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A caminho do sul O cardápio da noite Institucional

OS MOSQUETEIROS
DO JAZZ


Violonista, advogado e arquiteto apostaram que
Joinville seria um bom palco para promover a
música instrumental. Ganharam a aposta

Quem tem medo de jazz? A julgar pelo balanço dos seis anos em que se realiza o Joinville Jazz Festival, não é o caso do joinvilense. Mais de 45 mil pessoas na platéia, 48 shows despontando no palco principal, 16 apresentações gratuitas em locais alternativos, 31 oficinas para músicos e para crianças. A oportunidade de se deliciar com espetáculos de ponta a preços camaradas – entre outras, já passaram por aqui estrelas como Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Stanley Jordan, Marcel Powell, Wagner Tiso e, neste ano, Daniel Piazzola, neto do lendário Astor Piazzola. O espaço para artistas locais mostrarem seu trabalho, dividindo os holofotes com seus próprios ídolos, e o incentivo à formação de platéia para apreciar música instrumental de altíssimo nível. “Muitos músicos joinvilenses tiveram o festival como um trampolim em suas carreiras”, orgulha-se o violonista Luiz Bueno, diretor artístico do evento.

Integrante do renomado Duofel, ao lado de Fernando Melo, Bueno acalentou por anos o sonho de realizar um evento nesses moldes, dedicado à música instrumental, sem conotações comerciais. Até que encontrou o arquiteto e jazzófilo Norberto Sganzerla, à época presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Joinville (IPPUJ), que pensava em algo parecido. Projeto no papel, em 2003 veio o apoio de outro fã de jazz, o advogado Carlos Adauto Virmond Vieira, que ocupava a presidência da Fundação Cultural, e viabilizou-se a primeira edição do festival. Desde 2005, um instituto sem fins lucrativos que tem esses três mosqueteiros na linha de frente duela em busca de verbas para bancar o evento, realizado sempre no mês de novembro. Os patrocínios da Petrobras, em 2007, e da TIM, em 2008, sugerem que o Joinville Jazz Festival está amadurecendo rápido. É o tema desta entrevista com Bueno, Vieira e Sganzerla.

Adauto, Bueno e Sganzerla comandam o espetáculo: festival ganhou fôlego e se consolidou, com participação disputada

“Quem tem medo de jazz?” foi o mote do festival na edição 2008. Afinal, alguém ainda tem medo de jazz?
Bueno – Sim. Quem está ligado só na televisão e no mercado, aquele cara que tem que comprar uma determinada marca senão se sente defasado, os adeptos do consumismo. Essa pessoa acha que o jazz vai lhe causar mal, tirá-lo da balada, segregá-lo dentro do seu grupo. E é verdade! A música é elemento fundamental na representação de um grupo.

Então há mesmo preconceito com relação ao jazz? Qual a origem dessa visão?
Bueno – Tem a ver com a postura da mídia, comprometida com propostas prontas de mercado, com o que vende fácil. As pessoas são educadas para obedecer ao mercado, vão para a escola reproduzir o mercado. As grandes gravadoras impõem seus produtos, dão uma roupagem melhor, têm maior poder de distribuição e colocam a música que querem que se faça ouvir.

O que o jazz representa para vocês?
Adauto – É a vertente musical que mais toca a minha alma. Iniciado no mundo do jazz, fica difícil se satisfazer com formas menos complexas de harmonia, arranjos e execução. Durante a primeira jam session do Joinville Jazz, experimentei uma sensação indescritível de prazer musical, percebi minha alma se elevar para um plano místico que era inédito para mim. A combinação de admirador de música instrumental com a de realizador do evento trouxe um sentimento de satisfação novo, que se repete ao final de cada edição. E é esse sentimento, aliado ao amor à música, que nos leva a canalizar tanta energia no evento.
Norberto – Para mim, o jazz revela o amadurecimento da arte musical. É uma linguagem universal, que nos une com outros países e povos por meio da música instrumental de qualidade. Além do mais, o jazz brasileiro é um dos mais criativos do mundo, fonte de inspiração de monstros sagrados do jazz internacional.
Bueno – Diria que a música instrumental cumpre um papel interessante no país. Todo dia, nasce um grande músico. Só que fica dentro de casa. O festival veio para tirá-los de casa. E, como não tem a mesma saída de mercado, a música instrumental se tornou um trunfo: o instrumentista toca o que ele quer, é livre, não se prende a gravadoras, se apresenta todas as noites e alimenta algo que não mais se vê na música de mercado, que é o prazer de tocar.

Mas dificilmente vai viver de música...
Bueno – Depende que patamar de vida a gente pretende. Qual o objetivo da vida? É muito maior que fazer dinheiro. Você está falando com um cara que se sustenta de música instrumental há mais de 30 anos... Que qualidade de vida você deseja? Pessoas que ganham bastante e não fazem o que querem estão muito piores do que os músicos que ganham pouco. É tudo circunstancial, hoje estou com dinheiro e amanhã posso não estar. A crise pega o mundo inteiro, mas não afeta a música instrumental. Porque é uma crise de quem não tem conteúdo, é a crise do dinheiro que voa...

O que você diria para convencer esses músicos que “ainda estão em casa” a sair e meter a cara no mercado?
Bueno – Venham ao Joinville Jazz! E façam um exame de consciência, revejam seus objetivos. O problema dos instrumentistas no país é que eles não conseguem ter um plano macro, não vêem a vida como ligação de relações. O mundo mudou, e eles também têm que mudar. O músico sempre combateu a gravadora, mas esperou que a gravadora o descobrisse. Hoje, ninguém precisa de gravadora para isso. Você tem é que se relacionar, o que se pode fazer com os Orkuts da vida. Com uma rede de relacionamento, você faz seu negócio. Músicos, engenheiros, empregadas domésticas, organizai-vos! As ferramentas estão aí.

Luiz Bueno, em montagem com o palco do festival: "Todo dia, no Brasil, nasce um grande músico, só que fica em casa"

Qual o impacto da internet sobre o trabalho do músico instrumental?
Bueno – Uma ferramenta maravilhosa que trouxe novas possibilidades, socializou a mídia. Qualquer um que tenha acesso a computador pode se promover. A internet exige o surgimento de novas alternativas para formatação do trabalho. Se hoje um CD é pirateado antes de sair da fábrica, significa que o sistema está condenado. O trabalho do Duofel é feito com equipe própria, da produção à distribuição, e se beneficia da internet. Somos editores e distribuidores das nossas músicas em qualquer tipo de mídia. Em breve, planejamos disponibilizar músicas avulsas na internet, mas sem o contexto de álbum, o que só se pode fazer em um CD.

Como o violão entrou na sua história?
Bueno – Comecei sozinho quando achei um velho violão no sótão de minha casa. Tinha 9 anos. Depois, soube que o violão havia pertencido ao meu avô materno, que gostava de tocar em bares e noitadas de boêmia. Como ele faleceu de cirrose, em decorrência da vida boêmia, a família escondeu o instrumento para que ninguém mais enveredasse por esse caminho. Na rua, havia uma professora de violão, Nazareth, que ensinava os acordes fundamentais. Foi minha única experiência didática com o instrumento. Muito antes já percebia a música vibrando pelo meu corpo, fisicamente, sentia arrepios em determinadas passagens ou notas tocadas. Mas o instrumento que me colocou na música para valer foi a guitarra elétrica, tocando em grupos de baile por São Paulo.

Quem são os bambas do violão para você?
Bueno – O violão está muito bem representado, tanto por músicos brasileiros quanto no exterior. Difícil determinar os melhores. Certamente, Baden Powell e Raphael Rabello no Brasil, além do espanhol Paco de Lucia, escreveram seus nomes na história do instrumento. Mas seria injusto citar somente esses três. Se falarmos do novo violão, chegaremos facilmente ao Egberto Gismonti, André Geraissati, e por aí vai.

Vamos falar um pouco sobre o nascimento do Joinville Jazz...
Bueno – A idéia que levou ao festival começou a surgir em minhas viagens de avião para fora do país, por volta de 1988. Com um caderno na mão, “viajava” pensando em como lançar um evento diferente de música instrumental. Observava que, nos festivais liderados por músicos, eles próprios é que se apresentavam todos os anos. Pega mal. Você promove um festival para abrir a cena. O cara vai lá e já ocupa, todo ano, um lugar! Como embasamento, busquei o conceito da transdisciplinaridade, sustentado em três pilares: espiritualidade, ciência e arte. Com esses princípios na cabeça, fui desenvolvendo a idéia, até conhecer o Norberto, que veio falar comigo depois de shows do Duofel, primeiro em Curitiba, depois em Brasília e no Rio de Janeiro. Tomando um uísque, o Norberto falou sobre o Teatro Juarez Machado, que ajudara a projetar, e disse que o sonho dele é que nos apresentássemos lá. Respondi: se você é o arquiteto da cidade (na época, ele estava no IPPUJ), por que não aproveitamos para montar um festival de jazz? Colocamos tudo no papel, conseguimos o apoio do então prefeito Luiz Henrique, vimos que o projeto era viável. Logo fui combatido pelos músicos daqui; era visto como um extraterrestre que vinha tomar conta da música. Isso está se diluindo, mas há resistência, ainda. Em 2002, fizemos uma prévia. No ano seguinte, com a chegada do Carlos Adauto à presidência da Fundação Cultural, o festival se viabilizou. Nossa empatia foi tamanha que iniciamos uma parceria para criar o Instituto Joinville Jazz, que realizou o evento a partir de 2005, estabelecendo regras, critérios e objetivos que salvaguardassem o festival de qualquer aspiração ou interesse pessoal.

Qual é a proposta central do Joinville Jazz?
Adauto – Nas seis edições já realizadas, o festival se consolidou como um dos mais importantes eventos culturais do Estado. Por meio da combinação entre uma produção impecável e uma programação de alto nível, conseguiu destaque nacional, chamando atenção até do jornal Folha de São Paulo, que o elegeu entre os sete melhores festivais de jazz do país, e da Petrobrás, que em seu edital o selecionou entre os 23 melhores festivais de música do Brasil, de um total de 340 inscritos. Nas três primeiras edições, eram dois shows por noite. Nas últimas, o número passou para três por noite, ampliando o leque de oportunidades para os artistas. As apresentações ficaram divididas entre grupos iniciantes, grupos emergentes e grupos consagrados.

Vocês estão satisfeitos com o impacto que o festival trouxe para o panorama cultural de Joinville?
Bueno – Estou muito satisfeito. O festival participou efetivamente da mudança cultural e da postura social da cidade. A cadeia produtiva da música se fez valer, com muita cena de bar e estabelecimentos que oferecem música ao vivo. O festival se tornou mais forte que nossa própria vontade. O mundo inteiro quer vir para cá. Até o Daniel Piazzola esperou pela hora certa. Não é questão de nome, e sim de qualidade e sintonia com o evento. O festival toma um vulto cada vez maior. Não sei até que ponto eu poderei ir. Mas meu objetivo está quase alcançado: a cidade terá um grande evento de jazz e vai se tornar um ponto de referência em música para o Brasil e pelo mundo. Em todas as cidades aonde vou me apresentar com o Duofel, recebo pelo menos um CD de alguém que quer participar do Joinville Jazz.
Norberto – De fato, com o festival, os músicos joinvilenses despertaram para o jazz e a música instrumental, e melhorou muito o nível nos locais onde ocorrem apresentações ao vivo, como bares, casas de show e teatros.

Banda Itiberê, na edição de 2007, com apoio da Petrobras

Como funciona a organização?
Adauto – À frente do trabalho está o Instituto Joinville Jazz, que atua de forma privada, sem fins lucrativos. Sessenta dias antes do evento, monto uma equipe de produção maior, para colocar em prática o projeto que eu e Luiz definimos para cada edição. Essa equipe é responsável por tudo, à exceção apenas da campanha, desenvolvida por uma agência contratada. Ao Luiz cabem a programação musical e o contato e negociação com os músicos, aproveitando o excelente trânsito que tem no meio. Mas, na verdade, tudo é feito a quatro mãos, apesar das competências sempre bem definidas. Como os conhecimentos de um complementam os do outro, nossa parceria é perfeita, e o combustível é o amor à música.

O que vocês gostariam de ter concretizado e ainda não foi viável no festival?
Norberto – Fazemos o evento com orçamento limitado, mas uma das idéias seria regionalizar o festival, com apresentações na Costa do Encanto e no Centro Histórico de São Francisco do Sul e até no Barco Príncipe.
Adauto – Dentro do projeto maior, que contempla os dez primeiros anos do festival, há um estudo sobre a criação de uma espécie de “Cidade do Jazz”, que seria a montagem de um complexo de tendas, possibilitando diversas apresentações ao mesmo tempo, abrangendo os mais diferentes estilos de jazz e de música instrumental. Ali, teríamos lojas especializadas para músicos e apreciadores, intercâmbio entre artistas e público, enfim, todo um mundo girando em torno do tema principal, que é a música pura. Já para ampliar o número de dias e de eventos relacionados ao festival, seria necessário um considerável crescimento no orçamento, o que é complicado devido às limitações da própria lei de incentivo à cultura e às dificuldades de captação de patrocínios.

Stanley Jordan foi a estrela internacional do festival em 2007

Quem são os “grandes” do jazz para vocês e quais as estrelas contemporâneas que gostariam de trazer para o festival (mesmo que os cachês sejam impagáveis)?
Adauto
– Para mim, as duas grandes referências no jazz são Charlie Parker e Miles Davis. Toda a constelação de grandes nomes do jazz mundial, especialmente nos Estados Unidos, é formada por discípulos desses dois gênios. Entre os ainda vivos que eu gostaria de trazer para o festival, destaque para Dave Brubeck. Meu show dos sonhos no festival seria uma releitura do álbum “Friday Night in San Francisco”, de 1981, recebendo no palco do Joinville Jazz Aldi Meola, John McLaughlin e Paco de Lucia.
Norberto – Considero Herbie Hancock um dos grandes nomes atuais, e se pudesse trazê-lo, gostaria de vê-lo tocar com o baixista Ron Carter. Acima de tudo, procuramos valorizar os nomes do Brasil, pois a música instrumental brasileira é a mais rica e criativa do mundo, e queremos passar isso para o público que não tem acesso a essa música, que não toca no rádio e não passa na televisão. Também considero o Duofel o grande nome da música instrumental do Brasil, e foi por essa razão que procurei o Luiz; senti que ele e o Fernando Melo, no Duofel, estavam muito à frente do seu tempo com a música criativa e inovadora que produzem com apenas dois violões, e que parece uma orquestra completa de ritmos e harmonias.

Quais as maiores dificuldades da organização?
Adauto – Sem dúvida, as financeiras. Os procedimentos de aprovação do projeto cultural na lei de incentivo, captação de recursos, repasse por parte do Estado e prestação de contas, são extremamente burocráticos, demorados, e sofrem alterações todos os anos. E, para agravar, desde a criação das leis de incentivo, os patrocinadores deixaram de incentivar via repasse direto, o que terminou dificultando ainda mais a realização de eventos culturais. Outro aspecto é a dificuldade para se conseguir todos os alvarás necessários para legalizar o evento, tendo a produção, muitas vezes, que cumprir exigências descabidas dos órgãos públicos, com elevados custos.

O TRAMPOLIM DO JAZZ
Dois músicos locais que alavancaram a carreira
com o festival e uma banda que quer
seguir pelo mesmo caminho

O baixista jaraguaense Jefferson Lescowich (foto acima) vive no Rio de Janeiro, onde dá aulas particulares e toca em casas noturnas. Já atuou ao lado de Hermeto Paschoal, Mauro Senise, Chico Batera, Waltel Branco, entre outros músicos de respeito. Vez por outra, participa de workshops pelo país. O palco do Joinville Jazz, onde se apresentou com o grupo “Influência do Jazz”, formado por artistas locais, e mais tarde voltou para um show próprio, deu um impulso legal. “Conheci grandes nomes da música brasileira, troquei experiências. Os contatos rendem frutos até hoje”, reconhece. “Os idealizadores do festival estão de parabéns porque acreditaram em Joinville. Precisamos estar abertos a esse movimento que a arte possibilita e que, realmente, pode mudar as coisas.”

O pianista joinvilense Edinho Sant´anna (foto acima), que tem formação clássica e popular, já é figura constante no elenco de artistas nacionais. No início de novembro, lá estava ele acompanhando o sambista Wilson das Neves, que estreou show em São Paulo. Edinho mora na capital paulista desde 2005 e participa de uma banda de jazz em Diadema. A participação em festivais ajudou a incentivá-lo a seguir em frente, “confirmar aquilo que eu já sabia e queria”, e oportunizou o contato com “bons músicos, gente que você admira e que antes só conhecia ouvindo discos”.

Judson Teixeira na guitarra, Gledison Zabote no sax Carlos Floriani na batera, Michel Falcão no baixo. Com vocês, o Dedo de Prosa (foto acima), uma banda que nasceu, literalmente, dentro do Joinville Jazz, em 2007, e saltou das jam-sessions daquele ano para o palco principal na abertura da segunda noite, em 2008, acompanhados pelo experiente guitarrista Cássio Moura, de Florianópolis. Dedicado ao jazz e à releitura de clássicos da MPB, além de composições próprias, o Dedo de Prosa buscou no Joinville Jazz a oportunidade de ampliar o alcance do trabalho feito na noite. “Acompanho o festival desde a segunda edição. Foi ali que descobri a música instrumental. Fiquei encantado”, confessa Gledison.


NAVEGUE AQUI
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Visite o site do Instituto Joinville Jazz Festival, promotor do festival.

Assista a um vídeo do Duofel no YouTube e leia um perfil dessa dupla de violinistas.

Áudios com Edinho Sant´anna, Jefferson Lescovich e Dedo de Prosa, no MySpace.



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