MUITO
ALÉM Até meados dos anos 80 do século passado, eram escassas as chances de jantar fora em Joinville. Raros restaurantes no entorno do Centro, uma ou outra pizzaria e menos de meia dúzia de churrascarias nos bairros, além de lanchonetes e carrinhos de cachorro-quente. E lá ia o joinvilense vestir o pijama cedo. Hoje, a realidade é outra, e o problema é igual ao do técnico de futebol que tem um elenco de qualidade à disposição: excesso de boas opções. Resultado: só fica em casa quem quer. É possível iniciar um roteiro de diversão e boa mesa no fim da noite, horário em que o joinvilense de algum tempo atrás estaria no terceiro sono. O primeiro nome que vem à mente, de dois anos para cá, é a chamada “Via Gastronômica”, denominação dada à Rua Visconde de Taunay, em praticamen¬te toda sua extensão. Nesse eixo, diversos bares, restaurantes e casas de baladas dividem espaço e preferência do público. É difícil passar pela Visconde, à noite, e ver algum local vazio. Aliás, nos finais de semana, é difícil simplesmente passar pela Visconde... A prefeitura oficializou o apelido da Via Gastronômica, colocou um totem indicativo e está reurbanizando a Visconde. Os trabalhos incluem a adequação dos estabelecimentos às normas legais – especialmente quanto ao som – e obras físicas, como o aterramento da rede elétrica. Enquanto isso, um novo panorama vem se desenhando no roteiro de diversão e gastronomia de Joinville. O mapa extrapola a Visconde de Taunay, e o que se restringia ao pedaço que vai da Confeitaria XV ao Inconfidência já dobrou a esquina e serpenteia em direção a outras paragens.
A esquina dobrada leva à Rua Ministro Calógeras, onde o saudoso restaurante Fritz Alemão cedeu lugar a vários outros estabelecimentos, tanto gastronômicos quanto dedicados às baladas. As ruas Otto Boehm, Aquidaban e Max Colin começam a formar o esqueleto de um novo quadrilátero rodeando o Centro. As opções vão de botequins a restaurantes finos ou étnicos, passando por lanchonetes, pizzarias, churrascarias e o recentemente inaugurado Parque Opa Bier, na Max Colin. O Parque é, em si, uma “via gastronômica”, com uma fileira de casas especializadas em variados tipos de cozinha, para o cliente decidir na hora se prefere comida japonesa, frutos do mar, costela ou massas, por exemplo. Sublinhando o foco na família, um dos destaques do lugar é a enorme área de lazer e recreação para a criançada. O empreendimento custou R$ 1 milhão. Investimentos de peso, diga-se, deixaram de ser exceção no setor. Embora muitos prefiram não revelar valores, a imprensa noticiou recentemente que, só entre cinco novos estabelecimentos que estavam para entrar em operação, a injeção de recursos chegava a R$ 3 milhões, cifra que foi superada por novidades que surgiram depois. Por certo, uma aposta no considerável potencial de consumo do joinvilense, estimado pela consultoria Target Marketing em R$ 6,18 bilhões para 2008. Definir vocações Para o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Joinville e Região (Sihrbes), Fernando Sanjuan, a Via Gastronômica deve consolidar a vocação de sediar restaurantes, e não casas noturnas, embora já existam algumas do gênero por ali. “Os empreendedores precisam ter visão de negócio e, sobretudo, entender gastronomia como cultura, ajudando a valorizar e divulgar o movimento cultural, fazendo eles próprios seus eventos ou apoiando shows, teatro, música, exposições etc.”, recomenda Sanjuan. Unir forças e pensar o espaço de forma conjunta, para oferecer outras ações que o valorizem, é o rumo que o dirigente aponta para os empresários. “Na concepção do negócio, é importante que se tenha uma preocupação sócio-estrutural: saber quem é o público e o que ele deseja”, avalia o líder de classe, citando como exemplo o bairro de Santa Felicidade, em Curitiba. Se quiser atingir resultado parecido, é necessário, segundo Sanjuan, que a Via Gastronômica siga se expandindo para os arredores. Além disso, o setor precisa intensificar conversações com os órgãos públicos em busca de apoio. “Tudo isso deve integrar uma política para o turismo, da qual a cidade ainda carece. O turismo de negócios está consolidado. Precisamos olhar com atenção para o turismo doméstico, voltado à família, agregando as belezas naturais da região e, claro, as opções de lazer e gastronomia.” O setor continua fisgando interessados em colher os dividendos dessa promissora faceta da economia joinvilense. Uma empresa local, Delfos Informações Estratégicas, conduz pesquisas simultâneas para três clientes nesse ramo, prospectando oportunidades. “Muitos querem investir, e buscam informações detalhadas sobre o mercado”, explica a coordenadora de pesquisas da Delfos, Edna Amâncio Correia, sem detalhar os estudos já realizados. E os novos empreendimentos que se espalham pela cidade sugerem que o mercado continua promissor. A safra mais recente de inau-gurações se deu no último trimestre de 2008. Instalada em imóvel que, até há pouco, abrigava uma loja de móveis chiques, próxima ao 62º Batalhão de Infantaria, a V12 Lounge de Eventos emplacou shows bacanas, como o do nostálgico The Mamas & The Papas, com nova formação. A proposta é oferecer atrações como essas em apresentações musicais temperadas com jantares, em um ambiente elegante. Outra novidade é o Fiji Bar, situado logo na primeira curva da Via Gastronômica, próximo ao antigo endereço do Tritão. O espaço se destaca pela arquitetura, inspirada nas construções praianas das ilhas da Oceania e da Polinésia Francesa. No cardápio, frutos do mar e música ao vivo. Mais um botequim, na Rua Ministro Calógeras, que prolongou a Via Gastronômica, e uma boate voltada ao público GLS, na Avenida JK, completam o pacote de novas casas abertas às vésperas do verão. O Villa Madalena Botequim, como sugere o nome, aposta no formato de boteco tradicional, com chopes, petiscos e mesa de sinuca, “importando” pratos populares dos bares paulistanos. Trata-se, aliás, de uma homenagem ao bairro paulistano celebrado pela boêmia ininterrupta. Por fim, a boate Up, que aposta em um segmento até então pouco lembrado na noite joinvilense.
Se a carta de opções na Via Gastronômica e imediações anda assim tão variada, volta à pauta a questão vocacional: afinal, ali deve ser um local com restaurantes voltados a famílias – incluídas as crianças –, ou vai se afirmar como point da juventude? “Hoje, 80% dos freqüentadores desses lugares é jovem”, calcula o carioca Armando Augusto da Silva Filho, administrador do Opa Bier Bar, na Max Colin, e da JK Choperia – este, aberto no segundo semestre, na Avenida JK. Para ele, que tem mais de 30 anos de experiência no setor de hotelaria e lazer, há espaço e público para todo mundo, mas a Via Gastronômica ainda precisa “acertar o foco: ou é gastronomia – e, assim, destinada a um público adulto, que pode freqüentar bons restaurantes – ou é balada, com bares, petiscos, bebida e casas noturnas”. Os públicos até podem conviver bem – mas as receitas de empresas tão diferenciadas, não. Diversificação Nesse bolo, é consenso que a fatia da gastronomia nunca esteve tão saborosa. O tradicional trinômio lanchonete/churras¬caria/pizzaria foi substituído por uma ampla variedade de aromas e sabores. Há cozinha oriental, árabe, germânica, italiana, espanhola... Ainda há espaço para mais? “Essa é uma área difícil, com bastante modismo e concorrência aumentando. Há espaço para quem é competente”, decreta o gerente do Botequim São Francisco, Dagoberdt Fritzke, o Dago. No coração da Visconde, o Botequim é um dos estabelecimentos da nova geração da Via Gastronômica. O próprio Dago já dirigiu outra choperia, a Tulipas, ali mesmo na Visconde, no início da década. “Naquele tempo, só havia cinco choperias na cidade”, lembra. Atuando na área há mais de 20 anos, Dago traz na genética a vocação: seu pai é Alitor Fritzke, o mais famoso ecônomo que passou pela Sociedade Harmonia-Lyra. Hoje cursando a faculdade de Gastronomia da Univille, Dago trabalhou na própria Lyra, depois no Joinville Tênis Clube e no Sargentos, além do Tulipas. Enquanto prepara um coquetel São Francisco, revela uma curiosidade: “Cerca de 60% dos bares do Brasil têm nome de santo”. Como no São Francisco, é a diversificação que pau¬ta o rumo de outra tradicional casa da Via Gastronômica, o Zum Schlauch. Do happy-hour com chope e petiscos até os pratos sofisticados, o Zum também administra um “clube do uísque” entre seus freqüentadores. “Temos 135 sócios, cada um com sua garrafa, guardada num reserva-do numerado e fechado”, conta o gerente Oldair José da Silva. Clientes fiéis marcam presença diária. É o caso de um grupo de funcionários da Rádio Floresta Negra, que elegeu a casa como uma das preferidas. “Aqui está sempre aberto e o atendimento é muito bom”, atesta a coordenadora de Jornalismo, Rejane Gambin. Normalmente, o grupo racha as despesas, mas, no dia da reportagem, a empresa estava bancando tudo. “Em algumas ocasiões, a rádio promove esses encontros e paga a despesa”, explica a diretora Ana Paula Peixer. Os chefs Rodrigo Velho e Jonni Colin dividem a administração da cozinha do Zum. Em breve, o menu terá duas novidades para aguçar o apetite da freguesia: pratos à base de bacalhau e avestruz.
O novo momento da gastronomia joinvilense também tem raízes antigas. Estabelecimentos antigos acabam se adaptando e produzindo um mix de tradição e modernidade. É o caso do Botequim da Frau, remanescente de uma Joinville tipicamente alemã, hoje transformado em point. Fundado em 1949 por Lauro e Edewig Schmidt como Bar e Sorveteria Colon, virou clube de tiro em 1958 e voltou a ser botequim em 1961. Em 1969, foi comprado por Elinor Ritzmann, a “frau Ritzmann”, e, desde julho de 2006, é dirigido por quatro sócios, vindos de São Paulo, Jaraguá do Sul, Santo André e Blumenau, respectivamente Wilson Murias, Zimauro Chiodini, Fernando Nascimento e José Manzan. Wilson, mais conhecido como Wil Murias, é o administrador. Situado na esquina das ruas Aquidaban e Otto Boehm, o Botequim da Frau é mais um que desloca o eixo gastronômico da Visconde para outras direções. “Procuramos manter a tradição, com um toque de modernida¬de e requinte”, explica Wil, enquanto vai cumprimentando cada freguês que entra. “Conhecemos praticamente todos os clientes pelo nome. Muitos chegam, sentam-se e já estão sendo servidos, sem precisar pedir”, garante o gestor do Botequim, informando que passam pelo local, em média, 3 mil pessoas por mês.
“O lado bom desse novo momento da diversão e da gastronomia de Joinville é justamente a diversidade, a oferta de opções variadas”, opina Wil Murias. E já aproveita para adiantar seu novo projeto: um restaurante mexicano. A cidade quer mais: “Ainda não temos um restaurante de comida cubana, por exemplo”, lembra Therence Mir, da Mercearia Sofia, petis¬queira e restaurante que virou ponto de en-contro no Mercado Público Municipal. “Joinville ainda precisa de uma boa lasa¬nheria”, acrescenta o chef Jonni Colin. Aula na cozinha A formação de mão-de-obra no ramo gastronômico começa a acompanhar o crescimento do setor. Além dos tradicionais cursos do Senac, a cidade conta com faculdade de Gastronomia, aberta pela Univille em 2007. A coordenadora do curso, Yoná da Silva Dalonso, justifica a iniciativa como “estímulo ao empreendedorismo”. Os futuros chefs não são esquecidos. Em 2008, o Inconfidência Restaurante e Choperia iniciou um projeto chamado curso Jovem Gourmet. Ali, adolescentes entre 14 e 19 anos aprendem os caminhos básicos da cozinha – inclusive a limpeza. “Queremos despertar a vocação dos jovens para a culinária, visando à formação de novos chefs”, diz Cristina Gonçalves, dona do Inconfidência, para a alegria dessa nova geração de joinvilenses que já não dormem mais tão cedo e têm fartas oportunidades de curtir os embalos da noite, todos os dias da semana.
NAVEGUE AQUI • • • • • • • • • • • • • • Conheça os sites de alguns dos estabelecimentos citados nesta reportagem: V12 Lounge de Eventos, Botequim São Francisco, Zum Schlauch, Botequim da Frau, Mercearia Sofia e Inconfidência. Visite a home page da Delfos Informações Estratégicas, de Joinville. Saiba mais sobre a faculdade de Gastronomia da Univille. Antes
de sair à noite, consulte os roteiros do Hagah,
portal de entretenimento e serviços da RBS. |