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Poltronas vazias Dá um tempo Institucional

PEQUENO
É FORÇA DE EXPRESSÃO

Negócios de menor porte ampliam incentivos
tributários, profissionalizam gestão e
derrubam taxas de mortalidade

Era sexta-feira 13 – mas, para os micro e pequenos empresários de Joinville, era com um dia de sorte que terminava a segunda semana de junho deste ano. Depois de longas conversações, a categoria assistia ali à assinatura do projeto-de-lei municipal que deverá fornecer um pacote de incentivos fiscais a indústrias de menor porte, nos moldes do que, meses antes, determinou a escolha da General Motors pela cidade. Entre as benesses do “regime jurídico tributário diferenciado, favorecido e simplificado” que será instituído, o melhor presente é a possível isenção de IPTU, Taxa de Licença de Localização (TLL), Contribuição de Melhoria, Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (Cosip) e Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). A isenção, por três anos seguidos, beneficiará novas indústrias com receita anual na faixa de R$ 120 mil a R$ 2,4 milhões que comprovem a geração de um a dez empregos. O projeto aguarda aval da Câmara de Vereadores, mas a expectativa é de que seja aprovado.

“O setor carece de diferenciação tributária. Suas obrigações são idênticas às das grandes empresas”, assinala o presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis de Santa Catarina (Sescon), Elias Nicoletti Barth. Outra boa nova anunciada na metade do ano combate o fantasma da burocracia – problema recorrente dos pequenos negócios, ao lado da eterna questão fiscal. A Junta Comercial de Santa Catarina (Jucesc) implantou no município o Sistema de Registro Integrado (Regin), que promete enxugar de 40 para apenas dois dias o tempo despendido na abertura de uma empresa. No Brasil, a média chega a 152 dias, com uma romaria de 18 procedimentos, enquanto nos Estados Unidos o trâmite leva seis dias.

A derrubada de barreiras históricas, somada ao acesso farto a instrumentos que diminuem margens de erro em gestão, com direito a consultorias gratuitas, vêm prolongando as chances de sobrevivência das micro e pequenas empresas nacionais. Levantamento do Sebrae indica que 78% das firmas desse porte abertas entre 2003 e 2005 permaneceram ativas. No triênio anterior, de 2000 a 2002, a parcela havia estacionado em 50,6%. O salto é mais expressivo restringindo a análise à Região Sul: de 41,1% para 76,1% dos empreendimentos continuaram funcionando, entre os dois períodos relacionados. Em Santa Catarina, a parcela foi de 75,9%. Noutra projeção, se em 2005, ano enfocado pela pesquisa, uma a cada cinco organizações do gênero instaladas no país falecia no primeiro ano de vida, em 2000 o número era três vezes superior. (Clique aqui e confira outras estatísticas sobre empreendedorismo em Santa Catarina e no Brasil)

Therezinha, Vanessa e Ademir Rossi, da Fundação Softville,
em uma das empresas incubadas: uma alavanca

Embalado por esse cenário, o brasileiro acalenta o sonho de cuidar do próprio nariz. Nada menos que 15 milhões de cidadãos, quase 13% da população adulta, situam-se na faixa dos “empreendedores iniciais” – em fase de implantação da empresa ou que já a mantém por até 42 meses. O dado coloca o Brasil em nono lugar no ranking mundial de empreendedorismo, com uma média que supera a proporção de empresários novatos apurada nos países abrangidos pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM),reputado estudo internacional do setor. Já entre as firmas constituídas há mais de três anos e meio, os verde-amarelos figuram na sexta posição (9,94%). O GEM diagnosticou um aumento no volume de negócios gerados por “oportunidade” – que reúnem nicho promissor, experiência anterior no ramo e espírito empreendedor. A parcela atinge 57% da população de empreendedores iniciais, ao passo que 43% seriam movidos “por necessidade”, ou seja, pela carência de opções no mercado de trabalho.

ORIENTAÇÃO E SUPORTE

Com curso superior de Tecnologia em Empreendedorismo desde 2002, ampla procura aos programas do Sebrae, além de canais de orientação disponíveis nas duas entidades empresariais locais (Ajorpeme e Acij), em Joinville há boas alavancas para minimizar os riscos inerentes a quem decide embarcar nesse universo. Uma delas está nas incubadoras de base tecnológica. Há duas na cidade, 16 no Estado, 370 no país. “O processo de incubação é um dos mais eficazes mecanismos para formar organizações sólidas”, afirma Vanessa Collere, gerente técnica da Softville. Fundação de caráter técnico-científico, voltada à promoção de cursos e pesquisas, instalada em uma antiga faculdade, a Softville começou a funcionar como incubadora em 2001. Já graduou oito empresas, que passaram de dois a quatro anos sob o guarda-chuva da entidade, até conquistar autonomia – quer dizer, segurança para andar nas próprias pernas. Hoje, abriga 15 firmas que vão pelo mesmo caminho, em áreas como design, engenharia, automação e biotecnologia.

Elas ganham espaço físico para trabalhar, infra-estrutura para reuniões, internet, consultoria mercadológica e de gestão, acesso a linhas especiais de financiamento, bolsas de estudo, assessoria de imprensa, laboratórios de hardware e software, entre outras vantagens. Em troca, pagam taxas minúsculas, a partir de R$ 30 por mês, e uma contribuição adicional de 1% a 2% do faturamento, depois que se desligam da incubadora e pelo período em que mantiveram o vínculo. O requisito para entrar no time é apresentar um projeto atestando a viabilidade do negócio – e seu grau de inovação. Sobram candidatas: na última seleção, foram dez propostas para quatro vagas. “Gostaríamos de receber todas”, reconhece a professora Therezinha de Oliveira, presidente da Fundação Softville, lastimando que “seis boas idéias de empresas, que poderiam gerar empregos, ficaram por aí, sem apoio”.

Um colegiado que envolve três instituições de ensino superior (Univille, Udesc, Sociesc) e o sindicato das empresas de informática administra a Softville, com apoio da prefeitura e do governo estadual. A outra incubadora local, que se chama Midiville, dirige a atuação ao setor eletromecânico. Doze empreendimentos já foram graduados por ela – e há nove residentes. “O Midiville é uma filosofia de fomento industrial”, resume Carlos César Fusinato, do Núcleo de Inovação Tecnológica da incubadora, mantida pelo Senai e Fiesc, em moldes semelhantes aos da Softville (uso compartilhado de equipamentos, infra-estrutura e serviços, treinamentos, consultoria estratégica, plano de negócio etc.).

 

O PERFIL IDEAL

Características do comportamento empreendedor, segundo o Sebrae

Buscar informações no lugar certo
Ser persistente
Garimpar oportunidades com iniciativa
Correr riscos calculados
Exigir qualidade e eficiência
Demonstrar comprometimento
Trabalhar com metas
Adotar sistemas de planejamento e monitoramento
Cultivar a persuasão e manter uma adequada rede de contatos
Ter independência e autoconfiança

NEGÓCIO CERTO

Mesmo fora das incubadoras, micro e pequenos empresários dispõem de programas bem articulados que jogam luzes no caminho dos novos empreendimentos. Caso, por exemplo, do “Negócio Certo”, do Sebrae. Lançado há quatro anos em Santa Catarina, o programa acabou nacionalizado pela entidade, por conta dos resultados que alcançou por aqui. Trata-se de um kit composto por cinco manuais que, em 90 páginas, ensinam o beabá da administração, dos primeiros passos (uma idéia inovadora e viável) às estratégias para um relacionamento eficaz com o mercado (conceito e aplicações do marketing). O material é de graça, impresso ou em versão eletrônica, e acompanhado de consultoria, conforme a necessidade. Em Joinville, o programa registra cerca de 60 atendimentos mensais.

“Algumas pessoas chegam querendo saber ‘o que dá dinheiro’. Não temos respostas prontas, mas as assessoramos para que possam montar um plano de negócio consistente”, reitera Jaime Arcino Dias Júnior, do Sebrae Joinville. O desafio reside em multiplicar a abrangência desse tipo de iniciativa. Pesquisa do Vox Populi indica que, no Estado, quase metade das empresas de menor porte ativas em 2005 (último dado disponível) não haviam recorrido a serviços de apoio como o do Sebrae. A maioria, aliás, admitia ter buscado auxílio em parentes e amigos, demonstrando que o profissionalismo dos pequenos ainda não se consolidou.

SÓ NO SITE
DONOS DO PRÓPRIO NARIZ

Pela ordem, os países com maior
número de empresas estabelecidas

Tailândia
Peru
Grécia
Colômbia
Argentina
Brasil
FONTE: GLOBAL ENTREPRENEURSHIP MONITOR (GEM)

Os especialistas prevêem que, aos poucos, o quadro tende a mudar. No Sebrae barriga-verde, a demanda cresceu 460% em três anos, entre 2004 e 2007. “Os empresários vêm se preparando de forma mais consistente para empreender”, sinaliza o diretor técnico Anacleto Ortigara. (Clique aqui e leia entrevista com o diretor.) Isso ajudaria a diminuir o número de falências, atribuídas por ele, basicamente, à falta de conhecimento, tanto na fase inicial quanto na gestão do negócio em seus primeiros anos de vida. Outra ferramenta da entidade que se propõe a suprir essa deficiência é o programa “Faça e Aconteça”, um conjunto de cursos à distância nas áreas de estratégia, recursos humanos, marketing, processos, custos e finanças. Disponível na internet, o programa mantém um plantão telefônico (0800-7272802) para resolver dúvidas. Desde 2005, computou 30 mil participantes, parte de fora do Estado.

As associações empresariais de Joinville também investem em qualificação. Na Acij, onde 75% das empresas filiadas têm menos de 20 funcionários, há 22 núcleos setoriais permanentes debatendo soluções integradas para problemas comuns e ações de treinamento que capacitam 4 mil pessoas por ano. Um novo serviço, destinado aos núcleos, promove consultoria operacional e gerencial gratuita em áreas como comércio exterior, finanças, logística, responsabilidade social, saúde ocupacional e até ergonomia. A Ajorpeme, além dos núcleos setoriais (são 24), reativa neste mês de setembro a “Maternidade Empresarial”, que contempla toda a gestação de um novo negócio, até a implantação e desenvolvimento. E um projeto de extensão da Univille atende associados à entidade que tenham interesse em ampliar ou iniciar negócios no exterior, via importação ou exportação.

Márcio, coordenador da faculdade de Empreendedorismo
da Sociesc, aconselha: “Não caia na mesmice”

ESCOLA DE EMPRESÁRIOS

Disciplina obrigatória na grade de diversos cursos superiores, o empreendedorismo batiza uma faculdade mantida pela Sociesc que, em cinco anos, formou 400 alunos. Essa turma permite traçar o perfil dos futuros empresários joinvilenses. Em torno de 65% dos diplomados na área são mulheres, predominam os jovens, poucos já administram negócio próprio e a maioria tem origem nos ramos de serviços ou comércio. Aos pupilos, o professor Márcio Rogério de Oliveira, coordenador da faculdade, faz questão de ensinar que competência técnica já não garante sucesso nos negócios. “Incentivamos o aluno a cultivar idéias inovadoras, atitudes pró-ativas, diferenciadas”, prega o coordenador. Com a competitividade em alta, seja qual for o segmento de atuação, Oliveira reforça: “Não dá para cair na mesmice”. Se os indicadores recentes que apontam para uma longevidade crescente das micro e pequenas empresas brasileiras servirem como termômetro, pode-se concluir que o conselho do professor vem sendo seguido.

O CAMINHO DAS PEDRAS

Tudo depende de vocação e plano de negócios
consistente, mas há alguns segmentos emergentes
que merecem atenção dos novos empreendedores

Turismo (de negócios, principalmente)
Alimentação fora do lar
Cuidados com a saúde
Segurança
Lazer e entretenimento
Serviços ligados à cadeia produtiva de eventos
Empresas de base tecnológica
FONTE: ANACLETO ORTIGARA, SEBRAE

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