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ABRE-SE
O
FUNIL
Crescimento rápido na oferta de vagas amplia
oportunidades para o jovem que quer fazer
faculdade e mobiliza instituições tradicionais
A Pontifícia
Universidade Católica (PUC) é uma das mais celebradas
instituições educacionais do Paraná. Prestes a completar
50 anos, em 2009, soma 54 cursos de graduação, 150 especializações,
12 mestrados e sete doutorados, espalhados nas cinco cidades onde mantém
campus – Curitiba, São José dos Pinhais, Toledo, Maringá
e Londrina. Joinville deve se tornar a sexta. Nos últimos meses,
representantes da PUC estiveram ao menos quatro vezes no Estado. Ciceroneados
pelo bispo Irineu Scherer, visitaram terrenos que poderiam abrigar o futuro
campos, peregrinaram por escolas atrás de alianças e discutiram
a melhor estratégia para fincar pé por aqui. Nesse meio
tempo, o grupo viajou a Brasília para conversar com o prefeito
eleito Carlito Merss. “Esperamos receber algum apoio da prefeitura.
Talvez a cessão do espaço físico”, revelou
à Revista Döhler o irmão Frederico Unterberger, vice-presidente
da Associação Paranaense de Cultura (APC), mantenedora da
PUC-PR. “Mas temos interesse em levar o projeto adiante, mesmo sem
esse apoio.”
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| Dom
Irineu (à dir.), com a comitiva da PUC-PR: eles vêm aí |
O possível
desembarque da PUC, embora ainda não se saiba como e quando, é
o capítulo mais recente de um ano acelerado na arena do ensino
superior joinvilense. Meses depois da UFSC
confirmar que o Campus Norte será na chamada “Curva do Arroz”,
inauguração prevista para 2010 e vestibular anunciado já
para 2009, uma organização paulista comprou duas faculdades
locais (em fevereiro), a Sociesc
abriu as portas de sua nova sede na Zona Sul (em junho), orçada
em R$ 27 milhões, e a Univille
firmou parceria com o Ielusc
(em setembro) – entre outros lances de menor repercussão
e especulações, até, de que algumas instituições
estariam ganhando musculatura para captar investidores fora do Brasil.
O lado bom de tanta novidade junta está em alargar o funil de acesso
ao terceiro grau: hoje, conforme o Ministério da Educação,
são 141 cursos disponíveis na cidade, número oficial
que já foi, com certeza, ultrapassado. E com amplo leque de opções,
das carreiras tradicionais (Medicina, Direito, Engenharia etc.) aos programas
ligados à tecnologia (contam-se 60 habilitações nesse
ramo, como Mecatrônica Industrial e Logística), passando
por serviços e afins (Moda, Gastronomia, Marketing etc.).
Entre 2002
e 2006, de acordo com o MEC, o volume de matrículas computadas
evoluiu 60%, saltando de 11.531 para 18.518. No mesmo período,
as vagas dobraram, mas o total de alunos novos não acompanhou,
crescendo coisa de 50%. Contabilizando 12
instituições no páreo, subentende-se que a concorrência
tende a se acirrar. Foi o que motivou a reação de duas delas,
Univille e Ielusc, com o acordo de cooperação mútua
assinado no segundo semestre. São objetivos do pacto: aliar competências,
aproximar projetos voltados ao ensino e à pesquisa, incrementar
a economia de escala e fortalecer o compromisso comunitário, resguardando
a autonomia de cada uma. Na prática, a idéia é que
as parceiras venham a partilhar recursos, laboratórios, equipamentos
e professores, integrem suas bibliotecas e estudem uma possível
unificação da pós-graduação. O primeiro
passo concreto foi a campanha conjunta do vestibular de verão,
a partir de outubro.
O joio e o trigo
Mais do que um acordo operacional, o diretor-geral do Ielusc, pastor Tito
Lívio Lermen, sublinha que a aliança pretende reafirmar
publicamente a compreensão humanista sobre o papel da educação.
“Queremos que a sociedade separe o joio do trigo. Que faça
uma leitura crítica e valorize as escolas de caráter comunitário,
distantes da orientação mercantilista”, reitera Tito.
“Precisamos dizer que somos diferentes. Nossa vertente é
enriquecer a educação, e não enriquecer com a educação.”
A pró-reitora de Ensino da Univille, Ilanil Coelho, reforça
que a parceria é uma resposta “a quem vê a educação
como bem consumível”. Ela se diz contrariada com a “distorção”
que testemunha no debate sobre o significado da formação
superior: “A missão da universidade não é apenas
inserir o indivíduo no mundo do trabalho, mas sim comprometê-lo
com o contexto social. É um exercício de cidadania e conquista
de direitos”.
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| Pastor
Tito aponta instalações do Ielusc: "Somos diferentes" |
Presidente
da Associação Catarinense das Fundações Educacionais
(Acafe), Paulo Ivo Koehntopp, também reitor da Univille, defende
que a fórmula para a competitividade está em ações
coletivas, na linha do acordo com o Ielusc. À frente da Acafe,
ele estimula as universidades filiadas a atuar como sistema, de fato,
sem disputar acadêmicos entre si. “Fazemos compras em comum,
promovemos a mobilidade de professores e estudantes, compartilhamos serviços
e estruturas”, descreve Paulo Ivo. No mesmo embalo, a Univille conduziu
uma reengenharia em seus cursos de licenciatura, revisando processos internos
e integrando disciplinas. Resultado: os calouros de 2009 vão pagar
mensalidades 30% a 40% mais baixas. Quanto ao avanço da concorrência,
o reitor entende que o cenário exige criatividade para que as instituições
demonstrem as competências ao mercado. Em contrapartida, pede maior
rigor do governo na regulamentação de faculdades que estabelecem
somente o preço como atrativo. “Preocupa que, em determinados
casos, o público não saiba o que está comprando e
se iluda com jogadas de marketing”, critica.
Demanda
aquecida
Ao longo do ano, um estabelecimento que nasceu em 1959, como escola técnica
vinculada à Fundição Tupy, deu duas tacadas que chamaram
atenção. A Sociesc entregou, no final de junho, sua segunda
unidade joinvilense: um prédio de 20 mil metros quadrados, no bairro
Anita Garibaldi, preparado para até 12 mil alunos. O novo campus
estreou com dez cursos de graduação e 21 pós, em
convênio com a Fundação Getulio Vargas (FGV). O carro-chefe
é o ambiente multimídia nas salas de aula. Mais adiante,
na metade de outubro, espichou a área do campus ao comprar um terreno
vizinho, de 16,6 mil metros quadrados, por R$ 5 milhões, e incorporou
uma faculdade sediada em Balneário Camboriú, sétima
cidade em que se instala (as outras, além de Joinville, são
Itajaí, Blumenau, Florianópolis, São Bento do Sul
e Curitiba). O diretor de Ensino, Roque Mattei, garante que a demanda
está aquecida para cursos de perfil tecnológico, predominantes
na Sociesc. “Há carência de mão-de-obra na área,
que é fundamental para o Brasil crescer”, observa Mattei,
que não perde o sono com a chegada de novas instituições:
“As regiões com maior potencial são aquelas em que
existe grande concentração de faculdades. Isso gera um círculo
virtuoso e, da nossa parte, é um alerta para fazermos sempre o
melhor”.
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| Professor
Roque, da Sociesc: um "círculo virtuoso" |
Outra operação
que envolveu investimentos pesados foi a compra de três estabelecimentos
regionais pelo grupo paulista Anhanguera. Fundada em 1994, com 720 mil
alunos de formação superior e profissionalizante, a organização
desembolsou R$ 30 milhões pelas joinvilenses Fatesc e Iesville
e pela Fatej, de Jaraguá do Sul. O alvo: jovens de média
e baixa renda que trabalham de dia e estudam à noite – “segmento
com grande demanda reprimida no Brasil”, segundo o diretor de Marketing
Higino Viegas. “Proporcionamos ensino de qualidade a pessoas que,
até então, não teriam acesso [a uma faculdade]”,
ressalta. As mensalidades são baratas, a partir de R$ 289, e um
dos focos são as graduações em tecnologia, com duração
entre dois e três anos, direcionadas ao estudante que busca entrar
logo no mercado. Na metade de dezembro, nova cartada com o anúncio
de um aporte de R$ 17,5 milhões para reformar e ampliar as unidades
adquiridas. O diretor Higino antecipa que o grupo presta atenção
em outras regiões catarinenses, analisando planos de novas unidades
no Estado. Ele reconhece que os movimentos recentes podem ter inquietado
o meio acadêmico local – “como em qualquer segmento,
a vinda de uma nova concorrente é sempre motivo de expectativas”
–, mas afiança que, aos poucos, isso tende a se dissipar.
Detalhe
é que os movimentos continuam. Para breve, esperam-se novidades
no projeto PUC, que já andaria pela fase de definir endereço.
A intenção da PUC paranaense em descer a serra, rumo a Joinville,
tem cerca de dois anos. De olho no envolvimento do empresariado local
em inovação e pesquisa, a universidade entende que a aproximação
com o setor produtivo será vital para manter o fôlego das
instituições de ensino superior nesse novo contexto. “É
um elemento que nos atrai em Joinville: a cidade não vende apenas
produtos, mas tecnologia”, assinala o catarinense Frederico Unterberger,
vice-presidente da APC, mantenedora da PUC-PR. Além da atuação
em pesquisa, o superintendente da entidade, Marco Cândido, aposta
em credenciais como formação baseada nos valores do humanismo
cristão, excelência acadêmica e sintonia social para
pavimentar a expansão da PUC. Prognóstico de Cândido:
“O mercado de ensino superior passará por uma depuração.
Entidades com claros diferenciais terão lugar ao Sol”.
O bispo de Joinville, dom Irineu Roque Scherer, vem acompanhando de perto
as articulações da PUC para ocupar esse lugar. Nas primeiras
reuniões com os emissários de lá, ficou surpreso
ante o volume de informações sobre o mercado local que a
comissão trazia debaixo do braço. “Vieram com um material
completo, cheio de dados sobre todas as faculdades e universidades que
existem em Joinville, a situação de cada uma, onde poderiam
atuar, se seria possível comprar algum curso...”, observa
dom Irineu. “A PUC tem real interesse em se fixar na cidade, mesmo
que com uma oferta inicial mais restrita”, garante o bispo, na expectativa
de que, entre os primeiros cursos, possam estar opções voltadas
à formação de religiosos. “Nosso sonho é
que a PUC venha abrigar os cursos de Teologia mantidos pela Diocese. Até
porque, falou em PUC, falou em seriedade e qualidade.”
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| Bonet,
gestor da FCJ: oferta aumenta e melhora o acesso |
Pólo
intelectual
O provável ingresso da PUC e a contagem regressiva para o Campus
Norte da UFSC não incomodam quem atua na área. “São
instituições sérias”, constata o diretor-geral
do Ielusc, Tito Lívio Lermen. “Quanto mais nomes desse calibre
se instalarem, melhor será nosso trabalho de distinguir o mercantilismo
da educação.” Dieter Neermann, diretor-geral da Udesc
Joinville, “aplaude e valoriza” a opção da UFSC.
“A proposta deles, inovadora, vai criar um pólo intelectual
gerador de conhecimento. Precisamos mesmo diversificar, até para
atrair empreendimentos de ponta, o que por si é alvissareiro”,
avalia Neermann. “Na Udesc, estamos tranqüilos, trabalhando
para melhorar ainda mais o que for necessário à formação
de nossos acadêmicos.” Já a Faculdade Cenecista de
Joinville (FCJ) avalia que o aumento da oferta é positivo, por
oportunizar a possibilidade de escolha do acadêmico pelas “melhores
instituições e projetos”, como registra o gestor de
pós-graduação Airton Bonet. Quanto à UFSC,
especificamente, Bonet espera que amplie o acesso da população
mais pobre aos bancos universitários e consolide Joinville como
metrópole. “Além, claro, de contarmos com mestrados
e doutorados, outra necessidade da região que não é
possível sem investimento público acentuado.”
Mais antiga instituição particular de ensino superior no
Estado, a Associação Catarinense de Ensino (ACE) afirma
que não tem sentido o impacto dessa movimentação
na procura pelas seis habilitações disponíveis. “Estão
todas equilibradas e as turmas vêm fechando sempre, nos últimos
vestibulares”, informa o diretor-geral Petrônio Guimbala.
Ele conta que foi visitado por representantes da PUC, interessados em
costurar um possível negócio. Não topou. “Gosto
muito do ensino. Se gostasse de dinheiro, venderia isso aqui e iria morar
na praia”, reage Guimbala, que faz questão de ser reconhecido
por dois atributos: qualidade e tradição. “Nossos
cursos alcançam sempre ótimas classificações”,
orgulha-se. “Mas temos um pecado, somos meio mineiros, agimos em
silêncio.”
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CONSTRUÇÃO
DO
CONHECIMENTO
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Em
outubro, a prefeitura concluiu a doação dos terrenos
(foto acima) para o campus da UFSC às margens da BR-101,
em Joinville. Dias depois, vice-reitor Carlos Alberto Justo concedeu
esta entrevista à Revista Döhler, antecipando que o
projeto vai além da graduação.
Qual o objetivo da universidade ao implantar novos campii
pelo Estado?
O projeto de expansão manterá os valores
e conceitos que transformaram a UFSC em uma das principais universidades
do país. A graduação é apenas uma etapa.
A expansão desse setor, principalmente pela iniciativa privada,
torna imperativo desenvolver e ampliar a pós-graduação
e toda a área de construção do conhecimento,
por intermédio da pesquisa. O país precisa avançar
em seu desenvolvimento científico e tecnológico. Esse
é o grande projeto da UFSC.
Quando será o primeiro vestibular e quando o Campus
Norte entra em operação?
Faremos pela primeira vez o vestibular de inverno em julho
de 2009 para atender os novos cursos que serão criados em
todos os campii.
Em
que fase está o projeto?
Já temos todos os estudos prévios concluídos.
Licitamos os projetos para obter os licenciamentos ambientais e
a aprovação do plano diretor. A partir daí,
necessitamos de algumas definições junto à
prefeitura sobre a via de acesso ao campus e a finalização
do projeto do primeiro prédio, para então licitarmos
a obra. Se não houver contratempos, acreditamos que em 2010
as aulas já sejam realizadas em nosso campus.
Que
cursos serão oferecidos?
Iniciaremos com Engenharia da Mobilidade, com habilitações
em naval e oceânica, automotiva, aeronáutica, ferroviária,
infra-estrutura, tráfego e logística, automação
e computação. A longo prazo, dependerá da política
federal para o setor, aliada à capacidade de captação
de recursos e interesse regional. Ainda estamos definindo detalhes,
mas a previsão é de abrir em torno de 200 vagas por
semestre. Os cursos não têm paralelo nacional, e em
alguns aspectos nem internacional.
De que modo a instalação de um campus como
o que a UFSC projeta para Joinville se reflete no desenvolvimento
socioeconômico da região?
A Região Norte tem um forte pólo industrial
diversificado, com destaque para a área metal-mecânica.
Os cursos propostos visam formar profissionais aproveitando a potencialidade
existente, bem como desenvolver novas tecnologias que possam determinar
um maior potencial competitivo para a região. Quanto ao impacto
local, basta imaginar o que era a área adjacente à
fazenda Assis Brasil no início da década de 60, quando
da instalação da UFSC em Florianópolis, e o
que é hoje a região em torno da universidade. Entendemos
que a sugestão do local, na Zona Sul de Joinville, já
vem de encontro à idéia de revitalização
dessa parte da cidade, que contrasta com o franco desenvolvimento
do Norte da cidade.
(Leia reportagem nesta edição sobre a expansão
da Zona Sul de Joinville.)
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