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AINDA SABE Larissa tem 20 anos e duas famílias. Ela é filha de Vandick, pai de outro filho com Mônica, chamado Vitor. Também é filha de Sandra, casada com Cândido, dois filhos adotivos – Márcio e Maraísa. Cada um dos núcleos a que Larissa pertence preserva seus costumes, valores e cotidiano. Ela se liga a todos: é filha de sangue; enteada e irmã de afinidade. “As famílias” de Larissa são uma boa expressão das profundas mudanças pelas quais passou, no final do século passado e início do atual, uma das instituições mais antigas e conhecidas da humanidade. De espaço de reprodução das relações sociais, o núcleo tomou outra dimensão e passou a fortalecer uma variável que há algum tempo sequer fazia parte da equação: a escolha. Escolha de pertencer ou não a uma família, escolha de quem o indivíduo quer que integre a sua. Família já não são apenas pais e filhos, esposas e maridos. Não são avós, tios, primos, netos e sobrinhos. A legislação brasileira garante que alguém faz parte de uma família apenas querendo estar em uma. Ela é, hoje, “a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa”, reza a lei 11.340, de agosto de 2006. A lei ampliou a concepção de núcleo familiar e abriu precedentes para que milhões de pessoas legalmente alijadas de ter seus vínculos reconhecidos constituíssem, também, uma família, como nos núcleos tradicionais. Com isso, uniões estáveis sem formalização (os “ajuntamentos”), uniões homossexuais, núcleos monoparentais (como mães solteiras) e grupos de irmãos são, legitimamente, famílias.
Ao mesmo tempo, observa-se que os núcleos familiares diminuíram de tamanho. Dados colhidos em 2007 pela Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD), do IBGE, demonstram que, em média, as famílias catarinenses, contam com apenas três pessoas. Nas últimas décadas, caíram por terra preconceitos, autoritarismos e verdades absolutas. Ficou a pergunta: o mundo ocidental ainda sabe o que é família?
“A base da sociedade” A concepção mais usada diz que a família é a base de funcionamento e organização da sociedade. Sua função, segundo esse raciocínio, seria a de formar cidadãos íntegros e comprometidos com a ordem social. Teóricos adeptos das idéias do pensador alemão Karl Marx vão mais longe. “A família é a unidade de controle do Estado”, define a historiadora Valdete Niehues. Ela explica que, diferentemente do que se pensa, a família não existe desde “o início dos tempos”. O conceito passou a tomar corpo na Idade Média, como maneira de legitimar a propriedade e o direito de herança. O fator econômico, conforme Valdete, perdura até hoje, mesmo em núcleos que não reproduzem o modelo tradicional. “A união de todos sob um só teto tem motivações econômicas, já que é mais barato manter uma casa do que várias”, sustenta. O modelo de família paternalista, em que o homem mais velho, o patriarca, centralizava todas as decisões, modificou-se até chegar à noção do pai provedor, que centraliza as decisões e o controle financeiro do núcleo, dando as cartas para filhos e esposa. Esse formato predominou até a década de 60 do século 20. À época, os pais da classe média passaram a ter condições de manter os filhos na universidade sem trabalhar. Em decorrência, os jovens começaram a almejar independência, o que requeria a quebra do vínculo com a família. Enquanto isso, as mulheres se desvencilhavam da égide do marido, alcançando postos de trabalho tidos como masculinos e ganhando o próprio dinheiro. O mundo entrava na era da economia liberal, que incentiva o consumo e a competição. Nesse contexto, os integrantes da família não a valorizavam como antes, o que desgastou o modelo. A revolução sexual e a regulamentação do divórcio colaboraram para que o núcleo familiar ganhasse novas feições. Por que família? No tempo dos seus avós, a família era vista como um celeiro de formação de homens e mulheres de bem. Só se considerava bem-sucedida a família que tinha casais unidos, filhos obedientes e aparente harmonia. Com a mudança na definição desse grupamento humano, já exposta, mudou a maneira de entendê-la e de pensar na sua validade enquanto instituição. Se antes o foco estava sobre as relações entre os componentes do núcleo – de respeito e subserviência –, hoje o alvo são as vontades e motivação de seus próprios integrantes. É o caso de pensar: por que ficar junto? “Para ter um lugar para retornar”, responde de bate-pronto a professora Valdete Niehues. Ela explica: “A família sobrevive nas emergências, que tem coisas que só ela pode fazer pelo indivíduo. É uma espécie de ‘porto-seguro’”. Para Valdete, a família persiste como instituição importante na sociedade por sua conveniência econômica. Já a terapeuta familiar Orli Kurovski, do Centro de Estudos e Orientação da Família (Cenef), acredita que a perenidade dos laços provém de outro lugar: “A função dos pais é cuidar, dar proteção aos filhos. A crise da família é um conflito de funções a ser resolvido”.
Para ela,
quem exercer a “função materna” (pai ou mãe),
tem de dar conta da sobrevivência do filho, com carinho e o alimento
físico e mental. Por outro lado, quem desempenhar a “função
paterna” tem de “dar a direção” aos rebentos,
além de apontar os limites. “São os filhos que estabelecem
a formação fundamental da família”, complementa.
Os católicos Volnei e Marivone Exterkoetter, coordenadores estaduais
da Pastoral Familiar, pensam diferente. Na opinião deles, o elo
de uma família é “o compromisso de evangelizar para
os valores cristãos”. “A família deve ser uma
mini-igreja, uma célula da sociedade”, diz Marivone. O pastor
Elton Pothin, coordenador dos pastores da Igreja Evangélica de
Confissão Luterana no Brasil (IECLB) em Joinville, vai por outras
veredas. Sublinha que a família é a “base de todo
relacionamento humano”. O que a segura? “O cultivo do amor,
do afeto e da entre-ajuda.” Antes, era uma condição imutável: se nascemos de um pai e uma mãe, estamos em uma família. Mas os tempos atuais trouxeram a possibilidade de escolha. O que fazer com ela? O começo da resposta pode ser encontrado invertendo o raciocínio: se algo mudou, foi a sociedade. As mudanças do indivíduo e dos núcleos com os quais se relaciona vieram depois, como conseqüência. “A família deixou de ser um núcleo de associação obrigatória. Está além de uma ‘evolução social’. Entra em jogo a questão da afinidade, que faz com que a família seja o que definirmos como tal”, esclarece a cientista social e professora de Antropologia Maria Elisa Máximo. Ela complementa: “A mudança se deu no nível da ideologia individual. Ser de uma família tem muito mais a ver com ter a motivação de se agregar a um grupo como os outros, sejam amigos, parceiros de igreja ou colegas”. O processo não se dá de maneira assim tão simples. Fatores econômicos, psicológicos, afetivos, religiosos e de conveniência estão envolvidos na história. “O sujeito”, define Maria Elisa, “tem mais liberdade para medir seu nível de comprometimento com a família. Mais que escolher se quer estar em uma família, ele pode escolher o quanto quer, efetivamente, interagir com essas pessoas”. A introdução dos termos “vontade expressa” na legislação sobre a família brasileira, nesse caso, é significativa. A professora Valdete sentencia: “Em tempos como os nossos, não é mais necessário viver junto. A tendência é pela separação dos integrantes da família. A família do modelo antigo, que serve apenas para formar indivíduos e ensiná-los a formar novas famílias, só sobreviverá se for flexível”.
Família e fé: ligação íntima As religiões têm doutrinas específicas para a convivência em família e os reflexos desse convívio na sociedade. A Igreja Católica, por exemplo, protagoniza a luta pelo resgate de valores que, segundo ela, se perderam com as mudanças por que o mundo passou no século 20. O movimento mais ativo nesse sentido é a Pastoral Familiar. Coordenadores estaduais da pastoral, Volnei e Marivone Exterkoetter sublinham que a noção de família, resultante do casamento e da procriação conta com mais uma dimensão: “É na família que os filhos conhecem a fé. A função da Pastoral, que está no próprio nome, é pastorear a família, garantir que ela seja a matriz de uma sociedade de cidadãos conscientes e íntegros”.
O trabalho da Pastoral Familiar se divide em três frentes: pré-matrimônio (que trata dos valores do casamento e da sexualidade, além de aplicar um curso para noivos), pós-matrimônio (encontros de casais, aconselhamento familiar) e o que a Pastoral chama de “casos especiais”, em que estão incluídos casais de segunda união, mães solteiras, uniões estáveis, mas sem formalização, viciados e pessoas que vivem em situação de risco. “Para nós”, diz Volnei, “a família é uma comunidade de vida e amor, e por isso a Pastoral Familiar não quer deixar ninguém de fora”. Apesar de aceitar interessados com todo tipo de história pessoal, a Pastoral Familiar reafirma a defesa de uma visão mais tradicional: “A família é a matriz da sociedade. Se esse molde vai mal, a sociedade vai mal. Um lar desestruturado facilita a tomada de outros caminhos”, argumenta Volnei. Na Igreja Luterana, o tom também é de valorizar o amor. “A família é uma instituição divina, apontada já no livro de Gênese [o primeiro da Bíblia]. É célula-mãe da sociedade e proporciona a adequada formação do indivíduo”, define o pastor Elton Pothin, coordenador dos pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) em Joinville, e pastor da Paróquia Martin Luther. Para ele, a família é “base de todo relacionamento humano”. O pastor acredita que as mudanças no núcleo familiar não reduziram sua importância, e sim causaram uma crise no modelo de configuração familiar patriarcal, em que o pai atuava como único provedor, a mãe era apenas dona-de-casa e os filhos, inteiramente obedientes. “A pressão econômica e a emancipação feminina contribuíram para que esse modelo entrasse em crise”, raciocina, “mas houve uma evolução para melhor, já que hoje há mais liberdade e mais transparência nas relações”. Pastor Elthon destaca que a disposição da Igreja Luterana no Brasil é se adaptar aos “novos tempos” sem se desviar do Evangelho. Por isso, ele é adepto da definição legal mais recente de família, descrita no início desta reportagem, que valoriza a disposição em se relacionar em família e a afinidade. Dessa maneira, não condena a segunda união. “Ela não é ruim, pois demonstra que aquelas pessoas querem estar juntas e que se aceitam, o que aumenta o amor, o afeto e a sinceridade”. É por isso que o livro que norteia a atuação dos luteranos traz orientações para casais que desejem se unir uma segunda vez perante a comunidade. “O casal passa por aconselhamento pastoral. Caso a relação não possa se manter, devem reconhecer a falha de não ter cumprido a promessa de permanecer unidos ao primeiro companheiro, demonstrando sinceridade perante Deus”, explica. Em seguida, os dois estão liberados para se casar novamente. Famílias podem ser consertadas? Com a mudança do conceito ocidental de família, as idéias de certo e errado também se transformaram. Os preconceitos desapareceram: não existem mais as figuras do filho “bastardo” e da “mulher desquitada”, por exemplo. Mas, se não há mais o “errado”, por que tantos núcleos procuram auxílio de instituições organizadas e profissionais da terapia familiar para ser “consertados”? “O que as pessoas procuram é o equilíbrio entre individual e coletivo. O tratamento é para que as famílias cultivem um relacionamento saudável”, responde a terapeuta Orli Kurovski, do Centro de Estudos e Orientação da Família (Cenef).
Criado por iniciativa da Igreja Católica há 28 anos, o Cenef visa envolver a “rede complexa que está em volta do paciente” e auxiliá-lo a encontrar o caminho da boa relação com a família e a sociedade. Orli descreve: “Na maioria das vezes, os familiares procuram o Cenef em busca de tratamento para uma pessoa, que é considerada ‘problemática’”. A equipe, composta por psicólogos e orientadores, cumpre preceitos de atuação bem sedimentados. “A família é uma estrutura hierárquica, os pais são o núcleo. Cabe a eles multiplicar o afeto, que é o fator de união da família, e proteger os filhos”, define Orli. Para ela, a mudança do modelo tomou corpo quando a mulher passou a sair de casa para trabalhar. “A família está em transformação”, acredita, “e a mulher já mudou seu papel, mas o homem ainda não”. Orli considera que a famíia tradicional, com o pai dando os limites e a mãe cuidando da sobrevivência do filho, está enraizado na sociedade por questões “culturais e biológicas”. “Os problemas vêm porque tentamos resolver os novos paradigmas da família com soluções velhas.” E as crianças, como ficam nessa história? O modelo tradicional é considerado o mais adequado para a formação infantil. Essa visão é reiterada por boa parte do meio educacional, que leva a organização familiar em conta no seu trabalho. A coordenadora pedagógica do Colégio Cenecista Elias Moreira, Emanuelle Dalri, entende que os pais precisam se reciclar: “As pessoas se preparam para ser profissionais e negam os estudos necessários para ser pais. Um pai, uma mãe, podem se dar ao direito de que as estruturas emocionais, psicológicas e sociais de seus filhos se mantenham frágeis?”. A professora defende que o padrão mais adequado para a formação dos mais novos é o tradicional, com função materna e paterna. Mas abre precedentes: “Uma mulher tem condições de representar os quesitos da figura paterna tão bem quanto um homem, e vice-versa”. Esse tipo de percepção ilustra de maneira concreta a família que entra no século 21.
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