é a dos
Concertos Matinais, criada em 1993. Tratam-se de espetáculos
semanais com grupos musicais da cidade, sempre aos domingos, às
10h30. Na primeira semana do mês, a música invade a Sociedade
Cultural Alemã. Na segunda semana, o palco é a Sociedade
Cultural Lírica. Na terceira, o Juarez Machado.
Na quarta, o 62º Batalhão de Infantaria. A dinâmica
é democrática: as apresentações
são gratuitas e, toda vez em que o mês tem cinco fins-de-semana,
no quinto domingo o concerto é num bairro da cidade. Foram 10
mil pessoas nos espetáculos em 2007. Porém, os Concertos
Matinais não têm ocorrido em 2008. A FCJ já enviou
dois projetos para captar recursos por meio do Funcultural, do governo
do Estado, e
não obteve resposta. Para o primeiro, o orçamento é
de R$ 45 mil. O segundo precisa de R$ 128 mil para ser posto em prática.
Enquanto isso, as manhãs de domingo continuam silenciosas.
ORQUESTRA
SOCIESC
A MÚSICA ERUDITA NO BOM CAMINHO
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Uma
maestrina, 36 músicos voluntários e um repertório
que vai da música barroca ao rock, com pitadas de romântico,
jazz e MPB. Versatilidade é um bom adjetivo para a orquestra
mantida pela Sociedade
Educacional de Santa Catarina (Sociesc). A iniciativa, criada
em 2004, é um projeto de extensão da instituição,
e musicalmente carrega uma responsabilidade grande: é a orquestra
de maior expressão em Joinville. No ano passado, mais de 36
mil pessoas assistiram às suas apresentações.
Talvez por isso tenha recebido, também em 2007, recursos e
apoio da FCJ (por meio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela
Cultura, o Simdec) e do Governo do Estado (por meio do Fundo Estadual
de Incentivo à Cultura, o Funcultural).
O ano de 2008 marcou a entrada da Orquestra Sociesc no Circuito Catarinense
de Orquestras, que contará com 72 apresentações
em várias cidades do Estado. “Temos três apresentações
agendadas pelo Circuito, mais cinco em Joinville, pelo Simdec, fora
as institucionais”, enumera a maestrina Fabrícia Piva,
que também é violinista da Orquestra Sinfônica
de Santa Catarina. Ela rege instrumentos de cordas, madeira e metais,
e percussão. No plantel, alunos e professores da Sociesc, alguns
alunos da Escola de Música Villa-Lobos e pessoas da comunidade.
Entre essas, antigos músicos da Orquestra da Harmonia-Lyra.
“A morte do maestro Tibor Reisner, com quem toquei muitas vezes,
deixou um vácuo na música da idade, vácuo que
a Orquestra da Sociesc pretende preencher”, prevê Fabrícia.
Periodicamente, a orquestra realiza processos seletivos, que permitem
a entrada de qualquer músico voluntário a partir dos
12 anos. Os ensaios de naipes (subdivisões de uma orquestra)
são às terças, à noite. Os ensaios com
toda a formação são aos sábados pela manhã.
“Nossa orquestra está auxiliando a cidade a crescer culturalmente,
representando-a em outras cidades, e conquistando o respeito de toda
Santa Catarina”, comemora a maestrina. |
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