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RUMO
AO
SUL
Região que já foi o patinho feio de Joinville espera
embarcar na rota do desenvolvimento com o fator
GM e incentivando expansão empresarial
Dono da
ExpecTV, empresa
de serviços especializada em monitorar o noticiário da imprensa,
o jornalista Geraldo Lion pensou três vezes antes de trocar um endereço
“nobre”, na Rua Blumenau, colado no Centro de Joinville, pelo
início do bairro Itaum, para abrigar sua agência, em dezembro
de 2007. “Por miopia, temíamos que o cliente empinaria o
nariz quando precisasse se dirigir à Zona Sul. E que o funcionário
chiaria”, revela. Deu-se o inverso: “Todos elogiaram a transferência,
a produtividade aumentou, a empresa cresceu com a mudança”,
comemora o jornalista, nada arrependido com a decisão de abandonar
o aluguel de uma “caixa mal ventilada” para se instalar em
um imóvel próprio, cercado de verde. A migração
da ExpecTV é apenas um exemplo de que, aos poucos, a Zona Sul perde
o estigma de “patinho feio”, pedaço remoto da cidade,
e passa a chamar atenção da iniciativa privada e, por tabela,
do poder público. “Definitivamente, os olhares estão
se voltando para cá”, repara Geraldo Lion.
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| Geraldo,
Cathia e parte da equipe da ExpecTV: a empresa cresceu com a mudança
de endereço e a opção pelo Sul |
A boa notícia
de que os empreendimentos mais aguardados da década – a planta
da General Motors
e o campus da UFSC –
terão lugar na beirada da Zona Sul é, ao mesmo tempo, causa
e conseqüência desse fenômeno. Em outras palavras, o
planejamento estratégico de Joinville mira naquela porção
da cidade para receber investimentos de vulto – aliás, uma
política que permeou a escolha dos terrenos nos quais serão
construídas a fábrica de motores e a universidade. “Demos
um empurrão para que as duas coisas acontecessem na região”,
afirma o empresário Raul Bergson, secretário de Integração
e Desenvolvimento Econômico do governo Tebaldi. Do mesmo modo,
o fator GM/UFSC contribui para a virada que a Zona Sul almeja nos 14 bairros
que a compõem, onde moram 170 mil pessoas.
O primeiro impacto, naturalmente, será sentido nas vizinhanças
do parque fabril (terreno de 504 mil metros quadrados situado no km 47
da BR-101) e do campus (1,25 milhão de metros quadrados, ao lado
do entroncamento das BRs 101 e 280, na chamada “Curva do Arroz”).
A expectativa é de que se consolide, por ali, um “grande
corredor de crescimento”, nas palavras de Raul Bergson. O entorno
da universidade reserva 900 mil metros quadrados, declarados de utilidade
pública, para um núcleo de corporações com
base tecnológica, e 30 milhões de metros quadrados carimbados
como área de expansão empresarial. Na opinião do
arquiteto Murilo Carvalho, do IPPUJ, órgão responsável
pelo planejamento urbano local, a UFSC será “um marco”
para o futuro de Joinville porque virá pavimentar a ampliação
da “indústria do conhecimento”.
EMPREGO
PERTO
DE CASA
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Preservar
a Zona Norte, daqui em diante, para negócios ligados ao turismo
e aos serviços, promovendo a industrialização
do Sul. É o caminho proposto pelo empresário Ivo Gramkow,
que pilotou o trabalho de elaboração do Planejamento
Estratégico de Joinville, em 2003 e 2004. “A maioria
da população mora lá, o que demanda custos
sociais elevados no deslocamento para o trabalho.” O empresário
ressalta que o incentivo maior deveria ser concentrado nas pequenas
e médias empresas, alavancas eficazes de inclusão
social. “Na Zona Sul, existe muito empreendedorismo oculto,
o que pode gerar sistemas de produção e prestação
de serviços, ampliando as oportunidades de emprego e renda.”
O arquiteto Murilo Teixeira reforça: "Para tornar Jonville
mais justa, é preciso aproximar o emprego da moradia".
Ele lembra que a Zona Sul oferece, hoje, uma "disponibilidade
alta" de infra-estrutura – energia elétrica, gás,
malha viária, ferroviária etc. – que pode ser
"muito bem aproveitada". Nesse processo, diz o empresário
Raul Bergson, a idéia é promover uma "cidade
policêntrica", fortalecendo os "centros dos bairros",
como os do Sul. |
Alavanca
de empregos
GM e UFSC ocupam as manchetes, por motivos óbvios, mas não
são os únicos sinais de que a cidade caminha rumo ao Sul.
Idealizado, explicitamente, para multiplicar os empregos na região,
estimulando a abertura de micro e pequenas empresas, o primeiro condomínio
industrial sulino promete, finalmente, sair do papel. O projeto, cogitado
há uns 10 anos, deve ser lançado no segundo semestre de
2009. Mãe da idéia e entidade de referência no segmento,
a Ajorpeme elegeu
a área para o complexo – 650 mil metros quadrados, no Paranaguamirim
–, negocia com a imobiliária que é dona do terreno,
alinhava mecanismos de financiamento com bancos de fomento e reivindica
a adesão do governo, para dar conta de infra-estrutura viária
e iluminação pública. A princípio, o condomínio
hospedará 114 empresas, nos ramos têxtil, plástico,
metal-mecânico e de serviços. Cotado em R$ 60 milhões
(R$ 13 milhões só do terreno), o projeto deve impulsionar
a descentralização industrial de Joinville, diz Jucemar
da Cruz, presidente da Ajorpeme na gestão 2007/2008. “Seu
cunho social é muito grande”, reforça, ao lembrar
que as micro e pequenas empresas tendem a contratar seu pessoal nos arredores,
“o que favorecerá o desenvolvimento desta região tão
carente”.
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| Planta
do condomínio industrial que a Ajorpeme projeta para o Paranaguamirim:
favorecer o desenvolvimento regional |
“Chegou
a vez da Zona Sul, sempre tão abandonada”, confia o ambientalista
Gert Fischer, que sente um “clima positivo” para que o condomínio
da Ajorpeme vá adiante, gere emprego e renda para moradores vizinhos.
Nessa perspectiva, prefeitura
e Câmara de
Vereadores têm trabalhado no sentido de tornar mais maleável
a lei de zoneamento, que determina aonde erguer fábricas, hotéis,
hospitais e casas, por exemplo, a fim de assegurar o crescimento ordenado.
“O primeiro passo foi flexibilizar o zoneamento em grande parte
dos bairros do Sul: agora, pequenas empresas com baixo impacto ambiental
podem se implantar na região”, ressalta o arquiteto Murilo
Teixeira, do IPPUJ. Entre os ajustes, uma área do Paranaguamirim
100% reservada às empresas, também liberadas em uma faixa
marginal mais larga da BR-101, que foi concebida para transportadoras
e operadoras de logística.
Em novembro, o Legislativo do município discutiu mais algumas propostas
nessa linha. Uma delas autorizaria prestadoras de serviço de educação
informal, como auto-escolas e academias de ginástica, a se instalar
nas imediações do bairro Itinga, perto da SC-301. Outra,
assinada pelo vereador Osmari Fritz (PMDB), reduziria de 600 para 450
metros quadrados o lote mínimo para indústrias leves poderem
operar na Rua Santa Catarina, entre o Floresta e o Itinga. “Meu
projeto é um incentivo momentâneo para o empreendedor crescer
e, depois, dar vôos próprios”, explica o vereador,
que torce, também, pelo condomínio da Ajorpeme, como uma
solução mais definitiva para o problema. “Devemos
ser ágeis, não podemos deixar que a burocracia retarde o
processo. Ou Joinville acorda ou vai ver esse pessoal que gera emprego
ir embora.”
As portas
que já foram abertas movimentam negócios. Há quase
18 anos, Antônio José Dalçoquio apostou na Zona Sul
para instalar a Cordaville,
que produz 486 tipos de cordas e cabos (laços, cabrestos, náutica,
pesca etc.). Ele planeja levantar 20 mil metros quadrados de galpões
para alugar, torcendo pelas empresas que virão. Um primeiro galpão
de 1 mil metros quadrados fica pronto em abril – em novembro, já
estava locado. Fincada a dois quilômetros da futura GM, a Cordaville
vai bem, obrigado. O faturamento sobe, em média, 30% ao ano. Em
quatro anos, o tamanho da fábrica (equipada só com máquinas
importadas) cresceu 90%. Até 2010, estima investimentos de R$ 6,5
milhões. O proprietário pensa longe: “Nos próximos
30 anos, esta região será um grande ABC”, imagina
Dalçoquio, em alusão ao pólo industrial paulista.
Esse tipo de previsão inquieta o geógrafo José Dionício
Kunze. Embora observe uma “pressão popular” para que
os empreendimentos sigam em direção ao Sul, aproximando
o emprego disponível do local em que a maioria dos trabalhadores
mora, Kunze tem dúvidas se o resultado, no longo prazo, será
bom ou ruim. “É relativo. Hoje, desafogaria o Centro, reduzindo
o deslocamento da enorme parcela de joinvilenses que atravessa a cidade
para trabalhar. Amanhã, pode voltar a causar problemas, caso se
crie uma nova ‘área central’ naquela região”,
alerta o geógrafo. Na essência, porém, ele entende
que o Sul é o pedaço da cidade com menos obstáculos
ao crescimento. “Norte, Leste e Oeste têm muitas limitações,
pelas áreas de preservação, zonas agrícolas
e proibição de novas residências.”
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"SOU
MEIO VISIONÁRIA"
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“O
Sul ficou muito tempo no anonimato. Agora, vai crescer mais do que
outras regiões.” A empresária Tereza Teixeira
Teza nunca se arrependeu de confiar nas próprias percepções
como bússola nos negócios. Foi assim quando escolheu
a Zona Sul para plantar as três filiais da sua Vanessa Modas,
nos bairros Fátima, Paranaguamirim e Floresta (a matriz é
no Boa Vista). Seu método de pesquisa não era exatamente
ortodoxo: “Sou meio visionária. Circulei pela região,
olhei a quantidade de carros, as crianças que saíam
da escola... Elas precisam de roupas. E, afinal, não é
só o morador do Centro que tem direito de vestir coisas boas.”
As lojas são todas da família, todas com visual caprichado,
por dentro e por fora, e o faturamento real avança 10% ao
ano, em média. Até 2010, Tereza planeja abrir mais
dois endereços. “Não sei se fui arrojada ou
louca, mas percebi que a Zona Sul era promissora”, orgulha-se
a empresária, que não tem nada de louca. |
Crescimento
equilibrado
O prefeito eleito Carlito Merss afirma que o fortalecimento da Zona Sul
ajudará a corrigir erros do passado, que tiveram “custo elevadíssimo”
para o joinvilense, com a ocupação desordenada da região.
“Estamos recuperando o tempo perdido na questão do planejamento
urbano”, opinou Carlito, em entrevista à Revista Döhler.
O objetivo, diz, é promover um “desenvolvimento mais equilibrado”
dos quatro cantos de Joinville. Para tanto, segundo o prefeito eleito,
é preciso, entre outros aspectos: (1) definir com maior clareza
as questões de zoneamento que o novo Plano Diretor deixa em aberto;
(2) investir pesadamente em habitação, saneamento e infra-estrutura
(“metade da cidade está sem asfalto, a maior parte na Zona
Sul, onde há muitas valas a céu aberto”); (3) estimular
a geração de empregos (“haveria espaço para
três ou quatro condomínios como o que a Ajorpeme propõe”)
e (4) resolver a crise da saúde.
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Carlito
reconhece que a "ocupação desordenada" da
região
trouxe um "custo elevadíssimo" para o joinvilense |
Na saúde,
a prioridade absoluta é fazer o sistema público engrenar,
mas existe pelo menos um item no programa de Carlito que afeta diretamente
a Zona Sul: o projeto de erguer um novo hospital na região. “Queremos
chegar ao final do governo com o hospital funcionando, de início
com cerca de 100 leitos”, revela o prefeito eleito. O orçamento
do município para 2009 destina R$ 300 mil para dar forma ao projeto.
“Se garantirmos o terreno neste primeiro ano, será um grande
avanço”, avalia. Não há endereço certo,
ainda, mas o consenso é que o hospital fique nas bandas do bairro
Boehmerwaldt, perto do novo acesso à cidade e à BR-101.
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Bairro
Santa Catarina, um dos mais urbanizados da
Zona Sul: em busca da cidade "policêntrica" |
O pacote
de investimentos públicos e privados que se anuncia é visto
com entusiasmo pelo presidente da Associação de Moradores
e Amigos do Itinga (Amorabi), Sérgio Corrente. “Tudo isso
vai valorizar a região e trazer melhor qualidade de vida, ruas
asfaltadas e bem cuidadas, comércio ativo, ônibus acessíveis...”,
relaciona o dirigente, que só pede mais incentivos tributários
para a pequena empresa. “Muitas estão saindo daqui e indo
para Araquari, onde os benefícios são maiores.” Já
o ambientalista Gert Fischer espera que esse incremento possa, também,
reduzir o preconceito de alguns setores aos moradores da região.
“Executivos que vêm de outros Estados ajudam a criar novos
espaços e nova mentalidade. Eles acham a Zona Sul uma região
muito boa”, sublinha.
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| Stefan
Bogo dirige reunião do projeto mantido pela Acij, para orientar
empresários: fator GM "é bom para todo mundo" |
Devem achar
mesmo. Em novembro, a imprensa noticiou que apenas uma imobiliária
já somava 200 clientes cadastrados à caça de imóveis
entre os bairros Anita Garibaldi e Floresta – não por acaso,
aqueles que fazem divisa com o futuro parque da GM. “Registramos
um aumento de lançamentos residenciais nas regiões próximas
aos eixos de acesso à BR-101”, informa Fabrício Pereira,
do Núcleo de Imobiliárias da Associação Empresarial
de Joinville (Acij). “Junto com a GM e a UFSC, virão os investimentos
privados na construção civil, para atender a demanda das
empresas-satélite e de moradias”, vaticina Antônio
Carlos Poletini, secretário de Planejamento do governo Tebaldi.
O horizonte é positivo. Mas, para o empresário que já
atua na Zona Sul notar a diferença na prática, vai demorar.
Desde abril de 2008, a Acij realiza um programa
de orientação e troca de experiências que visa
diagnosticar as principais carências de quem tem negócios
na região, encaminhando pleitos coletivos, quando necessário.
Os participantes do grupo, em segmentos como ferramentaria, confecção
e comércio, sentem falta de mão-de-obra qualificada, acessos
viários pavimentados, saneamento básico, manutenção
de vias públicas, policiamento. Reclamam da energia elétrica
inconstante. Querem uma definição clara sobre até
onde vai, afinal, a área industrial do lado de lá. Pedem
até que o acesso à banda larga seja ampliado. Mesmo com
tantas demandas, o coordenador do programa, Stefan Bogo, garante: a maioria
está animada com o “up-grade” que GM e UFSC vão
produzir no hemisfério Sul de Joinville. “Vai ser bom para
todo mundo: aumentará a visibilidade da região, com potencial
para gerar novos negócios e se tornar auto-sustentável”,
avalia Bogo.
Ou seja,
o patinho feio já era.
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"MEDIDA
ESTRATÉGICA "
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“O acaso trouxe a gente para a Zona Sul”,
revela Daniel Cardozo Júnior, diretor da Víqua, fabricante
de torneiras em plástico para cozinhas e lavatórios
que, não por acaso, vem se notabilizando pelos investimentos
em tecnologia e design, com crescimento médio de 25% ao ano.
Instalada na BR-101, perto da futura GM, em sete anos a Víqua
saltou de 1.500 metros quadrados e 30 funcionários para 9
mil, com 350 pessoas trabalhando. O pai de Daniel, fundador da empresa,
escolheu a região porque encontrou uma boa área disponível
e conhecia bem a Zona Sul, onde a família sempre morou. Decisão
acertada: “A região Norte fica espremida entre o mar
e as montanhas, as dificuldades de expansão são grandes.
Levar o desenvolvimento industrial para o Sul é uma medida
estratégica importante para o futuro de Joinville”,
analisa o empresário. |
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